BE aproveita debate para voltar a pressionar Costa sobre a dívida

O PSD não gostou das palavras do primeiro-ministro sobre a renegociação da dívida. O PCP não ouviu "nada de novo".

A renegociação da dívida vai ser um dos temas que o Bloco de Esquerda (BE) vai levar hoje ao debate parlamentar com o primeiro-ministro. Aproveitando a deixa que António Costa deixou na entrevista de segunda-feira à RTP, sobre a posição do governo, Catarina Martins vai pedir mais esclarecimentos sobre a posição de Costa.

O chefe de governo reconheceu que há regras europeias que devem ser "ajustadas" e "mudadas", nomeadamente no plano da dívida, mas sublinhou que, enquanto tal não suceder, Portugal tem de as cumprir. Para António Costa é necessário dar "prioridade à convergência económica", permitir o "recuperar do empobrecimento" e da "estagnação prolongada" existente desde o arranque do euro e também necessariamente lidar com o problema do "elevado nível de endividamento que assimetricamente se foi desenvolvendo no conjunto da União Europeia". Lembrou, porém, que pelo menos até outubro de 2017 - data das eleições na Alemanha - "a União Europeia não discutirá nada em matéria da dívida".

Fonte oficial do BE confirmou ao DN a iniciativa para o debate de hoje, lembrando também que existe um "grupo de trabalho" com o PS e o governo sobre a questão da renegociação da dívida, que tem sido umas das principais bandeiras políticas dos bloquistas, tal como do PCP. Os comunistas não revelaram antecipadamente se vão ou não fazer perguntas ao primeiro-ministro sobre essa matéria.

Vasco Cardoso, membro do Comité Central, que tem a pasta dos assuntos económicos, diz não ter visto "nada de novo" nas palavras de Costa. "É sabido que o PS privilegia uma abordagem do problema transferindo-o para o plano supranacional, e nós achamos que Portugal não pode estar à espera nem da UE, nem das decisões dos credores, muito menos das eleições na Alemanha. A nossa dívida pública é insustentável, com juros de oito mil milhões de euros por ano - mais do que o que é gasto no Serviço Nacional de Saúde - e a sua renegociação deve ser conjugada com a libertação do nosso país do euro, para recuperar a soberania monetária."

Críticas do PSD

À direita - no CDS, não houve ninguém disponível para comentar - reagiu Paulo Rangel, que não gostou de ouvir o primeiro-ministro dizer que vai esperar pelas eleições alemãs para colocar o tema da dívida portuguesa na agenda da UE. Na sua opinião, António Costa devia estar calado. O eurodeputado social-democrata e vice-presidente do PPE considerou que Costa "faz muito mal" em falar do assunto desta maneira e particularmente num momento em que os juros da dívida portuguesa sofrem pressão. "Devia ser categórico a afastar isso", defendeu.

Rangel enquadrou as palavras do chefe do executivo na política interna: "Costa estava a falar na sua cozinha doméstica de todos os dias, aos parceiros de governo, e depois do congresso do PCP que pôs imensa pressão nesse sentido." O eurodeputado do PSD referia-se ao congresso comunista do fim de semana no qual a renegociação da dívida e a defesa da preparação da saída de Portugal do euro foram temas centrais. Rangel considerou que o maior problema da UE é o do sistema bancário, que, na sua opinião, continua muito instável, sobretudo em Portugal, Itália e Alemanha. "Durante a crise nos Estados Unidos foi dos primeiros problemas a ser resolvidos, assim como na Irlanda e até em Chipre", lembrou o eurodeputado.

Rangel entende que se a Europa estivesse empenhada em resolver o problema bancário, isso ajudaria a alavancar o crescimento económico. "A união bancária tem de ser terminada e ainda não foi porque a Alemanha não quer", afirmou. Mas também ele reconheceu - dando em parte razão a António Costa - que antes das eleições alemãs em 2017 a disponibilidade da Alemanha para encetar reformas é muito reduzida. "O ano crucial é o de 2018 para as reformas importantes."

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