Operação Marquês deu um empurrão ao "caso do sangue"

Luís Cunha Ribeiro, ex-presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa, foi detido e mais três pessoas constituídas arguidas por suspeitas de corrupção. Lalanda de Castro volta a ser suspeito num processo

Vários documentos apreendidos no processo "Operação Marquês", que envolve José Sócrates, deram um impulso final à investigação sobre suspeitas de corrupção de plasma e hemoderivados, que ontem levou à detenção de Luís Cunha Ribeiro, ex-presidente da Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo, por suspeitas de corrupção passiva. A Polícia Judiciária suspeita que o antigo gestor público terá recebido contrapartidas do diretor da Octapharma em Portugal, Paulo Lalanda de Castro, para este empresa ter o monopólio de fornecimento aos hospitais de plasma e hemoderivados. Lalanda de Castro, por sua vez, é suspeito de corrupção ativa, depois de já ter sido acusado por tráfico de influências nos "vistos gold" e ser arguidos por fraude fiscal na "Operação Marquês".

As suspeitas sobre a relação entre Paulo Lalanda de Castro e Cunha Ribeiro eram conhecidas há algum tempo nos meios da Saúde. Em 2015, por exemplo, a atual bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, entrgou ao então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho um memorando, descrevendo as ligações perigosas entre os dois: um dos casos reportados, e que está a ser investigado, prende-se com a utilização por parte de Cunha Ribeiro de um apartamento de luxo em Lisboa, propriedade da Convida, uma sociedade imobiliária de Paulo Lalanda de Castro, sem pagar qualquer verba pelo arrendamento. O imóvel situa-se no prédio Heron Castilho, o mesmo onde durante anos morou José Sócrates.

Nos últimos meses, a inspetores da Unidade Nacional Contra a Corrupção da Polícia Judiciária mantiveram Cunha Ribeiro sob escuta e vigilância apertada, monitorizando todos os seus passos e contactos. Quanto a Paulo Lalanda de Castro, a investigação foi um pouco mais difícil, uma vez que o gestor passa muito tempo no estrangeiro, mantendo em Portugal uma residência na Quinta Patiño, no Estoril.

Ontem, em comunicado, a Procuradoria-geral da República adiantou que "investigam-se suspeitas de obtenção, por parte de uma empresa de produtos farmacêuticos, de uma posição de monopólio no fornecimento de plasma humano inactivado e de uma posição de domínio no fornecimento de hemoderivados a diversas instituições e serviços que integram o Serviço Nacional de Saúde".

Além do pretenso arrendamento em Lisboa, Cunha Ribeiro terá comprado um apartamento à mesma sociedade imobiliária de Paulo Lalanda de Castro, a "Convida", no Porto por um preço abaixo do mercado.

Ora, no decurso da "Operação Marquês", os investigadores recolheram muita documentação sobre aquela sociedade imobiliária. Por três vezes, a procuradora Ana Paula Vitorino pediu os elementos ao processo liderado pelo seu colega Rosário Teixeira. A última vez foi em Maio deste ano. Atualmente, esta procuradora está a trabalhar diretamente com a procuradora geral distrital de Lisboa, Maria José Morgado, sendo que o processo da Octopharma corre na 9ª secção do DIAP.

Ligação ao Brasil e a Sócrates

Foi precisamente para a Octopharma que José Sócrates, após ter saído do governo, em 2011, foi trabalhar como consultor. Mas até esta relação laboral está sob investigação na "Operação Marquês", já que o ex-primeiro ministro tinha dois ordenados: um pela Octopharma, o segundo pela Dynamicspharma, uma sociedade de Paulo Lalanda de Castro.

José Sócrates chegou a deslocar-se ao Brasil, em 2013, com Lalanda de Castro para uma reunião com o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para apresentar o negócio da Octopharma, já depois de a empresa ter estado envolvida numa acção do Ministério Público brasileiro por suspeitas de cartelização de preços de venda de plasma a unidade de saúde públicas, algo que terá provocado um desvio de 800 milhões de reais (200 milhões de euros) dos cofres públicos. O caso ficou conhecido como a "Máfia dos Vampiros".

Exclusivos

Premium

Contratos públicos

Empresa que contratava médicos para prisões não pagou e sumiu

O Estado adjudicou à Corevalue Healthcare Solutions, Lda. o recrutamento de médicos, enfermeiros, psicólogos e auxiliares para as prisões. A empresa recrutou, não pagou e está incontactável. Em Lisboa há mais de 30 profissionais nesta situação e 40 mil euros por pagar. A Direção dos Serviços Prisionais diz nada poder fazer.