Contra o "pesadelo" da Europa em rutura, marchar, marchar

Reunião magna do Bloco arranca hoje, em Lisboa, um dia depois do choque que o brexit provocou. Temas europeus, marca que separa BE e PS, vão dominar os trabalhos

Com os fantasmas do passado recente (e o resultado eleitoral de 2011) afastados, com a disputa fratricida de 2014 ultrapassada, mas com a corda da exigência sempre esticada perante a governação do PS, o Bloco de Esquerda (BE) inicia hoje a sua X Convenção, em Lisboa. Longe vão os tempos em que a esquerda parecia condenada ao desentendimento permanente e Catarina Martins aparece hoje e amanhã perante os aderentes bloquistas numa posição inédita para qualquer líder do Bloco: a sustentar um acordo de governo e a ensaiar um discurso de apologia e da "geringonça".
É certo que há atualmente muito mais a unir o BE e uma grande fatia dos socialistas, mas subsistem divergências na estratégia para o país. O ritmo de recuperação de rendimentos e o assertivo "não" à austeridade, por um lado, não desaparecem do caderno de encargos da direção do BE que vai reunir-se no pavilhão do Casal Vistoso, tal como a exigência de uma visão menos romântica da Europa.
Catarina já afirmou que no conclave deste fim de semana "vai estar cima da mesa a responsabilidade de a esquerda não ficar à espera do que vier" de Bruxelas e Frankfurt e lamentou que, apesar de o partido liderado por António Costa ser agora mais cético e crítico em relação aos ditames comunitários, ainda exista alguma "ingenuidade" do PS nesse capítulo. "Continua a haver uma ideia de que Portugal não é viável fora do contexto da UE nem tem poder para a mudar, logo ficaremos à espera de que ela mude", reforçava nas páginas da edição de ontem do DN.
Aliás, a porta-voz dos bloquistas (que passará a única coordenadora) já dava pistas na moção de que é a primeira subscritora, intitulada "Força da Esperança - o Bloco à conquista da maioria". Catarina quer "uma nova estratégia para Portugal", sem a qual não será possível prosseguir com a recuperação de rendimentos, e não exclui cenários. Nem a saída do euro. Insiste na renegociação da dívida e no controlo do sistema financeiro, outras das marcas distintivas face ao PS.
Mas a parte de leão da convenção será mesmo a Europa e, na ressaca da confirmação do brexit - um dos acontecimentos que diz ser a confirmação dos piores "pesadelos" - e à entrada da sessão internacional "O tempo dos movimentos na Europa", deu o mote: "Os tratados e as instituições europeias estão caducos e é preciso construir uma nova forma de diálogo e cooperação. Se é difícil? Certamente. Mas nada será mais arriscado do que fazermos de conta que está tudo bem."
Na convenção, vão ser apreciadas outras duas moções de orientação política. A R, "Crescer pela raiz - a radicalidade de reinventar a política" e a B, "Mais Bloco".
O governo estará representado pelo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, enquanto o PS marcará presença através da secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, Carla Tavares e Francisco André. O PCP terá em Paula Santos e Armindo Miranda os seus representantes, com PEV a enviar Rogério Cassona e Joana Silva. André Azevedo aparecerá pelo PAN. Representantes do Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, e do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, marcarão presença no encerramento dos trabalhos.

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