Costa ou Rio, qual dos dois terá a carta mais forte para a governabilidade?

Líderes do PS e PSD enfrentam-se esta noite na RTP, SIC e TVI. As potenciais alianças pós-eleições, o modelo de crescimento económicos, em particular a política fiscal, serão temas incontornáveis para marcarem ou perderem pontos rumo às legislativas de 30 de janeiro.

O debate dos debates é esta noite nos três canais em sinal aberto. Os dois candidatos a primeiro-ministro vão enfrentar-se pela segunda vez na corrida a eleições legislativas, a primeira foi em 2019 com António Costa a levar a melhor nas urnas sobre Rui Rio. Agora, numa antecipação do jogo eleitoral, os líderes do PS e do PSD lançam os dados para mais quatro anos e fazem depender deles muito do seu futuro político. "É fundamental", sentencia José Adelino Maltez sobre a importância deste frente-a-frente para o resultado das eleições de 30 de janeiro.

Um debate que vai decorrer no cineteatro Capitólio, em Lisboa, com uma duração prevista de 75 minutos, e será moderado por João Adelino Faria (RTP), Clara de Sousa (SIC) e Sara Pinto (TVI).

Quem parte melhor posicionado, depois de uma bateria de debates televisivos com os líderes dos partidos mais pequenos, Costa ou Rio? Os politólogos são unânimes a considerar que o líder socialista foi o que apresentou maior consistência e , "quase sempre" venceu os embates. "Rui Rio ficou aturdido no primeiro e segundo debates, com André Ventura e Catarina Martins, mas foi recuperando nos outros, ganhando estilo e com João Cotrim Figueiredo já estava a jogar como deve ser", analisa ao DN José Adelino Maltez.

Tal como Rio tentou não hostilizar nenhum opositor - talvez a pensar nas pontes que poderá ter de fazer após as eleições - também "Costa procurou jogar sem esmagar os opositores", ainda que tenha sido duro com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.

"Rui Rio ficou aturdido no primeiro e segundo debates, com André Ventura e Catarina Martins, mas foi recuperando nos outros, ganhando estilo e com João Cotrim Figueiredo já estava a jogar como deve ser."

André Freire também considera que chegam politicamente equilibrados ao frente-a-frente frente e têm tudo a ganhar em vincar bem as diferenças de programa eleitoral. "Além da visão global para o país que vão tentar apresentar, não sendo abissal o que os separa, sempre há diferenças significativas", reforça o politólogo. Em particular a visão sobre os impostos, diz, marcará muito o ritmo do confronto entre Costa e Rio.

Para José Adelino Maltez se Rio conseguir puxar o debate para as questões económico-financeiras "ganha pontos" na comparação entre os dois programas. Até porque o programa socialista apenas fala em "ajustar" a carga fiscal e o do PSD em "rever substancialmente".

"Além da visão global para o país que vão tentar apresentar, não sendo abissal o que os separa, sempre há diferenças significativas."

"Rio vai claramente atacar a falta de crescimento económico e Costa tentar encostá-lo à tradição dos governos de Passos", que foram de cortes violentos de rendimentos, sublinha o politólogo.

A governabilidade

Mas se a radiografia económica e financeira do país os separará no debate, a da inevitável governabilidade pós eleições também poderá ser campo fértil para marcarem ou perderem pontos. Ainda que ambos não tenham fechado completamente a porta a um qualquer entendimento caso ganhem a 30 de janeiro sem maioria. E mesmo com Costa sempre a pedalar para que aconteça e a rejeitar acordos de bloco central, ou seja de governo.

Sobre o cenário pós-legislativas - e atendendo que as sondagens têm afastado a possibilidade de uma maioria absoluta - quem chega a este debate em melhor estado para ostentar a carta da estabilidade?

"Rui Rio está mais bem posicionado, porque no seu campo político de centro-direita as portas estão todas abertas aos entendimentos", frisa André Freire. Ou seja, "Rio tem uma política de alianças que é vislumbrável". Seja com o CDS, O Iniciativa Liberal e sem descartar na totalidade o Chega (sem que admita que possa ter participação num governo por si liderado). "Rio tem uma panóplia de potenciais aliados", diz o politólogo e estabelece o paralelo com António Costa, que já disse que não haverá uma segunda oportunidade para uma nova geringonça com o PCP e o BE.

"Rui Rio está mais bem posicionado, porque no seu campo político de centro-direita as portas estão todas abertas aos entendimentos."

"Costa não vai sair do discurso da maioria para não ter de explicar com quem se poderá aliar se existir uma maioria de esquerda", afirma André Freire. Mas, remata, "é inevitável que tenham de falar da política de alianças".

José Adelino Maltez lembra a este propósito que Rui Tavares ajudou Costa a criar a ideia de uma eventual "ecogeringonça", com o Livre e o PAN, o que pode reforçar a ideia de um voto mais útil no PS e nestes pequenos partidos do que no PCP e BE.

No debate, afirma o politólogo, "Rui Rio também terá de se esforçar por demonstrar que aquela faixa de 6 ou 7% que o separa de Costa nas sondagens é perfeitamente alcançável e porquê".

Tudo somado, Costa levará muito provavelmente a mensagem bem estudada de que é o garante da estabilidade em tempos movediços de crise e Rui Rio a de que é uma alternativa segura e regeneradora.

Confronto em 2019

A saúde, o modelo económico do país, os impostos e o estado da justiça dominaram os dois frente a frente realizados entre António Costa e Rui Rio na pré-campanha para as eleições legislativas de 2019.

Há dois anos, já com uma experiência de quatro anos de geringonça, o tema da governabilidade ocupou centralidade nos debates entre António Costa e Rui Rio. Na altura convergiam - e ainda convergem - que a ideia de um "bloco central" que juntasse os dois partidos num governo seria má para a democracia. E Costa rejeitava mesmo contar com o apoio do PSD mesmo ao nível parlamentar, falando sempre para a sua esquerda política.

Ainda sem sombra de pandemia, o Serviço Nacional de Saúde também opôs os dois líderes, com o do PSD a desfiar as suas maleitas e o do PS a garantir que estava melhor do que o que encontrou em 2015, após o governo de PSD/CDS de Passos Coelho e Paulo Portas.

Mas foi o modelo económico para o país que tornou a discussão mais acesa entre os dois, sobretudo quando deslizaram para as questões fiscais. Na altura, Rio também ostentava a proposta de uma redução de impostos - como tem agora no seu programa eleitoral - e defendia que 25% da margem orçamental prevista para a legislatura devia ser usada para baixar impostos e outros 25% para aumentar o investimento público, sendo os restantes 50% para a consolidação das contas públicas.

António Costa, ainda encostado aos partidos mais à esquerda do PS, defendia incentivos a políticas de natalidade ou para reinvestimento dos lucros das empresas e para o interior do país. Confrontava ainda o líder do PSD com o "enorme aumento de impostos" do executivo liderado por Passos Coelho. Memória que hoje poderá reavivar.

paulasa@dn.pt

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