Santa Maria: renascer como base espacial da União Europeia

O projeto do Centro Internacional de Investigação dos Açores abrange oceanos, clima, atmosfera e... negócios de milhões

Meio século depois dos anos áureos em que figuras como Frank Sinatra, ou aviões como o Concorde, faziam escala no aeroporto de Santa Maria, esta ilha açoriana pode renascer como... base espacial para lançamento de satélites.

Este centro de lançamento de satélites de baixo custo, uma das componentes do Centro de Investigação Internacional dos Açores (AIR Center, em inglês), que está em preparação, tem o potencial de recolocar Santa Maria como polo de ligação entre os EUA e a Europa.

Por trás do AIR Center está "um trabalho de diplomacia científica muito grande", diz o secretário regional do Mar, Ciência e Tecnologia açoriano, Fausto Brito e Abreu, elogiando o ministro da Ciência - que lançou o projeto com o apoio do norte-americano de origem açoriana Ernest Moniz, ministro da Energia dos EUA - e o presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Paulo Ferrão.

O AIR Center pretende fomentar a cooperação científica e tecnológica transatlântica (UE-EUA) e entre o Atlântico Norte e Sul nas áreas do clima, das alterações climáticas, do espaço, dos oceanos ou da energia. Outra vertente importante é a dos negócios, inerente ao desenvolvimento industrial e económico daí resultante. "A ciência não se faz no éter nem para o éter", constata Paulo Ferrão, que dentro de dias irá apresentar o projeto também no Brasil, depois de o ter feito em Nova Iorque, Paris, Bruxelas ou Lisboa.

Carvalho Rodrigues, o famoso "pai do PoSAT" (anos 1990), diz que é uma empresa privada (a Boeing) a "que lança mais objetos para o espaço" e aí "vai acontecer o que aconteceu com a aviação. Como hoje há aeroportos, no futuro existirão inúmeros locais de lançamento" de satélites e a preços muito mais baixos. "É uma questão de investimento... as oportunidades comerciais e industriais no espaço ainda estão no início, são negócios de triliões."

Paulo Ferrão, avisando que ainda se está na fase de fazer a demonstração científica para fundamentar o AIR Center, destaca que as manifestações de intenção obtidas junto de países, organizações e empresas privadas são positivas - ao ponto de uma visitar os Açores em breve. Reconhece que "há uma competição mundial" para receber o primeiro centro aeroespacial europeu na UE - e que suscita o interesse dos EUA, Alemanha, França, Brasil ou África do Sul. E os Açores, diz, são colocados sempre "nos primeiros lugares". O líder da FCT realça que a Agência Espacial Europeia aponta a região como base de aterragem e recolha do material transportado.

Ricardo Serrão Santos, eurodeputado que tem estado em reuniões de apresentação do AIR Center, diz que o projeto "está na agenda da Comissão" - onde o português Carlos Moedas tutela a pasta da Investigação, Inovação e Ciência - e tem suscitado o "interesse genuíno dos parceiros em explorar as capacidades e potencialidades dos Açores".

Os investimentos também envolvem muitos milhões, mas Fausto Brito e Abreu não vê aí um obstáculo. "O financiamento não é uma questão-chave neste momento", até porque a ideia subjacente ao projeto passa por "cada parceiro trazer dinheiro para o AIR Center".

Com a indústria a apontar para "constelações de satélites capazes de fazerem o que só os maiores tinham capacidade", antevê-se um novo mercado de foguetões para os colocar em órbita - e em Portugal "já há empresas capazes" de aí participar, frisa Paulo Ferrão.

Tiago Pardal, investigador que fundou a Omnidea e adquiriu uma empresa alemã especializada no fabrico de componentes de satélites e foguetes para os colocar no espaço, realça que "há planos para lançar milhares de satélites" de pequena dimensão por empresas como a Google, o Facebook ou a Samsung.

Com o curso de Engenharia Espacial a ter neste ano e pela primeira vez a nota mais alta (18,53) para entrar no ensino superior, o também empresário pergunta se "Portugal pretende apenas ter infraestruturas [como há nos Açores], que não é escalável nem exportável, ou ter capacidade" industrial em áreas como as do lançamento e exploração espacial (a par da do software)?

Brito e Abreu está atento aos negócios: "Os lançamentos de satélites são atualmente muito mais baratos [e] há empresas que já se comprometeram a fazê-lo em 2018, mas ainda não sabem onde", diz, revelando que duas das empresas "interessadas em visitar a região" com esse fim "já lá estiveram".

Havendo estudos e projetos de investigação sobre o oceano profundo e nas áreas da biotecnologia, da geologia ou do clima, Brito e Abreu adianta: "Para estudar estes fenómenos falta o espacial, e a localização dos Açores faz da região um sítio ideal para instalar o espaço-porto" e lançar os satélites que permitirão observar e recolher os dados científicos para aqueles fins.

O governante elenca as vantagens: é território europeu e integra o Espaço Schengen; daria à UE uma base espacial dentro de fronteiras; tem infraestruturas para um porto espacial; é uma região de baixa densidade populacional e rodeada por uma área de oceano de 1500 quilómetros; Brito e Abreu adianta que há fundos da UE e majorados por envolver uma região ultraperiférica, que tem "uma política agressiva para atração de investimentos" (benefícios fiscais, ceder terrenos).

"A localização dos Açores vale muito dinheiro nestes negócios", garante Brito e Abreu, dando exemplos: construção e montagem de foguetes e satélites, lançamento, monitorização de colisões em órbita ou turismo espacial. Daí que a ilha mais a sul e oriente, Santa Maria, seja a que tem maior potencial para ter o porto espacial, funcionando a Base das Lajes - na ilha Terceira, o hub aeronáutico da região - como área de apoio pelas infraestruturas que tem (desde hangares a armazéns e alojamentos desocupados) e seriam reconvertidas para uso civil.

Talvez por isso é que o primeiro-ministro, na recente visita à China, disse que "o que está em cima da mesa é reutilizar a [Base das Lajes] para fins de pesquisa". António Costa adiantou à Bloomberg que "a base é muito importante em termos militares mas também em termos de logística e tecnologia e pesquisa".

Acresce que em Santa Maria há uma zona de testes para drones, está o centro de formação do pessoal da companhia aérea SATA e uma escola de pilotagem de ultraleves, argumenta Brito e Abreu. Ainda por cima, adianta Tiago Pardal, a ilha "tem 80% da performance que há no equador" para lançar satélites.

Carvalho Rodrigues, com experiência de anos na NATO, duvida que numa base onde estejam os EUA "possam fazer-se outras coisas" para além das inerentes às militares - e uma base espacial "tem de ter facilidades e torres de lançamento, meios para enchimento de combustível dos satélites e guiamento dos foguetes... se houver quem invista, é um bom local".

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