"Usar a net não é um vício. Mas estar sempre online sim"

Há cada vez mais pessoas a pedir ajuda para tratar a dependência do jogo. Pedro Hubert, psicólogo e coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador, fala ao DN dessa realidade

Um dos temas do segundo dia do III Congresso do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências que decorre até amanhã no Centro Cultural de Belém é o jogo (online e tradicional). O psicólogo Pedro Hubert, especialista no tratamento de jogadores compulsivos, é um dos oradores. Ao DN fala da negação que os jogadores apresentam sobre o vício. E o problema que são os videojogos.

O seu livro tem o título "O problema do jogo. O tratamento da dependência invisível". Com tantos alertas este ainda é um problema invisível?

Os sintomas e os sinais continuam a ser invisíveis porque as pessoas que têm dependência do jogo são muito boas a manobrar e a esconder os sintomas. Agora, claro que quanto mais conhecimento se tiver sobre os sintomas, mais depressa vão perceber a dependência.

E que sinais são esses?

No jogo a dinheiro o sinal mais óbvio é a rutura financeira. No caso do Instituto de Apoio ao Jogador são cerca de 60% dos casos que nos chegam. Outros sinais são as alterações de humor, a depressão, o desaparecimento, as pessoas que só falam sobre o jogo online , estar muito tempo em frente ao computador ou nas aplicações de telemóvel. Mas, são mais os casos de depressão, ansiedade, as mentiras e o stress.

Há mais pessoas em tratamento?

Posso falar por mim e pelo IAJ e, de facto, tem crescido aqui e em todo o mundo. Há uma indústria que se tem posicionado bem, com muito marketing.

E que tipo de jogadores pedem ajuda?

Há um percurso interessante: quando comecei a trabalhar nesta área há 17/18 anos eram sobretudo os jogadores de casino (slot machines, roleta etc), depois começou a surgir o jogo online, primeiro o póquer e depois as apostas desportivas, que são a maior parte dos nossos pacientes hoje em dia. E de há 7/8 anos para cá começaram a aparecer os gamers, ou seja os jogadores dos videojogos. E estes já com problemas ao nível de resultados académicos e de comportamento.

O facto de os jovens viverem online potencia esses problemas?

A adição [vício] hoje em dia é estar sempre online . Há muito a ideia que a internet é um vício, mas não é bem isso. O que a internet faz é potenciar, facilitar, o acesso a determinados comportamentos que podem ser aditivos: as redes sociais, o jogo a dinheiro, os videojogos. Portanto, a net não é o problema, potencia é a forma de aceder às coisas.

Os problemas que vos estão a chegar são referentes às apostas a dinheiro e os videojogos?

Há fases em que 20% dos pedidos de consultas ao Instituto de Apoio ao Jogador são de famílias que querem trazer os filhos. Sendo que 99% dos pacientes não quer vir.

Perante os sinais de que fala quem procura ajuda: os familiares ou os jogadores?

Não tenho estatísticas certas, mas diria que para o jogo a dinheiro 50% dos primeiros telefonemas são da mulher, pois o jogo é essencialmente uma patologia masculina. Os outros 50% são de jogadores em fase de desespero. No gamer , em dezenas de casos que já tivemos até hoje só tivemos um em que foi a própria pessoa a pedir ajuda.

Estamos sempre a falar de jovens?

As populações de risco são os jovens, pela sua impulsividade e falta de experiência. No jogo online, segundo o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos mais de 65% dos jogadores (e são mais 700 mil esses registos) tem entre os 18 e 34 anos. A outra população de risco são os seniores. Têm a reforma, tempo livre para ir aos casinos ou jogar online.

De que tipo de gravidade falamos?

Por exemplo, de um rapaz de 35 anos que vivia com a mãe, e que nunca tinha trabalhado na vida. Estava completamente dependente logística e financeiramente da mãe e estava 16 horas por dia ao computador. Não tinha nenhuma autonomia, veio a duas ou três consultas e depois nunca mais apareceu.

A Organização Mundial de Saúde classificou a dependência de videojogos como um distúrbio psiquiátrico. O que muda com esta classificação?

Imensa coisa. A partir deste momento, os critérios de diagnóstico são iguais em todo o mundo. Há uma uniformização desta patologia e a partir daí pode-se fazer investigação, prevenção, elaborar tratamentos e há, sobretudo, o reconhecimento por parte de uma entidade oficial que isto [gaming] é um problema. E que pode ser um problema muito grave.

Reduzir riscos e os problemas do jogo

Neste Dia Internacional contra o Abuso de Drogas e Tráfico Ilícito, o III Congresso do SICAD começa às 09.00 com uma intervenção do ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes. Segue-se um painel sobre a "Redução de Risos e Minimização de Danos - As pessoas", que terá como moderador o vereador da Câmara de Lisboa, Ricardo Robles (Bloco de Esquerda). À tarde, o tema será o jogo. Em dois painéis vão ser analisadas as vertentes dos videojogos e do jogo a dinheiro, a forma como as novas gerações crescem online e o que se deve fazer na intervenção. O "Outro lado do Jogo", será a segunda parte do tema. Aqui falar-se-á, por exemplo, da regulação, dos operadores e dos jogo responsável.

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