Do mel ao fel. PS e Bloco em modo "passa culpas"

António Costa e Catarina Martins protagonizaram debate tenso, esta noite, na RTP. No final, questionado sobre se se demitirá se não conseguir uma maioria absoluta, líder do PS disse: "Eu não sou o professor Cavaco, não faço essa chantagem"

Foi uma espécie de "sei o que fizeste na legislatura passada". António Costa e Catarina Martins passaram ontem a meia hora do frente a frente na RTP a reeditar todas as críticas mútuas que se ouviram aos dois partidos desde as eleições de 2019. Um "passa culpas" que teve novamente como pano de fundo a Saúde, a Segurança Social e as leis do trabalho.

Depois de já ter qualificado António Costa como um "obstáculo" a entendimentos à esquerda, Catarina Martins abriu o debate a apontar o dedo ao "desejo de uma maioria absoluta e a intransigência de governar à esquerda" do líder socialista, uma mudança de atitude que reportou a 2019. Já António Costa foi a 2020 - repetidamente - para acusar os bloquistas de trem falhado ao "PS, ao PCP, ao PEV", ao chumbar o orçamento quando o país estava em plena pandemia e não tinha sequer iniciado o processo de vacinação. "Há dois blocos, o que aparece na comunicação social, cheio de mel, e o que atua na Assembleia da República, que é cheio de fel" e que, atirou Costa, "soma o seu voto à direita e à extrema-direita para chumbar um orçamento do PS".

Foi o pretexto para sustentar que a "questão é saber que maioria existe", ou seja, polarizar entre os socialistas e a direita. Nas muitas críticas que fez aos bloquistas, o líder socialista usou sempre a expressão "a direção do BE" - que se "cansou de fazer parte de uma solução" e quis voltar a fazer parte do protesto - e dirigiu-se expressamente ao eleitorado bloquista para afirmar que lhe cabe decidir se concorda com este posicionamento.

Se Costa tentou passar a ideia de que o BE foi o primeiro partido a romper à esquerda, Catarina Martins contrapôs que o BE "foi o único partido de esquerda com o qual [o PS] contou para o orçamento suplementar" e para declarar os vários "estados de emergência" durante a pandemia. E contrapôs que "fel" é o governo não concretizar as medidas com que se compromete, apontando o exemplo dos cuidadores informais: "o governo guardou na gaveta 98% do dinheiro que tinha para os cuidadores informais". "Se nada for feito o Serviço Nacional de Saúde estará moribundo daqui a quatro anos. Ninguém pode pedir ao BE que aprove orçamentos que, a cada dia que passa, enterram mais o SNS. É essa resposta que o PS tem que dar", defendeu a coordenadora bloquista.

Com o debate centrado nos temas que afastaram os dois partidos neste orçamento de Estado (recorde-se que o BE apresentou uma lista de nove exigências), Costa defendeu que o que impediu um acordo não foram as propostas dos bloquistas para a Saúde, mas para a Segurança Social, que poderiam implicar um custo de "480 milhões de euros por ano", um "rombo brutal " que poderia por em causa a sustentabilidade futura da Segurança Social.

Também as leis laborais voltaram a separar os dois partidos, com Costa a afirmar, sobre as regras que se mantêm do período da troika: "Expurgámos o que havia a expurgar". E a puxar do programa do BE para acusar os bloquistas de quererem "agravar a dívida pública em 14%" , ao propor a "desprivatização da ANA, CTT, REN, EDP e Galp" para "fazer uma bravata ideológica". Catarina Martins dedicou duas frases ao assunto. "Talvez o PS ache normal que seja o Estado chinês a mandar na energia em Portugal. Mas está a criar um obstáculo que não existe", argumentou, antes de sublinhar que o PS não terá maioria absoluta - "Toda a gente neste país sabe que não teremos uma maioria absoluta" - e que, no dia 31 de janeiro, no dia seguinte às eleições, serão novamente o SNS e as questões do trabalho que estarão em cima da mesa.

Já no final, questionado sobre se se demitirá se não conseguir uma maioria absoluta, Costa evocou pedidos passados. "Eu não sou o professor Cavaco, não faço essa chantagem" - "Já disse que saio se perder as eleições. Caso contrário estou cá para assumir as responsabilidades."

susete.francisco@dn.pt

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