"Quando falamos de transformação digital, isso está morto"

As palavras são de Anton Musgrave, estratega e futurista, que participou na quinta edição da conferência HINTT 2021. Para o especialista, a indústria da saúde e do bem-estar precisa de reimaginar os modelos de negócio para preparar o amanhã.

Não há bola de cristal que indique como será o mundo no futuro, mas existem pistas e sinais que anunciam tendências e potenciais caminhos a seguir. É, pelo menos, essa a perspetiva de Anton Musgrave, estratega e futurista, que acredita ser fundamental antecipar o horizonte para preparar a indústria da saúde e do bem-estar para o amanhã. O especialista foi orador principal na quinta edição do HINTT - Health Intelligent Talks & Trends, evento promovido pela Glintt em parceria com o Diário de Notícias no passado dia 8, em Lisboa, onde deixou claro que a tecnologia está a transformar o sector a um ritmo alucinante.

"A velocidade é hoje diferenciadora, mas lembrem-se que, em 2030, todos serão rápidos e por isso será necessário reimaginar como serão os modelos de negócio que permitem à indústria vingar", assinalou. O truque, garante, é apostar "na nossa capacidade de pensar além do óbvio" e perceber, antecipadamente, quais são os domínios em que vale a pena apostar hoje para que, amanhã, possam ser relevantes no mercado. Para Musgrave, um exemplo claro de antecipação é a Tesla e a sua aposta na criação de um ecossistema digital com potencial de crescimento, que permite à empresa de Elon Musk ultrapassar em valor gigantes automóveis do passado. "Musk está a criar o futuro líder automóvel combinando mobilidade, energias renováveis, inteligência artificial, quantum computing e muitas outras dimensões do mundo de amanhã", aponta.

Na área da saúde, Anton Musgrave diz que "a digitalização já aconteceu" e que as empresas que ainda estão a falar em transformação digital "estão atrás da curva" de inovação e vão perder relevância. "Três ou quatro anos antes da covid-19, ninguém achava possível que alguém quisesse falar com um psiquiatra ou psicólogo online e, no entanto, hoje vemos muito investimento dos mercados de capitais na telemedicina", sublinha. Será, porém, fundamental mudar a forma como os dados em saúde são usados, aumentando a interoperabilidade das informações pessoais e redefinindo a política de privacidade associada. "A minha perspetiva? Deem todos os meus dados a toda a gente desde que sejam usados em meu favor", defende Musgrave.

O futurista afirma que é importante que os gestores pensem como será o futuro em 2030, percebam quais são as tendências e as desenvolvam antecipadamente. Só assim, acredita, será possível vingar no "novo mundo" que aí vem. Na indústria da saúde e do bem-estar, Musgrave não tem dúvidas do potencial que a comida terá no futuro, com a ciência a criar alimentos em laboratório que contenham os nutrientes e químicos necessários que o corpo humano precisa. "Acho que em 2030, 60% da população será vegan e não será por escolha", provoca, dando, logo de seguida, a resposta que a audiência do Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, esperava. "Será muito difícil e muito caro comprar comida com origem animal", diz.

As potencialidades de um mundo repleto de tecnologia e alimentado a velocidades garantidas pelo 5G são, afirma, muitas nos sectores da educação e da saúde. E como "não há especialistas no futuro", é preciso que as empresas sejam criativas na forma de pensar o amanhã.

Apostar na inovação nacional

Apesar de tudo o que de negativo a pandemia trouxe à sociedade, a colaboração e a utilização em massa de tecnologias como a inteligência artificial e o machine learning permitiram alcançar inovações que não seriam expectáveis antes de março de 2020. Agora, defendeu Filipa Fixe, membro da Comissão Executiva da Glintt, é preciso continuar a apostar no desenvolvimento da tecnologia e no seu direcionamento para a saúde para que tenhamos "uma sociedade mais bem preparada para as próximas pandemias". "Os profissionais de saúde do amanhã serão aqueles que conseguem transformar os cuidados de saúde em cuidados de maior proximidade através da tecnologia e não lutando com a tecnologia", antecipa. Ao longo da quinta edição do HINTT, que reservou tempo para a atribuição dos prémios anuais a projetos de inovação em saúde, foram agraciadas quatro entidades com ideias revolucionárias no sector (conheça os vencedores na caixa). Adicionalmente, a Glintt anunciou uma parceria com a Agência Nacional de Inovação (ANI) para atribuir, na próxima edição dos prémios HINTT, uma nova distinção dirigida a "visionários, inovadores e gente que tem ideias que podem transformar a nossa sociedade", explica ao DN João Mendes Borga. O membro da Comissão Executiva da ANI diz ainda que este novo prémio pretende ajudar cientistas e empreendedores a "conseguir tração, credibilidade e visibilidade" para os seus projetos, de forma a acelerar a sua eventual adoção pelo mercado. "Às vezes não temos perceção daquilo que se faz com extrema qualidade em Portugal", refere, sublinhando que esta parceria com a Glintt e o HINTT quer contribuir para aumentar o palco de projetos disruptivos.

O futuro da saúde é prevenir de forma eficaz

Pensos inteligentes ou uma ferramenta para a deteção precoce do cancro da pele são apenas dois exemplos de projetos inovadores agraciados com o Prémio HINTT 2021. Conheça os vencedores.

A "excelência e o esforço tecnológico" marcaram as dez candidaturas finalistas ao Prémio HINTT 2021, que abarca quatro categorias - Startup Innovation, Value Proposition, Clinical Outcomes e Patient Safety -, começou por dizer o presidente do júri. José Martins Nunes destacou ainda que "o conhecimento é a maior riqueza de um país", justificando a importância de reconhecer e premiar projetos disruptivos na área da saúde, que considera serem "internacionalmente competitivos". De uma dezena de participantes, apenas quatro foram premiados.

Desenvolvido pela equipa da BestHealth4U, o adhesiv.AI - Remote Wound Care foi a ideia vencedora na categoria Startup Innovation. Trata-se de um "adesivo inteligente que faz a monitorização da ferida, seja ela crónica ou pós-cirúrgica, que consegue acompanhar o doente de forma remota, enquanto permite poupar recursos ao SNS", explica ao DN a CEO e responsável Sónia Ferreira. Atualmente na fase de protótipo, o adhesiv.AI terá ainda de passar por validação através de estudos clínicos e certificações das autoridades de saúde. "Só daqui a dois ou três anos conseguiremos trazer este produto ao mercado", diz Sónia Ferreira, que considera que "ter este suporte [da Glintt e do HINTT] é um privilégio". "Acreditamos que o prémio vai trazer visibilidade junto dos parceiros de que precisamos nas diversas etapas do desenvolvimento para que o produto chegue a quem necessita dele o mais rapidamente possível", acrescenta.

Cuidar da pele é também o objetivo do Derm.AI, vencedor na categoria Clinical Outcomes e criado pela equipa da Fraunhofer AICOS em parceria com os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), que criaram uma ferramenta baseada em inteligência artificial (IA) para a leitura de sinais e outras marcas potencialmente malignas. A investigadora Maria Vasconcelos diz que o objetivo é que este possa ser um recurso colocado à disposição dos cuidados de saúde primários para, no processo de referenciação, "garantir qualidade de imagem enviada aos dermatologistas". "Espero que este prémio contribua para a divulgação do DermAI e para a prestação de melhores cuidados de saúde no SNS", aponta, destacando ainda o papel de iniciativas que permitam "divulgar projetos inovadores" com benefício para o ecossistema da saúde.

Os SPMS receberam, ainda, uma segunda distinção, na categoria Patient Safety, pela criação do portal de agendamento para a vacinação contra a covid-19. "Foi desenvolvido no auge da pandemia e debaixo de muita pressão", começa por dizer Sandra Cavaco, vogal do Conselho de Administração. A inovação, explica, está na possibilidade de colocar vários serviços do SNS e do Estado a falar entre si. "É um projeto de sucesso e que gostaríamos de ver replicado noutras situações no futuro", afirma, sublinhando a importância deste reconhecimento. Para Pedro Sá Moreira, diretor de Planeamento e Desenvolvimento Organizacional, esta foi uma ferramenta "essencial" para que Portugal seja hoje exemplo internacional na vacinação da população e que mostra, também, a capacidade de inovação da administração pública.

Ainda no sector público, a equipa liderada por John Preto, do Centro Hospitalar e Universitário de São João (CHUSJ), venceu na categoria Value Proposition com o projeto CRI - Obesidade. O responsável explica tratar-se de uma ferramenta de gestão operacional com troca de dados em tempo real que permite "a monitorização de todos os doentes" obesos do hospital. Nos seis meses de teste, foi possível aumentar de 30% para 70% o acompanhamento destes doentes. "O reconhecimento deste prémio não só valoriza o projeto, como nos dá o estímulo para o desenvolver ainda mais. Iniciativas como o Prémio HINTT estimulam a criatividade e o desenvolvimento de novas soluções digitais aplicadas à saúde".

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