Sampaio, o político imprescindível que "amou" um Portugal frágil

As cerimónias fúnebres do antigo Presidente da República no Mosteiro dos Jerónimos foram carregadas de emoção. Os filhos descreveram um pai avesso à arrogância e Marcelo e Costa um homem bom e político de exceção.

Não há portugueses dispensáveis, essa é uma ideia intolerável". As palavras de Jorge Sampaio, ditas na sua tomada de posse como Presidente da República em 1996, ecoaram no claustro do Mosteiro dos Jerónimos. E foi nelas que o primeiro-ministro pegou para dizer que os portugueses não o podem também dispensar no que teve como cidadão "exemplar", de rigor ético, honrado, solidário, humanista e vigilante defensor da democracia.

"Foi uma referência e um padrão de exigência. Foi um político com princípios, exigente e ultra-exigente consigo próprio. Foi um político firme e inflexível que nunca cedeu nos valores essenciais e soube sempre construir."

António Costa discursava na cerimónia oficial de despedida ao antigo Presidente da República, que reuniu no Mosteiro trezentas pessoas, altas personalidades nacionais e internacionais, líderes partidários, socialistas e amigos, muitos amigos. E toda a cerimónia foi de emoção, feita de música, poesia e de discursos impregnados do calor que Sampaio transportava em tudo o que fez ao longo dos seus 81 anos, grande parte dos quais ao serviço da política. A "pequenina luz", como escreveu Jorge de Sena, num dos seus poemas favoritos, declamado por Maria do Céu Guerra, encaixou na perfeição e deixou o claustro em profundo silêncio.

"Foi uma referência e um padrão de exigência. Foi um político com princípios, exigente e ultra-exigente consigo próprio. Foi um político firme e inflexível que nunca cedeu nos valores essenciais e soube sempre construir."

Todos os que falaram lembraram o seu percurso no combate ao antigo regime, as suas obras como autarca, o seu papel como Presidente e, por fim as causas, por que se bateu, entre as quais o combate à tuberculose e o apoio aos refugiados. "Neste momento é para lembrar quanto afortunado foi Portugal por ter tido Jorge Sampaio. Serviu como poucos causas justas e a causa pública, com combatividade e enorme generosidade", afirmou o seu amigo e presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Mas foi o testemunho dos filhos, Vera e André, e do atual Presidente da República, também ele um homem de afetos, que acentuaram a faceta humanista de Jorge Sampaio.

"Aqui [Jerónimos] tem sentido evocar alguns dos nossos maiores. Jorge Sampaio é um dos nossos maiores. Um dos maiores na história com a suprema delicadeza de quase pedir desculpa por estar a construí-la", disse Marcelo Rebelo de Sousa.

"Amar" foi o verbo que mais vezes usou para falar daquele que foi um dos seus antecessores em Belém, mas também presidente da Câmara de Lisboa. "Jorge Sampaio amou Portugal, não pela força, mas pela fragilidade. Mais do que isso, fez dessa fragilidade sua, nossa e de todos nós, uma força sua, nossa, de todos nós." Um homem que, frisou, "nunca quis ser herói, mas foi. Foi um grande senhor da sua e da nossa Pátria."

"Aqui [Jerónimos] tem sentido evocar alguns dos nossos maiores. Jorge Sampaio é um dos nossos maiores. Um dos maiores na história com a suprema delicadeza de quase pedir desculpa por estar a construí-la"

A emoção colou-se à música que intercalou os discursos e interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e o coro do Teatro Nacional de São Carlos. Uma das peças, dirigidas pela maestrina Joana Carneiro, foi a ""Intermezzo" da ópera "Cavalleria Rusticana" de Pietro Mascagni.

O pai "humilde"

Os filhos de Sampaio, que o país viu crescer nos 10 anos de Presidência da República, a Vera e o André foram as vozes da intimidade, mesclada com as causas públicas, e com particular afeto para com a mãe, Maria José Ritta.

"Decidimos falar do nosso pai como falava connosco, com franqueza. Entre nós não havia barreiras. O nosso pai não gostava da arrogância e cultivava a humildade. Gostava de aprender connosco para compreender a outras gerações. Cultivava a amizade e a camaradagem porque sabia que na política, como na vida, nada se podia fazer sozinho. Nos bons momentos, juntava a alegria à capacidade de relativizar as coisas", disse Vera Sampaio.

André retratou-o da mesma maneira: "O nosso pai foi popular, sem ser populista, foi sempre próximo, foi estadista, foi amado, foi muitas vezes discreto, foi carinhoso, emotivo e disponível. O nosso pai foi corajoso sem medo de chorar. Foi um homem bom, foi um pai extraordinário".

" O nosso pai não gostava da arrogância e cultivava a humildade. Gostava de aprender connosco para compreender a outras gerações. Cultivava a amizade e a camaradagem porque sabia que na política, como na vida, nada se podia fazer sozinho."

Aproveitou ainda o momento do discurso para para agradecer a homenagem dos portugueses, mas também a Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres (que chegou muito discreto à cerimónia)a Ramalho Eanes, Cavaco Silva e Filipe VI, rei de Espanha e às individualidades dos países africanos de expressão oficial portuguesa presentes.

Já no início da cerimónia fúnebre no Mosteiro dos Jerónimos tinha sido exibido um vídeo com uma mensagem de Jorge Sampaio à CNN, em 1996, sobre Timor-Leste e uma mensagem de José Ramos Horta, ex-presidente daquele país, sobre a luta do antigo Presidente da República pela determinação de Timor.

Sócrates quase invisível

Na coreografia do protocolo, sempre meticuloso, das cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio, houve uma nota que apesar de prevista desafinou. José Sócrates, outrora um governante muito popular, entrou no claustro e tomou o seu lugar como ex-primeiro-ministro e a frieza em torno da sua presença foi notória. Nenhum dos membros do Governo presentes e muitos eram os ministros e secretários de Estado no Mosteiro, lhe dirigiu palavra.

A líder parlamentar do PS e secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes tentou afinar essa nota e foi das poucas que trocou algumas impressões com Sócrates. Capoulas Santos, antigo ministro da Agricultura também o saudou. Francisco Louçã, antigo líder do BE, Marques Mendes, antigo líder do PSD e conselheiro de Estado, Assunção Esteves, social-democrata e antiga presidente da Assembleia da República, foram dos poucos que o cumprimentaram. Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro passou por ele, sentou-se com o intervalo de uma cadeira, e limitou-se a um tímido aceno de cabeça.

Sócrates esteve assim praticamente invisível entre tantos políticos e socialistas que ali estavam presentes, mas também ele quis prestar a última homenagem a Jorge Sampaio, o presidente que com ele coabitou enquanto primeiro-ministro. Terminada a cerimónia no claustro saiu como entrou, sozinho.

Cá fora dezenas de populares esperaram pela saída da urna de Sampaio e ouviram-se muitas palmas. Cinco caças F-16 da Força Aérea sobrevoaram o cortejo fúnebre, na Praça do Comércio, quando se dirigia para o cemitério do Alto de São João, onde o antigo Presidente foi sepultado no jazigo da família, numa cerimónia privada em que só participou a família.

paulasa@dn.pt

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