"Precisamos de criar empregos, acabar com este abandono"

Troca de partidos e de maiorias. O PS derrubou um bastião CDU com 45 anos: "Há obra feita, mas sem estratégia."

Na praça onde "mais ou menos se concentram as coisas", a Praça Conselheiro Fernando de Sousa (engenheiro civil, militar, jornalista, escritor e político que, em 1900, se demitiu do Exército depois de recusar bater-se em duelo com Silva Graça, diretor do jornal O Século), o edifício da Torre do Relógio, que já foi Paços do Concelho, está em obras. Os tapumes esbranquiçados não permitem ver o "monumento" e a "imponente" torre construídos no século XVI e que tem pela frente, do outro lado da praça, a Igreja de Nossa Senhora da Graça. No centro "do largo" está uma exposição de "rendas circulares, trabalho do pessoal mais velho que fazendo isto está ocupado e não fica isolado". Quase encostada à "torre", do lado esquerdo, fica a Pastelaria da Praça. É aqui que esperamos por Paula Chuço, a mulher que retirou o poder a "45 anos do PCP". Ligeiramente mais abaixo, uns poucos metros, também à esquerda, fica o Café Moralinda. Do lado direito, a Farmácia Falcão e uma delegação do Crédito Agrícola. Atrás da nossa mesa, de óculos escuros, sentado, está "Tó Quim" que dali a minutos descobriríamos ser o vereador dos Recursos Humanos, Ação Social, Educação, Turismo, Desporto, Juventude, Cultura e "também da inovação, das coisas de informática". A praça está praticamente vazia: três mesas ocupadas na pastelaria, outra no Moralinda. Em meia hora passaram dois carros. O maior movimento aconteceria minutos mais tarde quando três motards, trajados de preto, pararam as motos, olharam em redor e segundos depois partiram. "É por causa da Nacional 2, já há gente que vem por aqui por causa disso", dir-me-ia Paula Chuço, que estava prestes a chegar e que tinha um plano para a "visita": terminar no "marco amarelo".

"Boa tarde, o Tó Quim veio mais cedo, está ali." Sentamo-nos. É habitual isto, não haver ninguém nas ruas? Paula Chuço tira os óculos escuros e responde com acenos de cabeça. "É, é... é assim. Isto é um bocado deserto. Ao fim de semana vê-se mais gente, anima mais um bocadinho com os turistas. Não há população e a mais idosa fica toda em casa." "E temos o problema do abandono escolar", explica Tó Quim, "os jovens abandonam a escola cedo, normalmente no 9.º ano, muitos já não acabam o 12.º, muitos começam logo nos trabalhos do campo, no comércio, nas obras e sem nenhum tipo de formação. E os que vão para a universidade já não voltam". "Não há aqui futuro para eles, temos de dar a volta a isto", acrescenta Paula Chuço.

A vitória a 26 de setembro inverteu a maioria absoluta em Mora, passou da CDU para o PS. Os 521 votos que os comunistas perderam foram o suficiente para a mudança acontecer num concelho com 3965 eleitores e em que só 2550 votaram. "Condições políticas tenho e condições para trabalhar também. Segundo o que nos é dito, a câmara está financeiramente estável, mas vamos ver. E é preciso dar a volta à casa até porque os funcionários que nós temos, 70% diria eu, é tudo virado para a cor política que lá estava." Tó Quim acrescenta uma frase às palavras da nova presidente: "... e a população também está à espera de uma casa limpa, uma casa nova."

Levantamo-nos e seguimos a pé, atravessando a praça e virando à esquerda na Rua do Parque, em direção ao carro que está estacionado, uma centena de metros abaixo, junto à câmara municipal. Uma mulher de idade que passa, em passo apressado, dirige-se a Paula Chuço e diz umas palavras que não consigo ouvir. A conversa é breve. "Ainda agora cheguei e já me andam a pedir coisas", desabafa a autarca. O Leonardo Negrão aponta a máquina fotográfica, quer fixar o momento, e Paula Chuço, que ri, deixa um aviso: "Digo-lhe já uma coisa: eu não sou fotogénica."

Passamos um cruzamento, o do Parque com a Rua Nova, e adiante já se percebe a existência de um arvoredo. "Quer espreitar o jardim?" Quero, mas queria que me explicasse essa história do medo de que falava quando tinha o gravador desligado. Tó Quim deixa escapar um riso. "Do medo? Sim... aqui vivia-se um bocadinho de medo, as pessoas tinham medo de falar. Eles [a CDU] foram dizendo coisas como "se eles ganharem isto, tiram-te o cartão do idoso, tiram-te isto, tiram-te aquilo". Foi preciso um trabalho muito grande e exaustivo e diferente. Nós fomos às pessoas, nós cantámos para as pessoas..." Andou a cantar? "[Risos]... "eu não, foram dois ou três dos nossos. Cantámos, dançámos, levámos a música aos lares. As pessoas não podiam sair, mas iam às varandas. E fizemos um programa [palavra que haveria de repetir dezenas de vezes] para discussão pública. Todos puderam participar, dar ideias... coisa que não se fazia." A avaliar pelos resultados eleitorais funcionou... "Sim, quando o programa saiu, aquilo que nós queríamos aconteceu: as pessoas identificaram-se com o que lá estava. Se queremos trabalhar para a população, então precisamos de ouvir e ir ao encontro das necessidades da população.

Junto ao largo do mercado velho, descendo a rua, entramos por uma das muitas entradas do jardim de Mora. O contraste é imediato, o calor da rua desaparece. As árvores antigas e altas, as escadarias de pedra e o que parece ser um riacho que em tempos teve jarros criam um ar fresco. "Já viu? É um jardim tão bonito. Com uma requalificação aqui temos uma zona turística muito bonita. E este lago já teve patos, já teve tudo. Era mais fundo, mas a câmara fez-lhe este chão para poupar água. Até concordo com isso, mas não pode é estar abandonado e sujo, assim como está. Temos de voltar a pôr aqui os patinhos, as pessoas gostam sempre de ver. Queremos dar vida a este espaço. Olhe, ali estão os funcionários da câmara do jardim, já estive com eles." O que é que lhe disseram? "Querem falar comigo assim que for possível. A primeira coisa que vou fazer é ouvir o que as pessoas têm para dizer. E depois aplicar, logo de imediato, algumas ideias. Outras só com mais tempo." O Leonardo Negrão vira-se e prepara-se para fotografar Paula Chuço e os jardineiros. De repente, um aviso. "Não se pode tirar fotos", diz a autarca. E logo a seguir, um riso. "Ai ,desculpe, agora já se pode. Já pode tirar que isto já mudou."

Subimos umas escadas íngremes de pedra, nota-se o tempo no desgaste, e saímos. Viramos à esquerda e descemos a rua. Em frente está um edifício com ar de novo. "Isto era o mercado antigo, está ser transformado em pequenas lojinhas para investimento. Já há algumas com contratos para arrendar. Vai haver aqui uma frutaria, uma pizaria, uma loja de informática e creio que duas lojas para roupa." É um minicentro comercial? "Não, é um ninho de empresas." Ninho de empresas? São lojinhas... Tó Quim olha para a nova presidente e ri-se. "Pois... é o nome que lhe dão, mas não é o que está aqui", diz Paula Chuço.

Dali, do "ninho de empresas", até à câmara é um instante, são poucos metros. "Tiramos uma foto aqui, ao pé da escadaria?", pergunta o Leonardo Negrão. A nova autarca hesita. "Ainda me aparece ali à janela a espreitar, que o gabinete dele é ali, a ver o que se passa." E aponta para uma janela. Quem?, pergunto. "O ainda presidente", responde. Insistimos. Paula Chuço sobe a escadaria, faz pose, a foto é tirada. Nenhuma janela se abriu. O que acontece é diferente. Um carro, que descia a rua, abranda e alguém cumprimenta a nova presidente. "Está a ver? O pessoal já sente um bocadinho de liberdade." Liberdade? "Sim, que há mudança, que algo de novo vai acontecer, está a acontecer, que o medo acabou." Imagino que num clima assim, como diz, algum dirigente nacional tenha cá vindo dar-lhe apoio... "Não, ninguém veio. Veio a Fernanda Ramos do partido em Évora, agora o resto não. Mas consegui um videozinho com o António Costa onde ele deu um apoio, também foi bom." Teria sido melhor se viessem cá? "Eu penso que sim, mas o que me diziam era que não, que o que valia era o nosso trabalho aqui. "

Entramos no carro, descemos a Rua do Município e à direita viramos para a Rua da Estação. Umas dezenas de metros à frente, no lado esquerdo, fica o Museu Interativo do Megalitismo. "Não era para ser localizado aqui, mas sim em Pavia. É lá que temos o património megalítico, fazia todo o sentido lá. Mas foi construído aqui porque isto era a antiga estação da CP. A população de Pavia ficou assim um bocadinho triste." À porta do museu hesita e para. Conta-me uma história antiga, destes últimos quatros anos, e depois diz: "Isto não é para contar em público, já passou. Já estamos na câmara que é o que importa."

"Olá, Margarida. Boa tarde. Podemos dar uma olhada?" Margarida, funcionária do museu, não esperava pela visita. Está um pouco nervosa. "É rápido, só quero mostrar aos senhores do Diário de Notícias o que temos aqui", explica Paula Chuço. O acesso ao museu é feito pela porta que do átrio dá acesso a um longo corredor "que já foi apeadeiro da antiga estação dos caminhos-de-ferro". "Isto era o ramal que fazia o troço Mora-Évora e Évora-Mora, era fim de estação", explica Margarida. "Lembro-me bem deste corredor", diz a nova autarca. "Na altura das eleições europeias andei aqui com o [Carlos] Zorrinho e como entrámos sem pagar, porque as pessoas daqui disseram que sim, depois em reunião de câmara levei uma grande tareia. Mas vim aqui pagar os bilhetes e depois levei à câmara para eles verem."

Margarida explica detalhadamente e com entusiasmo, ainda que diga não estar preparada, cada uma das áreas do museu. O património megalítico na região é extenso e pelo que dizem ainda hoje se fazem novas descobertas. "Cinco mil pessoas por ano passam por aqui, mas é um espaço sazonal. Na altura das férias escolares é quando há mais gente."

Saímos. Os 30 graus deste dia fazem-se sentir. Pegamos no carro e viramos logo na primeira à direita a caminho da zona industrial. O Minipreço fica logo ali à esquerda. "Está a ver?", pergunta Paula Chuço, "é o único que existe, falta aqui mais um supermercado. Eram mais uns postos de trabalho, a concorrência saudável também faz falta." E então o comércio local? "Aqui está muito reduzido, quase não existe. A maior parte das pessoas, parece-me, aproveita o fim de semana e vai fazer compras nos arredores. Algumas até vão a Coruche, a Évora, a Ponte de Sor... outro supermercado aqui dava empregos e as pessoas não tinham de sair."

Estacionamos o carro. Faz vento, é uma zona de descampados. Há muitos lotes que aparentam estar vazios. Há silêncio. E nenhum movimento. "Olhe para isto, não é aprazível. Queremos começar por limpar esta zona industrial e tornar o local mais atrativo para quem cá quiser investir."

Paula Chuço conhece praticamente todos os edifícios que ali estão em redor. "Isto é uma fábrica de azeitonas, de transformação de azeitonas. É muito interessante por dentro, fui eu que desenhei. Esta de mármores também fui eu que desenhei. Aqui é a Medil, está ligada a kits médicos. Lá em baixo é a Arquiled. Aqui, a nossa ideia é começar por pequenas e médias empresas, principalmente as mais inovadoras. Começar por aí e aos poucos pensar em coisas maiores, criar um efeito de bola de neve. E ir à procura de mão-de-obra nos arredores, fixar pessoas na terra. Neste momento a maior parte da população é inativa, precisamos de população ativa."

Regressamos ao carro. Da zona industrial ao Parque do Gameiro e ao Fluviário - "o coração do turismo", como diria, mais tarde, Maria de Fátima Espanhol, funcionária do café e do restaurante "escondido" - não se demora mais que dez minutos. Fazemos a Nacional 2, na direção da barragem de Montargil, e viramos à direita a caminho do Açude do Gameiro. Seguimos a estrada. Do lado esquerdo vê-se milhares de árvores de fruto, à direita extensas searas de milho já "apanhado". "Isto é tudo fruta que depois vai para a Compal, são umas dezenas de hectares. Vê aí do lado direito? Há meia dúzia de anos isto era tudo searas de tomate que depois era transformado naquela fábrica que vimos à saída de Mora. Mas agora, não sei porquê, é tudo milho. O tomate que é transformado aqui vem de outras zonas." É esta a agricultura de Mora? "A maior produção são os pomares da Compal e já estamos com muita amendoeira, já se vai vendo muita. Não temos mais. A cortiça também ocupa muita gente, mas só na altura dela."

No final da estrada viramos à esquerda, atravessamos a estrada estreita que percorre a barragem do Gameiro e atravessa o Raia "que vai ter ao Sor e depois é o Sorraia". O Parque do Gameiro fica à direita, o Fluviário, um pouco à esquerda. "O que nós queremos é que a pessoa chegue aqui e não veja só o Fluviário porque a visita faz-se em meia hora. A pessoa vinha aqui, visitava depois o Museu do Megalítico, a Igreja das Brotas, dormia na Casa das Romarias, vinha almoçar ou jantar nos nossos restaurantes e fazia um roteiro. Não existe, mas está previsto no nosso programa. Queremos requalificar este espaço e legalizar a praia." Legalizar, é ilegal? "Eles chamam praia fluvial, mas não é. Precisamos que seja."

Subimos a rampa do Fluviário, em cima, à esquerda, há um café. Maria de Fátima Espanhol e Camélia estão ao balcão. Não há clientes. "Vem aqui muita gente, é aqui o coração do turismo. Durante a semana é um bocadinho mais parado", diz a assistente operacional, "a Fátima", que sem receios diz à nova presidente o que é preciso fazer ali. "Isto deveria estar mais cuidado, começando pelo exterior. E acho que merecia um restaurante como deve ser. E não é preciso muito. Até eu posso pintar as paredes. Umas mesas, umas cadeiras, umas toalhas em condições para dar vida, falta requinte, que isto merece o requinte." Restaurante, qual restaurante?, pergunto. "Entre por aí, desse lado... é lá ao fundo". Entramos. "... já percebi", diz Paula Chuço. "Parece uma cantina", comenta Tó Quim. "Isto é pequenino, é aconchegante... tem este aquário. Agora imagine isto arranjado", diz Fátima. "Tó Quim, mais um desafio....". "Que fossem todos assim", responde o vereador à presidente de câmara. Fátima, que explica em detalhe tudo o que pensa, e que diz fazer umas "belas migas de espargos", olha para os dois socialistas e dá-lhes uma novidade. "Vou ser muita clara , mas disseram-me que vocês iam fechar isto se ganhassem." "Nós?", pergunta Paula Chuço. "... isto é, nem sei como dizer. Já ouvi muitas: despedir pessoas, privatizar a água, tirar o cartão do idoso... esta ainda não sabia."

Ali a umas dezenas de metros, em baixo, junto ao açude, fica o parque e os Passadiços do Gameiro. "É sempre ao longo do rio, durante dois quilómetros, e quando acaba temos uns trilhos, mas também precisamos de legalizar." Legalizar? "Parte do passadiço foi construído em terrenos privados, os trilhos também e aquela torre lá ao fundo, o observatório, também foi. É uma herança para resolver. Vou pedir para não tirarem fotos, aqui sim, mas lá para a frente não."

Na viagem de regresso, a caminho do "marco amarelo", Paula Chuço explica que o problema em Mora "não são as infraestruturas, a habitação... é a falta de divulgação do concelho, a dificuldade em fixar empresas. Há a chamada obra feita, mas sem estratégia a longo prazo... obras vazias. Precisamos de criar empregos, acabar com este abandono".

À entrada de Mora, não viramos à direita, não entramos na vila, seguimos em frente até à rotunda do marco quilométrico N2. "Aqui está o marco". Mas existia aqui algum marco? "Não." É inventado? "A Nacional 2 não passa aqui, passa pelo centro de Mora. O marco verdadeiro está perto da praça, quase ao pé do Afonso [restaurante], aí é que está o marco. A nossa ideia é redirecionar as pessoas para o sítio onde é o verdadeiro marco, dinamizar Mora. Aqui as pessoas param, mas vão embora." Mas está aqui este marco porquê? "Olhe, é daquelas coisas feitas sem pensar. Obras vazias." E finalmente, a tradução: "O Tó Quim chama-se António Ferreira."

artur.cassiano@dn.pt

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