Cristas indisponível para Lisboa deixa fasquia alta à direção do CDS

Antiga líder defende que os 20,59% nas eleições de há quatro anos devem dar aos centristas o lugar de cabeça-de-lista numa coligação com o PSD na capital.

Assunção Cristas não repetirá a candidatura pelo CDS em Lisboa e disse-o ontem com estrondo, apontando críticas à estratégia, ao discurso e à forma como o processo foi conduzido pela atual direção do partido. Mais: Cristas deixa a fasquia bem alta para as autárquicas de outubro, lembrando o desempenho do partido há quatro anos - o melhor resultado de sempre do CDS em Lisboa - para defender que os centristas devem garantir o primeiro lugar numa lista de coligação com o PSD. O responsável por essa meta é diretamente nomeado: Francisco Rodrigues dos Santos.

Uma posição muito crítica, expressa poucos dias depois de um Conselho Nacional que aprovou uma moção de confiança ao líder, desafiado pelos críticos para um congresso extraordinário. Uma reunião em que se ouviram pesadas críticas ao legado deixado pela anterior direção de Assunção Cristas e que esta não deixou agora passar em branco. Já ao final da tarde, a direção do CDS viria a responder através de um comunicado, assinalando logo na primeira frase que soube da indisponibilidade da ex-líder para participar nas autárquicas "através de uma rede social".

Na mensagem publicada no Facebook, Assunção Cristas escreve que "não estão reunidas as condições de confiança necessárias para ponderar uma candidatura" à autarquia da capital, isto apesar de contar com o "apoio das estruturas locais do partido". A antiga líder dos centristas aponta três razões para essa decisão, a primeira das quais "a discordância da estratégia do CDS na negociação de uma coligação alargada" com o PSD. Na decisão de Cristas pesou também "o discurso contraditório da direção do CDS", que a considera "simultaneamente responsável pela degradação do partido no último ano e uma boa candidata a Lisboa". E acrescenta-lhe o que diz ter sido o "parco interesse" da direção em falar consigo, "num tempo e numa forma que fica aquém do que a cortesia institucional estima como apropriado".

Invocando também a vida profissional, Cristas usa a maior parte do texto para defender que o CDS deve assumir uma posição de liderança numa coligação com os sociais-democratas na capital, apontando para isso o resultado de há quatro anos, que colocou os centristas muito à frente do PSD - o CDS é o maior partido da oposição na Câmara de Lisboa, com quatro vereadores contra dois na bancada laranja.

"O critério a adotar deverá ser o resultado das últimas eleições autárquicas. Foi assim que aconteceu em 1979, quando Nuno Krus Abecassis se tornou presidente da Câmara de Lisboa, em consequência das eleições de 1976, que tinham dado 18,9% ao CDS e 15,2% ao PSD", escreve Cristas. Ora, em 2017 o CDS teve 20,59%, "o melhor resultado da sua história", enquanto o PSD teve 11,2%. "Se em 1979 a distância que na eleição anterior não chegou a quatro pontos percentuais determinou a liderança do CDS, em 2021 a diferença de quase onze pontos também o deve determinar", escreve Cristas. E se o desafio é pôr o CDS na liderança da coligação, este é um encargo que cabe ao presidente do partido, defende a vereadora: "É dever do Presidente do CDS trabalhar no sentido de construir essa coligação a par de um método para em conjunto ser desenhado um programa sólido e ambicioso. Até agora, isso não transpareceu. Penso, contudo, que vai a tempo de encontrar um bom nome, da área do CDS, para encabeçar uma coligação ganhadora." Assunção Cristas não está sozinha nesta leitura. "Há meses que o digo: o CDS tem de encabeçar a coligação e tem de ter um candidato vencedor. Isso será honrar o legado de Krus Abecassis", diz ao DN João Gonçalves Pereira, presidente da distrital de Lisboa do partido e um crítico da atual direção.

Acontece que esta é uma meta de difícil concretização, dado que o PSD não está disposto a abdicar de um nome próprio na maior autarquia do país. Entre os sociais-democratas os resultados das últimas autárquicas são vistos como meramente conjunturais, num contexto em que o CDS avançou para o terreno muito antes das eleições e com a líder à cabeça, enquanto o PSD arrancou tarde e com uma figura pouco conhecida.

Na reação às palavras da antiga ministra, a direção do CDS diz respeitar a "legítima opção de Assunção Cristas querer dedicar-se apenas à sua vida familiar e profissional" e deixa um "agradecimento pelo seu papel no passado autárquico do partido", acrescentando estar a trabalhar nas autárquicas "nos órgãos e no calendário próprios" e em conjunto com os "milhares de militantes disponíveis para dar a cara pelo CDS". O comunicado enuncia três objetivos para as eleições locais, nenhum deles referente em particular a Lisboa - reforçar a implantação local do CDS, derrotar o PS nas eleições autárquicas e criar "condições favoráveis a uma maioria de centro direita nas eleições legislativas de 2023". Questionada sobre a meta apontada por Cristas, a porta-voz do partido remeteu para o comunicado.

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