Rio e "Chicão" tentam tudo por tudo para chegar como líderes às legislativas

A direção do CDS-PP já conseguiu adiar o congresso para depois das legislativas e agora é a do PSD que tenta o mesmo, numa mensagem da direção enviada por email aos militantes.

Primeiro foi o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos. Numa reunião do Conselho Nacional, realizada via Zoom na noite de sexta-feira passada para sábado (acabou às 4h00 da manhã), "Chicão" conseguiu adiar para depois das legislativas o congresso do partido que já estava agendado para os dias 27 e 28 de novembro, em Lamego.

Dito de outra forma: Francisco Rodrigues dos Santos conseguiu, para já - mas a decisão vai ser impugnada nos órgãos do partido e porventura no Tribunal Constitucional - que não haja nenhum processo eleitoral interno antes das próximas legislativas. O líder do CDS-PP quer continuar líder quando o país for a votos - e essa data poderá ainda esta semana ser anunciada pelo Presidente da República.

Francisco Rodrigues dos Santos quer ser o presidente do CDS-PP nas legislativas - e Rui Rio também. O presidente do PSD não desiste de tentar desmarcar as eleições diretas do presidente do partido - onde se confronta com a candidatura de Paulo Rangel - marcadas para o próximo dia 4 de dezembro (uma data definida pela própria direção do partido).

Ontem a comissão permanente do PSD - o órgão mais restrito de decisão na cúpula do partido - fez distribuir aos militantes do partido, via email, uma nota onde volta a pressionar para que o processo eleitoral interno seja adiado para depois das legislativas - o que permitiria a Rui Rio manter-se como o candidato do PSD a primeiro-ministro.

"A antecipação das eleições internas para uma altura em que devemos estar todos concentrados nas legislativas, parece afigurar-se totalmente desajustada das circunstâncias que o País está a viver e dos objetivos que o PSD deve prosseguir", lê-se no comunicado. No qual se acrescenta que "os portugueses esperam do PSD uma alternativa clara e credível ao PS", ou seja, "não esperam um PSD virado para uma disputa interna, enquanto o PS e o Governo vão fazendo livremente a sua campanha, aproveitando as nossas divisões eleitorais".

A direção de Rio recorda ainda, no mesmo texto, que as datas das eleições diretas (4 de dezembro) e do congresso subsequente (de 14 a 16 de janeiro) foram marcadas pelo Conselho Nacional do PSD por uma maioria de conselheiros nacionais que afirmava então que "jamais haveria eleições legislativas antecipadas". "Decidiram-no contra a opinião desta Comissão Permanente que, prudentemente, avisou que podíamos ter uma crise política, e que, por isso mesmo, propôs que se esperasse pelo fim da votação do Orçamento do Estado para, depois, se marcar a data das eleições internas, em função do que viesse a suceder" mas "a verdade, é que a Assembleia da República vai ser mesmo dissolvida e, por consequência, haverá em breve eleições legislativas antecipadas".

Assim, o que agora está em causa é "uma excelente oportunidade para o PSD aproveitar o bom resultado das autárquicas e ganhar essas eleições, substituindo, assim, uma governação totalmente à esquerda por uma outra mais moderada e liderada pelo nosso partido". Portanto, "em nome do interesse nacional e do nosso próprio partido, temos de estar unidos e totalmente focados no combate com os nossos verdadeiros adversários". Dito de outra forma: "Na qualidade de primeiros responsáveis pela condução política do partido, sentimos a obrigação de lhe enviar esta reflexão, para que a(o) companheira(o) melhor possa pensar sobre este importantíssimo momento que o País e o PSD estão a viver."

Agora o partido aguarda pela reunião extraordinária do Conselho Nacional convocada para o próximo sábado, em Aveiro. Está em cima da mesa a proposta, vinda das hostes afetas a Rangel, de antecipar o congresso de 14, 15 e 16 de Janeiro para 17, 18 e 19 de dezembro. Assim, eleito o líder em 4 de dezembro, o partido teria mais tempo de eleger os restantes órgãos de direção, aprovar formalmente nos órgãos do partido as listas de candidatos a deputados e dar legitimidade formal interna à aprovação do programa eleitoral que o PSD levará a votos nas eleições legislativas. É este o calendário que Paulo Rangel pretende e aliás foram apoiantes seus que forçaram a convocação da reunião do Conselho Nacional.

Ontem o eurodeputado não comentou o mail da Comissão Permanente aos militantes. Há dias, porém, confrontado com a pressão de Rio para adiar o processo eleitoral interno, o eurodeputado escusava-se a alinhar em "guerras de alecrim e manjeronas". "Quem quer fazer política partidária desse tipo, fica a fazer sozinho, não conta comigo para isso", disse, à margem de uma visita à Feira da Castanha, em Sernancelhe.

Quem reagiu, com uma nota no Facebook, foi o deputado Pedro Rodrigues.

"A carta hoje enviada aos militantes com uma narrativa pouco comprometida com a verdade, o profundo desrespeito demonstrado por quem pensa de forma diferente e os ataques e pressões absolutamente inaceitáveis feitos ao Presidente da República significam um trajeto que o PSD tem rapidamente de inverter", lê-se na mensagem publicada pelo deputado.

Pedro Rodrigues, que apoia Paulo Rangel, considerou que a "obsessão que a direção do partido revela em suspender as eleições internas por si marcadas" mostra um "manifesto receio em enfrentar a opinião dos militantes" e "significaria a perda da oportunidade de o partido desenvolver uma saudável discussão interno que permita assegurar a unidade do partido e o fortalecimento de uma alternativa galvanizadora para Portugal".

O deputado indicou ainda que "ninguém no PSD pediu que a Direção Nacional marcasse eleições para a liderança do partido", tendo estas sido "marcadas pelo Conselho Nacional a pedido e na data proposta pela direção e pelo seu presidente", Rui Rio. "O momento que vivemos exige que a direção do partido e o seu presidente revelem bom senso e serenidade e não caminhem no sentido da negação da realidade que nos pode conduzir a um processo similar ao que, infelizmente, se está a viver no CDS."

Rodrigues defendeu assim que o "PSD precisa de rapidamente concluir o seu processo de escolha de liderança, definir o seu candidato a primeiro-ministro" e o seu programa eleitoral, "sem expedientes e sem manobras de secretaria". "Para que nos apresentemos aos portugueses com uma alternativa credível capaz de transformar Portugal e oferecer esperança aos setores mais dinâmicos da sociedade portuguesa, à classe média asfixiada pela carga fiscal e aos jovens que não encontram soluções para o seu futuro." Segundo o deputado, "esse é o único caminho" para aqueles que "colocam Portugal em primeiro lugar".

Pedro Rodrigues apoiou Rui Rio, em 2018, tendo sido coordenador da bancada social-democrata na Comissão de Trabalho e Segurança Social da Assembleia da República. No entanto, em maio de 2020, anunciou a sua demissão desse cargo, criticando Rui Rio por "não se reunir e envolver devidamente o grupo parlamentar" e invocando "falta de confiança" da sua parte.

PR dá "algum tempo"

O Presidente já ouviu os partidos sobre a data das eleições - sendo que sete dos nove com representação parlamentar sugeriram 16 de janeiro. Anteontem, ao comentar o assunto, recordou que na sua ponderação entra também o que o Parlamento pretende.

"Se for caso disso, eu anunciarei a dissolução, e depois passa algum tempo que permita à Assembleia da República em relação, por exemplo, certas diretivas europeias, que têm prazo limitados sob pena de incumprimento, algumas leis que o Governo considera fundamentais serem aprovadas", salientou o Presidente da República.

joao.p.henriques@dn.pt

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