"Temos um corpo diplomático independente dos ciclos políticos"

Concursos para a carreira diplomática destinam-se a preencher muito poucas vagas mas o número de candidatos atinge as centenas.

Que imagem se fica da máquina diplomática ao haver um português eleito para liderar a ONU?

É uma diplomacia muito profissional, muito qualificada e muito capaz de retirar vantagem de todos os trunfos portugueses. A aposta que o país fez numa estabilização da sua política externa e a aposta na profissionalização, ao contrário de outros países como os EUA, faz que os diplomatas portugueses não oscilem com as mudanças políticas. Mesmo a escolha de embaixadores políticos tem sido residual e agora não há nenhum... quando houve, era em organizações multilaterais como a OCDE e a UNESCO. Isso permitiu consolidar um corpo diplomático qualificado, independente dos ciclos políticos e que é um agente de ligação entre os vários blocos e regiões do mundo, como agora demonstrou.

O que atrai tantos candidatos quando as vagas são mínimas?

Há três razões que levam a esse afluxo. A carreira é muito apelativa porque, depois dos três anos iniciais que se tem de passar em Lisboa, o espaço de exercício da profissão é o mundo. Depois corresponde a um interesse recente mas intenso sobre as relações internacionais. Terceiro, o concurso é aberto a todos os candidatos com uma licenciatura, quer seja em Direito (o mais habitual), em Relações Internacionais, em Engenharia, em Medicina, em Línguas e Letras. Do ponto de vista do concurso, isso permite... mesmo falando dos embaixadores seniores e a propósito das questões europeias, por exemplo, reunir e ter pontos de vista diferentes, de um que é da área económica e de outro que é jurídico. Isso enriquece a discussão.

Quais são os postos-chave da rede diplomática?

Em primeiro lugar estão os postos em organizações multilaterais que são chave, como a ONU (em Nova Iorque e em Genebra), a UE e a NATO. Depois, no plano das relações bilaterais, são as dos países com os quais temos ligações mais próximas do ponto de vista político, político-militar, económico, histórico-político. Há uma certa margem de variação quando se fala em postos-chave... neste momento, um posto-chave é Roma, como se verificou pela escolha feita. Coloquei lá um dos mais qualificados [Francisco Ribeiro Telles] porque Itália tem sido um parceiro-chave de Portugal no nosso esforço de trazer a governação económica para a zona euro. Outros têm que ver com a lusofonia, em que para o Brasil, Angola e Moçambique procuramos escolher os melhores que temos e que conheçam as características desses países. Finalmente, também são importantes os postos em regiões onde estamos a fazer apostas e que são prioridades recentes: a embaixada em Pequim, em Tóquio, algumas no Golfo [Pérsico] e na América Latina.

A importância das embaixadas vai assim variando...

É dinâmica, depende bastante dos resultados que se foram obtendo, das portas abertas. No recente movimento diplomático, um dos postos onde tive a preocupação de escolher alguém capaz e com energia foi Windhoek, na Namíbia [Isabel Pedrosa]. Não é estruturalmente importante, mas quem lá esteve antes fez um trabalho notabilíssimo com a língua e, quando se tratou de a substituir, foi por outra pessoa cujo dinamismo garantisse que esse trabalho não se perderia.

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