"Rajoy já falou duas vezes com Trump e Costa nem uma"

Embaixador António Martins da Cruz lamenta que um primeiro-ministro português não seja recebido na Casa Branca desde 2003.

Com Donald Trump na Casa Branca, as relações Portugal-EUA vão evoluir em que sentido?

Na política externa de Portugal com os Estados Unidos interessa o quadro do Atlântico, que é um pilar da nossa política externa e tem várias expressões: implica uma relação forte com um aliado que são os EUA; o quadro da NATO, já que a defesa e a segurança de Portugal dependem neste momento dos EUA... a NATO repousa sobre os EUA, o sistema de defesa montado pelos EUA, o guarda-chuva nuclear americano, portanto boas relações com os EUA são fundamentais para a nossa defesa e segurança no quadro do atlantismo. Em segundo lugar, interessa-nos no quadro europeu: como é que a nova administração dos EUA se vai posicionar em relação à Europa? Em terceiro lugar, os EUA são o nosso quinto sócio comercial. Ou seja, são o maior mercado exportador português fora da Europa. Depois, temos um problema pendente e mal resolvido pelo anterior governo e pelo atual, chamado base das Lajes.

Como antevê a evolução desse dossier?

O governo anterior fez várias coisas que poderia não ter feito, como permitir que os representantes dos Açores passassem a fazer parte da delegação portuguesa, sentados à mesma mesa com os EUA. Comigo participavam nas reuniões preparatórias... as negociações internacionais cabem ao governo português. Depois, o agravamento para Portugal da situação nas Lajes tem a ver com o pouco cuidado que o governo anterior e o atual puseram nas relações com os EUA. Estive sete vezes na Sala Oval, na Casa Branca, com quatro presidentes americanos na minha qualidade de assessor diplomático do então primeiro-ministro Cavaco Silva e como ministro dos Negócios Estrangeiros. O último primeiro-ministro português a ir à Casa Branca foi Durão Barroso, em 2003. José Sócrates esteve na Casa Branca como presidente do Conselho Europeu, Passos Coelho nunca lá foi e António Costa, que já está no governo há mais de um ano, também nunca lá foi. Isto significa que houve ao mais alto nível da responsabilidade da política externa portuguesa, que é o chefe do Governo, algum desinteresse na relação com os EUA. Isso paga-se e, se reparar bem, o desinteresse americano pela base das Lajes, não tendo mudado a geopolítica nem a estratégia dos EUA, acontece ao mesmo tempo que aumenta o interesse e a presença norte-americana nas bases que têm no sul de Espanha, Morón e de Rota.

Agora têm outros meios militares...

As novas tecnologias fazem com que a base das Lajes já não tenha a importância de há 30 ou 40 anos, mas continua a ter uma posição indispensável no centro do Atlântico e estas coisas têm que ser cuidadas... o decisor máximo da política externa americana, que está na Casa Branca e não no Departamento de Estado, tem que ouvir dos seus interlocutores portugueses a importância que a base tem para o atlantismo, para as relações entre os dois países, para defesa de Portugal e dos EUA e para a NATO.

Também havia políticos americanos a defender Lajes...

Até agora, o grande defensor da posição portuguesa nas Lajes era um congressista de origem portuguesa chamado Devin Nunes. Mas aproveitava o facto para ir pondo sob fogo e atacando a Administração Obama, já que é republicano. Agora nada garante que Devin Nunes continue a atacar a Administração Trump, que é da mesma cor. Nada garante ao país que ele continue a insistir em colocar nas Lajes, para compensar a saída de efetivos militares, um centro de escutas e de inteligência que seria deslocado de Inglaterra.

Mas Devin Nunes não só questionava a Administração Obama como o próprio Pentágono, os militares...

Estou de acordo, mas não se esqueça...

Acha que ele pode mudar de opinião?

Pode mudar de entusiasmo. Acho que não pode mudar de opinião mas pode mudar de prioridades, já que usava os argumentos do Pentágono atendendo também às suas raízes portuguesas. Agora, com a Administração Trump, provavelmente terá outras prioridades... não sei, mas não me espantava que as tivesse. Portanto, temos que contar connosco e não exclusivamente com os outros. Além disso, penso que também temos de fazer... acho que ainda vai correr muita água debaixo das pontes transatlânticas até se perceber exatamente o que é que a atual Administração americana quer da NATO.

Como deve agir um país pequeno como Portugal perante um presidente dos EUA como Donald Trump, à luz do seu perfil, destes dias em funções e quando até hostiliza a Austrália?

Digo-lhe como Portugal pode agir. Viu o que fez [terça-feira] o Mariano Rajoy? O presidente do Governo espanhol teve uma segunda conversa com o presidente Donald Trump... tinha tido uma quando ele só estava eleito e agora uma de 15 minutos. Todos os jornais espanhóis dizem "Rajoy oferece a Trump ser o interlocutor dos EUA na Europa, na América Latina, no norte de África e no Médio Oriente". Era isto que Portugal devia ter feito antes de Espanha. Ou seja, a ideia não é nova, houve mesmo um responsável político português que terá dito uma coisa semelhante mas, enquanto os portugueses disseram para os jornais, os espanhóis disseram ao Trump. Ainda não vi o chefe do governo português falar com Donald Trump. Falou o Presidente da República, mas não é responsável nem por elaborar nem por executar a política externa portuguesa.

Não tem responsabilidades?

Nenhumas em política externa. Tem responsabilidades na representação externa do país. Não tem nenhuma em política externa a não ser aquela que o governo lhe peça para fazer. A política externa é conduzida exclusivamente pelo governo, embora haja presidentes da República que foram primeiros-ministros que acham isto e quando chegam a Belém inventam umas margens de manobra para a política externa do Presidente. O primeiro-ministro espanhol já falou duas vezes com o presidente Trump, o primeiro-ministro português, que se saiba pelo menos em público, ainda não falou. Aqui está a diferença de interlocutores na Península Ibérica. E Washington só precisa de um na Península Ibérica.

Que expectativa pode Lisboa ter quanto à solidariedade dos EUA de Trump?

Os Estados Unidos são um aliado. Somos aliados na NATO. Portugal foi dos primeiros países da Europa a reconhecer os EUA. Temos uma fortíssima comunidade portuguesa nos EUA e, sobretudo, milhões de luso-descendentes. As relações são boas mas têm que ser cuidadas todos os dias, senão... longe da vista longe do coração. Tenho pena que não haja um chefe do governo português a visitar Washington nessa condição. As embaixadas têm o seu papel, os ministros também, mas na conceção de poder dos EUA, a sede é o Presidente.

Donald Trump exige que os europeus aumentem despesas militares, diz que só defende os parceiros da NATO se cumprirem as suas obrigações... a UE vai agora olhar a sério para a Defesa?

Para ter uma defesa comum, a UE tem que ter capacidades militares, coisa que manifestamente não tem. Sou favorável a um reforço das capacidades de defesa europeia desde que entendidas como o pilar europeu da NATO. Os EUA desde há muito que gostariam que a Europa reforçasse as suas capacidades de defesa, não é o Trump. Ele veio agora dizer, batendo alguns tambores, que a UE tem de pôr mais dinheiro na defesa. Mas se a Europa não o faz em termos da NATO, como é que vai pôr dinheiro na Defesa em termos europeus? O mínimo, que todos aceitámos, é 2% do PIB. Nenhum o faz, tirando porventura a Grécia e a Turquia. Nem a França, nem o Reino Unido...

O governo português que aceitou os 2% do PIB, na cimeira de Gales, aprovou um orçamento de 1,1% para as Forças Armadas até ao fim da década...

É verdade. Mas como construir a Europa de Defesa assim?

Um governo de direita ou apoiado à esquerda consegue aumentar as despesas militares para 2% em Portugal?

Se não contarem para o défice, a apresentação já é outra. É uma questão de saber passar a mensagem e ser uma decisão tomada por todos. A opinião pública percebe que, para manter a paz e a tranquilidade que a Europa tem tido desde 1945, é preciso fazer algum esforço na defesa e também percebe que esse esforço não pode caber só aos americanos. É uma questão de explicar as coisas. Agora o que não se pode é transformar as questões de defesa em coisas nebulosas ou mais opacas, que não são transmitidas com a clareza que deviam ser à opinião pública dos países europeus.

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