Todos apostam na derrota da CDU. "Se perder, fico aqui", diz candidato comunista

Saída de Maria das Dores Meira abriu "oportunidade" para a oposição. Todos os candidatos estão confiantes de que mais uma autarquia comunista vai cair e que se encerra um ciclo de 20 anos de poder. André Martins quer renovar maioria absoluta e não acredita em derrotas, mas se perder fica: "Sou de Setúbal." CDS já admite coligações pós-eleitorais

Desta vez é possível, fechou-se um ciclo de 20 anos do PCP. Há uma clara oportunidade, com a saída de Maria das Dores Meira, reforçada pelos falhanços dos últimos quatro anos, não sei se por problemas internos do PCP, mas o facto é que os problemas de Setúbal se agravaram", garante o deputado e candidato socialista, que está confiante num estudo de opinião interno que o coloca, ainda que por pouco, acima de André Martins, candidato da CDU.

Fernando José desvaloriza também, claramente, o adversário do PSD, dizendo que "a luta aqui é entre PS e PCP, sempre foi e será. A abstenção é que é o oponente a combater". E Fernando Negrão? A resposta é curta: "A nossa candidatura não é um projeto de um homem só."

O candidato social-democrata e deputado também acredita que nestas eleições se está perante "um momento de transição", que o PCP está "mais frágil". "A ainda presidente ia para além do eleitorado do PCP, alargava a base de apoio. Mas imagino o que aquela homenagem ao Pichardo (atleta português de origem cubana que conquistou a medalha de ouro no triplo salto nos Jogos Olímpicos) deve ter incomodado." E o PS? "O PS foi aquilo que se arranjou, anda escondido na imagem da Ana Catarina Mendes. Aliás, ninguém sabe quem são os candidatos do PS e do CDS, não são conhecidos da população."

"Eu quero ganhar e tenho boas razões para acreditar. O desgaste, as más políticas e esta saída para Almada acentuaram a fragilidade crescente do PCP e abriram uma oportunidade de renovação", afirma Fernando Negrão.

André Martins, presidente da Assembleia Municipal e candidato da CDU à presidência da câmara, que admite que em 20 anos "pode haver algum desgaste", diz "não ter nenhuma razão para pensar que perderá as eleições". E se perder? "Fico aqui, sou de Setúbal, ficarei por aqui."

O candidato afirma que a "maioria absoluta é o objetivo", que a "população conhece a obra, o empenhamento" da CDU. "Temos mais uns mandatos pela frente", afirma, não acreditando que a saída de Maria das Dores Meira, por limitação de mandato, possa prejudicar a sua candidatura. "Esse ciclo aqui é diferente [...] há algo de diferente em Setúbal", justifica. E acrescenta:"A câmara está financeiramente equilibrada, há planos... Não fazemos as coisas de forma avulsa."

E nas contas o passado também conta. Devido às dívidas acumuladas na gestão Mata Cáceres (presidente socialista na Câmara de Setúbal entre 1985 e 2001), na ordem dos "45 milhões de euros", "nos primeiros 10 anos fizemos o possível" e só nos últimos 10 anos "é que as coisas começaram a acontecer". O 'efeito Mata Cáceres' só terminará em 2023.

Pedro Conceição, candidato independente pelo CDS, também constata "a existência de uma oportunidade", mas não lhe "interessam muito as guerras políticas. Não sou político profissional nem militante, não estou limitado a nenhuma estratégia nacional nem fecho portas a ninguém". A ninguém? "Falo dos partidos do arco do poder, PS, PSD e PCP. Havendo entendimentos sobre o meu projeto, sobre a ambição das nossas propostas e as questões morais, que aqui também interessam, é normal que se possam construir acordos pós-eleitorais."

O candidato, que revela que o CDS mostrou disponibilidade para uma coligação com o PSD -"é uma decisão anterior à minha chegada, mas o PSD quis ir sozinho" -, não deixa de fazer alguns reparos aos três 'parceiros' de uma eventual coligação. "O PCP em nada evoluiu, Setúbal só tem perdido; no PS só vejo coisas imediatas, nada de estruturante; o PSD... bom, as pessoas ainda se recordam de ele [Fernando Negrão] não ter querido ficar como vereador."

Fernando Pinho, candidato do BE, também nota "essa perceção de mudança, alternância. Este último mandato foi problemático, cheio de promessas e de falta de transparência. E este candidato [André Martins] é um pouco inesperado. Não é uma pessoa carismática... há aqui algumas fragilidades, claro. E silêncios... ainda nada disse sobre as dragagens do Sado. E esteve numa comissão de avaliação".

"Estamos com atrasos de décadas, abandonados pelo poder central, com IMI e água a preços altíssimos - até o PS se esquece que foram eles que privatizaram a água -, rendas das mais caras da Europa, lixos tóxicos na Mitrena e Vale da Rosa. Ainda estou à espera de ver a marina prometida, os hotéis de seis estrelas e os casinos que a Dores Meira anunciou", reforça o candidato bloquista.

Fidélio Guerreiro, candidato independente, que saiu do PS em 2001 e foi presidente da extinta Associação Empresarial da Região de Setúbal, não tem dúvidas de que "o sucessor de Maria das Dores Meira é muito fraco", mas também diz que Setúbal "não precisa de emissários de fora [referência aos candidatos deputados] que venham para aqui vender peixe".

"Como é que têm a lata de no Parlamento não defenderem o concelho, deixarem que estejamos numa crise igual à dos anos 80. Estamos sem investimentos desde 2000. A península de Setúbal é a 16.ª mais pobre do país. O que está a acontecer é quase um crime político."

"Como é que têm a lata de no Parlamento não defenderem o concelho, deixarem que estejamos numa crise igual à dos anos 80. Estamos sem investimentos desde 2000. A península de Setúbal é a 16.ª mais pobre do país, foi abandonada, está com um rendimento per capita de 23.440 euros/ano, e vêm agora como se nada fosse? O que está a acontecer é quase um crime político", afirma.

Carlos Cardoso, candidato independente pelo Iniciativa Liberal, diz-se "chocado por ver aqui deputados que no Parlamento são uma coisa e aqui outra. Votam no partido, não por Setúbal; esquecem Setúbal. Em 47 anos foi só perder, PS e PCP não projetaram o futuro. Nos anos 70, éramos a terceira cidade do país. E agora? Agora, receio que nos transformemos num dormitório de Lisboa. Abonecou-se o centro da cidade, mas nada de estrutural para o futuro foi feito. E dizem eles [a CDU] que "vamos continuar", mas continuar o quê?".

O candidato critica a "total ausência de estratégia. Setúbal tem tudo de bom para evoluir: um cais internacional, caminhos de ferro, a autoestrada... mas nada disto está ser potenciado. É preciso atrair empresas, mas percebendo as suas necessidades. É urgente criar mão de obra qualificada, mas com formação a pensar nas necessidades das empresas. Por estamos na AML, dizem que somos ricos! Isso prejudica Setúbal. As empresas que se queiram instalar aqui têm percentagens de apoios europeus mais baixas que Grândola."etúbal merecia mais respeito. É tudo feito em cima do joelho. São reativos, não são proativos", afirma o candidato.

Paula Costa, candidata do PAN, critica a política do "embelezamento local, as rotundas com árvores de plástico, até um gato de três metros colocaram frente ao edifício da Câmara Municipal. Temos ainda problemas de saneamento básico por resolver e gasta-se dinheiro nisto!". E claro, "as touradas. A câmara gastou mais de milhão de euros na reconversão da praça. Só espero que não seja para o mesmo, para mais touradas", afirma.

A candidata do PAN diz que o partido está em Setúbal "com as grandes bandeiras do partido: mitigar a emergência climática e a crise económica decorrente da pandemia. Defendemos um projeto de mobilidade sustentável, transportes tecnologicamente limpos. É necessário a mudança progressiva da frota, sei que não dá para fazer tudo de uma vez, que é preciso ver as contas da câmara e perceber o que é possível fazer". Quantos autocarros, qual é a frota? "Não faço ideia, mas é reduzida. Aqui onde moro passam de meia em meia hora."

André Martins, candidato da CDU, recorda que a câmara "não tem competência nos transportes públicos", que as empresas "funcionam nas linhas que são rentáveis". Está de mãos amarradas? "Completamente."

Luís Maurício, candidato do Chega, considera que socialistas e comunistas, por "não saberem ou não quererem, não captam investimento nem atraem emprego. E tinham tudo, porque Setúbal tem tudo, desde a via marítima à linha férrea, para fazer da cidade uma cidade como Lisboa ou Porto, mas é só migalhas. É preciso investimento, regressar ao que tínhamos há 30 anos. Regressar à indústria, atrair as que se foram embora e captar outras. Sem isso, o desemprego vai continuar a subir. Nos jovens a taxa já é de 50%", afirma o candidato. Luís Maurício considera a "insegurança" como "o pior problema da cidade. Setúbal tem que ser segura, mas não se investe em segurança. Nós defendemos a instalação de videovigilância". Onde?, pergunto. "Perto dos bairros sociais, nas avenidas principais e nos sítios que a polícia tem sinalizados." Quais são?, insisto. "... os sinalizados, os que estão fora do circuito da cidade."

artur.cassiano@dn.pt

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