Da esquerda à direita, todos exploram a cambalhota tática de Costa

Comunistas e bloquistas capitalizam a seu favor o facto de o líder do PS ter deixado cair a exigência de maioria absoluta e admitir agora "falar com todos". Para Rui Rio, isto só significa que o PS está na "iminência de perder", devendo o seu líder fazê-lo "com dignidade".

Recuperado depois de ter contraído covid, o comunista João Ferreira regressou esta terça-feira à campanha eleitoral (e nesta quarta-feira será a vez do próprio Jerónimo de Sousa).

Questionado sobre a cambalhota tática que António Costa deu - o líder do PS abandonou a exigência de maioria absoluta e já admite falar com os partidos da geringonça -, Ferreira considerou-a "inevitável".

Ou seja: "a realidade veio dar razão às posições da CDU" e "se isto fossem placas tectónicas, elas movem-se, e quanto mais força tiver a CDU, mais elas se irão mover". "O reforço da CDU traz sinais de movimento à vida política em geral", insistiu ainda.

"Já se percebeu - e ainda bem que eu fiz esse desafio - que vai ser preciso conversar no dia 31 de janeiro, já se percebeu que vai ser preciso negociar qual será o governo da próxima legislatura, vai ser preciso negociar orçamentos e um contrato para o país."

Catarina Martins, líder do BE, que começou o dia visitando uma feira em Vila do Prado (Braga), também enfatizou a necessidade de manter as portas abertas ao diálogo â esquerda logo a seguir às eleições: "Já se percebeu - e ainda bem que eu fiz esse desafio - que vai ser preciso conversar no dia 31 de janeiro, já se percebeu que vai ser preciso negociar qual será o governo da próxima legislatura, vai ser preciso negociar orçamentos e um contrato para o país que responda aos problemas das pessoas. Falemos agora das propostas."

"As coisas não se passam só entre Bloco de Esquerda e PS, precisam do contributo de toda a esquerda e é com toda a esquerda que vamos ter de falar a seguir."

Já Rui Tavares, cabeça-de-lista do Livre em Lisboa, considerou que a posição de Costa significa que a exigência deste de uma maioria absoluta para o PS "fez ricochete" e agora há um recuo. "é uma boa notícia que finalmente comece a haver mais clareza a poucos dias das eleições, [mas é] uma má notícia que venha tão tarde", afirmou ainda, à margem de um encontro em Lisboa com profissionais do setor da saúde. Tavares já tinha avisado, na segunda-feira, que o diálogo à esquerda não se pode resumir a uma conversa entre socialistas e bloquistas, como Catarina Martins sugere. "As coisas não se passam só entre Bloco de Esquerda e PS, precisam do contributo de toda a esquerda e é com toda a esquerda que vamos ter de falar a seguir."

"António Costa está efetivamente na iminência de perder as eleições. E acho que ele, por aquilo que fez na política ao longo de toda a sua vida, que tem uma carreira política muito longa, podia perdê-las com dignidade."

À direita, Rui Rio também explorou o novo discurso do líder do PS dizendo que os portugueses "não vão perceber" como será agora possível renovar o diálogo à esquerda. "E agora em fim de fevereiro ou em março o PS já está disponível para dar aquilo [o OE 2022] que não estava disponível há dois meses?", perguntou. Acrescentando o óbvio: "Mas então, se era para dar, tinha dado há dois meses e não andávamos em eleições e a criar esta instabilidade, com o BE e o PCP a dizer que a culpa é dele e ele a dizer que a culpa é do BE e do PCP. Se isso vier a acontecer, acho que os portugueses não vão perceber."

"Ainda faltam três dias e [António Costa] ainda pode mudar oito vezes de opinião."

Antes, face a sondagens que dão o PSD agora à frente, Rio considerara que Costa está "na iminência de perder as eleições". E deixou uma sugestão provocatória: "Acho que o doutor António Costa está efetivamente na iminência de perder as eleições. E acho que ele, por aquilo que fez na política ao longo de toda a sua vida, que tem uma carreira política muito longa, podia perdê-las com dignidade." Segundo acusou, o secretário-geral do PS tem contribuído para que a campanha para as legislativas de domingo "esteja a baixar um bocado de nível", porque está "permanentemente a deturpar, a deturpar, a deturpar" o programa do PSD. "Temos de andar bem-dispostos, não vale a pena andarmos aqui todos à pancada uns aos outros. Lutamos com ideias, mas podemos andar bem-dispostos. A última coisa que queria é que a campanha acabasse dessa forma."

Na Marinha Grande (distrito de Leiria), João Cotrim de Figueiredo, presidente da Iniciativa Liberal, assinalaria as "oscilações táticas" de Costa e ironizou: "Ainda faltam três dias e ainda pode [António Costa] mudar oito vezes de opinião."

"Vamos votar pelos trabalhadores que têm salário mínimo nacional e que querem que o salário mínimo nacional continue a subir."

Em Coimbra, depois de uma arruada no centro da cidade, o líder do PS dramatizaria as consequências de uma derrota do PS.

Segundo afirmou, só uma vitória socialista pode assegurar um aumento extraordinário das pensões e a continuidade no aumento do salário mínimo. "Vamos votar pelos trabalhadores que têm salário mínimo nacional e que querem que o salário mínimo nacional continue a subir. Vamos votar pelos trabalhadores que têm salário médio e que tem de aumentar. Vamos votar por todos os trabalhadores que têm direito a uma agenda de trabalho digna, sem precariedade, com salário justo e com boa conciliação entre as vidas profissional e familiar."

Faltam três dias para a campanha acabar e cinco para as eleições.

joao.p.henriques@dn.pt

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