Caldeira Cabral : "É inevitável levantar moratórias em setembro, mas têm de ser criados instrumentos de transição" 

Foi ministro da Economia no primeiro governo de António Costa e é administrador da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. Defende solução para créditos adiados que inclua fundos, instituições financeiras e Banco de Fomento. Está otimista numa recuperação mais rápida no segundo trimestre. Elogia políticas europeias que não passam pela austeridade. Mas avisa que Portugal tem de retomar, a partir de 2022, o caminho de consolidação orçamental e de redução da dívida.

Manuel Caldeira Cabral acaba de escrever Construir uma Alternativa - A política económica da geringonça e a resposta à crise da covid-19. Em primeira mão, fala do livro, que é lançado amanhã, dia 6, pela D. Quixote e que tem 573 páginas. Um balanço de uma era com receitas que o ex-ministro da Economia diz estarem atuais para aplicar também à crise provocada pela covid-19.

A alternativa em formato de "geringonça" valeu a pena?
Penso que sim. O que propusemos foi uma política diferente em termos macroeconómicos, porque em vez de ser uma política pró-cíclica, contracionista, foi moderadamente expansionista, responsável, que repôs rendimentos e deu confiança às pessoas. Fez também um trabalho muito aprofundado na reposição do financiamento às empresas, o que foi muito importante, porque estas, quando acreditaram que a economia iria crescer, quiseram investir, mas precisavam de financiamento. Depois, uma série de políticas setoriais que desenvolvemos em startups, por exemplo; o apoio à inovação com o Programa Interface, mas também com o Indústria 4.0, um programa já de apoio à digitalização, que começámos em 2016. É muito interessante ver como isso, quatro anos mais tarde, se torna a grande prioridade da União Europeia (UE). Os programas que fizemos na área da inovação, mas também na capitalização das empresas, foram verdadeiras reformas estruturais pensadas com princípio, meio e fim, ouvindo os interlocutores de cada setor. Foi importante o governo da "geringonça", no sentido de mudar as perspetivas que os próprios portugueses tinham do país.

Quebrou tabus ideológicos?
Eu acho que sim. E quebrou uma situação que havia no país em que a crise financeira, a política orçamental e a correção do défice se tinham tornado não algo que era necessário, mas apenas o que era necessário. Era uma ideia de política económica limitada à parte financeira e que na parte económica se limitava a dizer que para sermos mais competitivos tínhamos era de baixar custos salariais, tirar direitos aos trabalhadores - e isso, de facto, estava a deprimir o país e a ter consequências. Todos os países europeus já estavam num relançamento económico muito mais forte do que o português. Em Portugal, o relançamento da economia estava a marcar passo, mas estava também a ter um efeito que era muito pernicioso para o crescimento económico futuro, que era a saída de jovens. Saíram mais de 100 mil pessoas da economia portuguesa, principalmente jovens. O que fizemos foi inverter as expectativas e relançar o crescimento, fazendo com que esses jovens ficassem. A estratégia para as tecnológicas partiu exatamente dessa ideia.

A ideia foi agarrar talentos portugueses para que ficassem cá?
Exatamente. As empresas estrangeiras estavam a vir diretamente às universidades recrutar o nosso talento, e nós falámos com essas empresas e dissemos: se reconhecem a qualidade do nosso talento, porque é que não vêm trabalhar para Portugal? Vieram muitas. O capítulo 5 do livro descreve o que foi esse processo com o Programa Startup Portugal e o Indústria 4.0. Foi um processo ligado à internacionalização, onde se pôs a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) pela primeira vez a trabalhar na captação de investimento das empresas tecnológicas, a promover as nossas startups. E de repente Portugal tem três unicórnios. Espanha não tem nenhum. Refiro no livro que tivemos um aumento de 47% do investimento produtivo, aquele que cria novos empregos. Veio a Google, veio a Mercedes - que deu muito trabalho a trazer para cá -, depois a BMW, a Volkswagen. Portugal ficou no centro da revolução tecnológica do automóvel, e isso posiciona o país de maneira muito diferente.

Apesar das críticas da oposição à "geringonça", julga ter-se encontrado esse rumo de crescimento?
Penso que em termos políticos e económicos conseguimos inverter uma situação de baixo crescimento que - sejamos justos - não era dos últimos quatro anos, era dos últimos 15. Nos 15 anos anteriores a 2015, Portugal tinha crescido 0,1% a 0,2% e, de repente, em quatro anos seguidos cresceu acima dos 2% e a uma média de 2,7%, o que é bom para qualquer país europeu. Em 2016, crescemos mais do que a Zona Euro e quase o mesmo que a UE. O capítulo 3 do livro fala exatamente do que aconteceu com o crescimento - em 2015, todas as instituições internacionais previam que em 2016, 2017 e 2018 a economia portuguesa continuasse abaixo da média europeia e que crescesse progressivamente menos, que arrefecesse. Todos previam que crescesse, mas menos do que tinha crescido em 2015. O que conseguimos foi, já em 2016, crescer mais, e em 2017 dar um salto para um crescimento de 3,5%. Lembro-me de estar a discutir o Orçamento do Estado (OE) para 2017, e quando pusemos uma perspetiva de crescimento de 1,8%, fomos criticados por toda a oposição, porque estávamos a ser muito otimistas e aquilo não se iria verificar. De repente, tivemos um crescimento que não foi maior do que o anterior, foi o dobro de 1,8%, e muito puxado pelas exportações e pelo investimento. E, de facto, era exatamente o que tínhamos feito no trabalho do cenário macroeconómico. Foi quase um ano em que 12 economistas se encontraram todas as semanas e discutiram tudo em profundidade.

Elogia a "geringonça". Acha que devia ter tido uma reedição ?
O governo correu bem porque soube fazer um acordo importante com os partidos à sua esquerda. O PS fez um governo coerente, se quiser, de guerra, que avançou com reformas estruturais. Fez um acordo com os partidos à sua esquerda, que foi entendido por toda a gente e foi um acordo relativamente simples: vamos concordar com políticas concretas, como a reposição de rendimentos, o aumento das pensões, uma política de relançamento económico, uma política industrial mais ativa e com enfoque maior no crescimento, no financiamento das empresas, na criação de emprego. Mas vamos concordar em discordar em algumas matérias em que não há concordância - já há muitos anos que não há - entre PS e os partidos à sua esquerda. Isso permitiu uma política económica que foi melhor para o país, as pessoas, os trabalhadores.

Por isso é que lhe pergunto se devia ter havido uma reedição.
Penso que os eleitores do BE e do PCP reconhecem isso, mas está a ser mais difícil dar continuidade a essa unidade, porque na altura havia algumas políticas em que tínhamos clara concordância. Era preciso uma política de relançamento mais ativa e uma estratégia de combate à pobreza e aos problemas sociais. Em muitos aspetos, com a covid voltámos a uma situação semelhante, e era importante que à esquerda se percebesse que o governo pretende fazer uma política de relançamento que tem muitos aspetos semelhantes à que foi feita. É preciso que os partidos de esquerda, ao perceberem isso, também percebam que a política de relançamento que vai ser feita não é exatamente a que o BE quer ou a que o PCP quer - que tem muitos riscos, às vezes não muito discutidos. É uma política de relançamento mais moderada, de um partido que é de centro-esquerda. Se perceberem isso, penso que vão apoiar esta política, que não vai fazer tudo o que eles fariam, mas vai ser positiva para o país. Lançar agora o país numa crise política, fazê-lo a meio de um processo de recuperação, seria muito mau para o país...

Usou a expressão "foi preciso fazer um governo de guerra". Face à covid-19, vai ser preciso novamente um governo de guerra?
Penso que sim. O governo conseguiu, por exemplo nas medidas de apoio económico, lançar apoios ainda no final de março [2020]. A pandemia foi declarada nesse mês. Tem sido um governo de guerra numa situação em que a realidade muda todos os dias. Este livro estava pronto em setembro - a primeira versão - e tive de o atualizar, mas, face a setembro, em três, quatro, cinco meses a realidade mudou muito. Agora a situação parece estar a estabilizar, vamos ter sinais de crescimento neste segundo trimestre, e eu penso que sinais fortes.

O que o leva a estar tão otimista?
Ver o que aconteceu no verão passado. Se olharmos para o final de julho e agosto, veremos que houve um desconfinamento, houve confiança e houve recuperação dos setores mais afetados - a restauração, o turismo - bastante forte. Neste ano isso pode começar mais cedo, principalmente com a vacinação em abril e maio a acelerar muitíssimo. Se chegarmos ao verão já com grande parte da população vacinada, teremos condições para um desconfinamento que permita, principalmente àqueles setores, terem já uma recuperação mais forte do que no ano passado. É fácil de perceber que neste segundo trimestre pode haver crescimento de 7% ou 8%, mas porque há um efeito de base de crescimento no ano passado de 16%. Portanto, ficaremos muito acima dos números de 2020 e, nesse aspeto, será um crescimento real, mas ainda muito abaixo dos números de 2019.

E o desemprego?
Todas as previsões - eu aponto algumas aqui - apontavam para um aumento muitíssimo mais forte e o desemprego fechou 2020 em 6,8%, ou seja, subiu de 6,3% para 6,8%. Foi um aumento pequeno. Todas as instituições preveem que em 2021 vai haver crescimento económico positivo, mas vai haver aumento do desemprego. Parece contraditório, mas eu penso que como se conseguiu com esta crise atenuar mais cedo os efeitos dela e ter uma política económica, quer em Portugal quer na UE, muito diferente da que se teve na anterior, isso fez com que o desemprego não disparasse. É bom lembrar que na anterior crise ele cresceu até 17%, uma situação social gravíssima.

Durante vários meses, como referiu, 12 economistas reuniram-se semanalmente preparando o documento Uma década para Portugal e Manuel Caldeira Cabral fazia parte do grupo. Precisamos de um documento desses para o que aí vem? Qual o momento mais difícil nessas discussões?
Houve muitos momentos de discussão, houve de facto uma tensão criativa interessante. Eu lembro sempre, em primeiro lugar, o papel de Mário Centeno nesse grupo, que foi o de ouvir diferentes perspetivas e de as conseguir integrar, e também o papel do primeiro-ministro. O primeiro-ministro esteve presente em muitas reuniões de trabalho, do princípio ao fim. Penso que fazem sempre falta documentos desse género. Dou como exemplo o documento Costa Silva, preparatório do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que eu acho que deve ser aplicado ao novo quadro plurianual e que segue um pouco esse princípio. Isto foi útil para o PS se afirmar como alternativa na altura e foi depois muitíssimo mais útil na governação. Estava criado já um entendimento, uma capacidade de diálogo, para avançar com as políticas económicas que tínhamos combinado. Acho que a oposição hoje podia aprender com esse processo.

A oposição podia fazer um documento para a próxima década?
Quem quer ir para o governo deve trabalhar para criar uma alternativa a quem está no governo que seja coerente, com ideias claras, com limites claros sobre o que é e o que não é possível e sobre o que vai e não vai fazer e o que vai fazer de forma diferente. Isso reforça a democracia, reforça as alternativas.

É isso que está a faltar à direita, um documento em que se perceba para onde quer levar o país?
Penso que hoje falta uma ideia do que seria claramente diferente numa estratégia alternativa ao que o governo está a fazer.

Muitas das políticas que marcaram o seu mandato como ministro da Economia continuam ativas. O que é que lamenta que tenha sido abandonado?
A maior parte dos programas tiveram continuidade, como o Startup Portugal, mas com a dimensão que já têm as nossas startups são precisos instrumentos de financiamento de capital de risco de maior dimensão; apoios a programas de aceleração feitos com as incubadoras, que têm já uma maturidade e uma experiência completamente diferentes das que tinham em 2015. É preciso fazer coisas diferentes dentro da mesma política. Houve várias medidas que avançaram já depois de eu ter saído, na parte do apoio ao empreendedorismo, no Programa Capitalizar... O atual ministro da Economia estava na estrutura de missão, portanto é um programa que ele acompanha e no qual tem todo o empenho. O que está a ser feito agora com a criação do Banco de Fomento vem já de vários passos, e agora, com o de consolidação das várias entidades no Banco de Fomento, isso permitirá lançar instrumentos de capital muito importantes para as empresas de crescimento rápido e para a capitalização, para apoiar um setor que é dos mais competitivos em Portugal mas que está numa profunda crise, o turismo. Este vai ter de ser apoiado com linhas de crédito de longo prazo, mas também com instrumentos de capital.

O Banco de Fomento pode ter esse papel?
O Banco de Fomento pode ter um papel importantíssimo.

Os empresários continuam a dizer que não percebem bem o papel do Banco de Fomento. Porquê tanto atraso em assumir esse papel?
Se olharmos para as instituições que agora estão a entrar no Banco de Fomento, vemos que tiveram um papel importantíssimo. Portugal lançou linhas de crédito com garantia do Estado que foram essenciais para a tesouraria e para muitas empresas se conseguirem manter nesta crise, numa escala muito forte. Estamos a falar, em 2020, de 13 mil milhões de euros de crédito à economia com garantia do Estado, que foram em grande parte para empresas em dificuldades ou até para outras que estavam a querer crescer, mas no meio da pandemia estavam com dificuldades em conseguir financiar-se. Isso foi feito pela Sociedade Portuguesa de Garantia Mútua, pela PME Investimentos e uma parte diretamente pela IFD, mas essas instituições estiveram muito ativas no combate a esta pandemia. Uma parte dos fundos da "bazuca" são financiamento. Esta lógica de maior coerência na atuação das várias entidades poderá, de facto, melhorar. Esses fundos, ao entrarem no Banco de Fomento, podem ser muito alavancados. Serão instrumentos de crédito, mas com prazos longos, com períodos de carência em que as empresas não têm de pagar nada - já foram lançados alguns com períodos de carência de dois, três anos. Se forem utilizados instrumentos de capital, isto pode ser um apoio. Estamos a falar de três, quatro mil milhões que podem entrar nas empresas por essa via e dar um apoio muito grande a empresas que daqui a cinco, seis anos podem estar numa situação financeira fantástica, mas que neste momento estão em enormes dificuldades.

O livro diz que a resposta para sair da crise não é a austeridade. E desta vez, com a crise da covid?
A austeridade claramente não é receita para sairmos desta crise e é muito bom ver hoje que isso é claramente entendido pelo governo, que é o governo que fez a política de 2015 a 2019 e que tem uma resposta a esta crise de aumentar apoios, crédito e financiamento das empresas, de ter apoios para as empresas, além dos sociais e dos apoios aos trabalhadores, e de, com isso, ter conseguido conter o crescimento do desemprego. Mas o mais interessante nesta crise é ver que a política económica que a UE está a seguir é muito mais parecida com a que nós propusemos como alternativa - na altura, as instituições da troika diziam que não havia alternativa e agora estão a segui-la. Temos o Banco Central Europeu a baixar as taxas de juro, quando na crise anterior as aumentou e fez uma política monetária, a meu ver, desastrosa; temos países como a Alemanha, que lideraram a opinião sobre a austeridade e que, tendo margem orçamental, fizeram uma política contracionista que foi muito má para toda a Europa, e que estão a fazer, neste momento, uma política expansionista até mais forte do que a nossa - porque têm também mais margem orçamental. É um sinal muito positivo de que se aprendeu e de que se está a fazer uma política diferente.

Mas temos de ter consciência de que a seguir a 2022 até 2030 Portugal tem de retomar claramente a trajetória que fez entre 2015 e 2019, e que já tinha começado a fazer antes, de consolidação orçamental. Agora tem de fazer essa consolidação orçamental em crescimento, usando os ganhos de crescimento que poderiam ser todos para haver serviços públicos melhores, para diminuir impostos, e que vão ter de ir, parte deles, para pagar o custo desta crise. O custo da crise será pago, pois está a criar endividamento que vai ter de ser reduzido progressivamente amanhã. Agora, é muito melhor que seja reduzido quando já estivermos num período de crescimento, que seja reduzido pelo processo de crescimento. É isso que deverá ser feito não só em Portugal, mas em toda a Europa.

Quanto tempo vai o país demorar a levantar-se e a voltar a ter condições para melhorar o défice e almejar voltar a ter um superavit?
Esse superavit, que foi o primeiro da nossa democracia, foi alcançado ao longo de vários anos em que o défice diminuiu, e o défice começou a diminuir antes do governo a que eu pertenci, continuou a diminuir e penso que isso foi uma das conquistas importantes desse governo, ter demonstrado que era possível continuar a diminuir o défice com uma política diferente. Isso foi importante, e foi muito importante termos demonstrado aos mercados um empenho nas contas certas e nas contas públicas equilibradas. Dá-nos grande credibilidade. No entanto, Portugal está já com uma dívida pública acima de 130% do PIB, e se as taxas de juro se mantiverem baixas isso tem um custo de financiamento relativamente baixo e comportável, mas se aumentarem de repente ficamos com um custo muito grande, que vai afetar a folga orçamental para fazer políticas sociais e de combate à crise. Portanto, é muito importante manter essa credibilidade. Portugal não deve, em 2021, centrar-se no combate ao défice. Em 2021 vai haver um crescimento que tem que ver com os efeitos de base. A economia caiu muito em 2020 e vai haver uma recuperação natural, mas para continuarmos a manter esse ritmo de crescimento em 2022 e 2023, para que retomemos rapidamente o ponto em que estávamos em 2019 - não é só retomar o ponto, temos de retomar a trajetória de crescimento -, temos de ter uma política orçamental moderada ainda em 2022, que mantenha o estímulo à economia em setores que ainda vão estar a recuperar. E temos de fazer esta consolidação.

Até porque houve uma flexibilização de Bruxelas, mas o Pacto de Estabilidade vai voltar...
Vai voltar. E não queremos ser apanhados, no final de 2022 ou em 2023, numa situação em que Portugal aparece como um dos países com maior défice. Penso que Portugal vai aparecer no final de 2023 como um dos países com maior dívida pública, é bom que apareça também com condições para poder dizer que já está a começar a trajetória de redução do endividamento. O país está com juros da dívida inferiores aos de Itália em quase um ponto percentual. Isso dá uma folga importante e é resultado desse bom trabalho que se fez. Deve-se manter uma folga orçamental razoável em 2021; em 2022 não se deve fazer consolidação com aumentos de impostos nem com redução de despesa, mas deve-se continuar a consolidação usando a folga que o crescimento económico dá. Mas isso tem uma parte de frustração: há crescimento e não se aumentam já as despesas públicas em áreas onde é necessário? Não se aumentam salários? Vai ter de se fazer tudo isso com a contenção de um país que está com uma dívida acima dos 130% do PIB.

Concordou com o último aumento do salário mínimo (SMN) numa altura de grande crise, com os patrões a dizer não ter como pagar?
O que se fez durante a "geringonça" foi um sinal importante de aumento de salários, de rendimentos. Entre 2015 e 2019, muitos disseram e nunca desmentiram que subir o SMN levaria a que o desemprego não baixasse, e desceu para 6%. Mostrámos não só que se conseguia combater o desemprego aumentando salários, como conseguimos ter maior atração de investimento estrangeiro e aumentar mais as exportações do que no período anterior, quando alguns diziam que era essencial baixá-los para a competitividade das exportações e para atrair investimento. Como é possível ganhar competitividade com salários a crescer? Foi. Dando melhor financiamento às empresas, com política de inovação; atraindo investimento estrangeiro não em setores que vêm à procura de baixos salários, mas nos que procuram talento, capacidade tecnológica, infraestruturas, regras europeias. Portugal mantém uma competitividade importante e isso é um sinal. O crescimento que queremos depois de 2022 é de retoma.

Portanto, concordou com o último aumento do salário mínimo?
O aumento dos salários deve ser contido numa situação de crise, mas não me choca a subida do SMN e não há sinal de que tenha posto em causa a competitividade. O que não quer dizer que em alguns setores que estavam já numa situação difícil não possa ter havido um agravamento, mas muitos desses estavam a receber apoios como o lay-off .

O lay-off é uma medida importante e o livro refere-o. É relevante para manter a capacidade instalada?
O que foi importante no lay-off foi essa aposta na manutenção do emprego e da capacidade. É preciso manter alguns desses apoios em períodos em que possa ainda haver um agravamento da crise. Temos de ter um plano B para o caso de novas estirpes.

Disse que o país não se deve concentrar na consolidação e em subir impostos, mas em descê-los para as empresas, até para atrair mais investimento estrangeiro. Pode ser um mecanismo futuro?
Temos mecanismos de apoio ao investimento estrangeiro, incluindo o instrumento fiscal. Esse trabalho é feito pela AICEP e tem sido feito. Foi feito em muitos destes investimentos com incentivos fiscais - muitos apoios ao investimento valem muito mais do que a fiscalidade; apoios à criação de emprego, que devemos manter. Devemos manter a estrutura de apoios que agora estão aumentados, porque não só o PRR como o quadro plurianual que vai começar têm esse reforço substancial.

Já a burocracia continua por resolver e é um custo de contexto...
Foi muito interessante o Simplex, mas é uma das questões onde o PRR poderá ter um grande contributo. A digitalização é muito importante, mas não chega. Na reforma do Estado, há áreas em que é preciso mudar também questões de organização, de gestão, a própria estrutura dos novos serviços face aos velhos, mas a digitalização pode dar um contributo enorme para acelerar processos, torná-los mais transparentes, para facilitar às empresas o acesso à informação e à forma como podem concorrer a apoios e cumprir obrigações. Temos de ter uma reforma muito grande do Estado. Essa reforma é uma das mais importantes e afeta transversalmente todos os setores, desde a saúde até outros. Uma das áreas em que fizemos reformas importantes foi a energia.

Diz que o PRR tem na digitalização um pilar importante, mas também há o da transição energética. O livro fala da nova estratégia para a energia. Com ou sem hidrogénio?
A estratégia necessária, que olhe para a energia como uma enorme oportunidade. A evolução que existiu nas renováveis foi enorme e continua, o que significa que hoje a solar consegue produzir energia elétrica mais barata do que fontes fósseis. É uma enorme oportunidade para Portugal ser exportador não só de energia, mas de uma energia que, sendo diferenciada, poderá ser mais valorizada. Ainda foi no meu tempo que colocámos o certificado de energia de fontes renováveis. Essa exportação da energia deve ser feita como? Através das interligações. Tivemos cá uma cimeira com o primeiro-ministro espanhol e o Presidente francês em que estes se comprometeram com interligações para França indo a energia elétrica diretamente. Mas pode ser feito por outras vias e uma delas pode ser o hidrogénio. O hidrogénio é uma oportunidade. É preciso estarmos atentos à evolução da tecnologia. Portugal tem um mix de capacidade de produzir renováveis muito interessante, que deve aproveitar e que vai ser uma vantagem competitiva. O finalizar de contratos de apoio à produção eólica permite que nos próximos anos continuemos a ter reduções de preço da energia. A renegociação dos contratos de baixa potência tem de ser bem feita. Foi esse trabalho que fizemos, dossier a dossier, na interruptibilidade, nas garantias de potência, nos juros da dívida tarifária, na renegociação dos CMEC - fomos ver as vírgulas todas, não quisemos rompê-los, e os contratos dão privilégios e rendas que são conhecidos, mas não davam outros direitos. Por exemplo, obrigavam a que a EDP praticasse a tarifa social para consumidores de menor rendimento e a EDP estava a fazê-lo, mas com 80 mil famílias. O estudo que tínhamos feito apontava para que fossem 800 mil. O que fizemos foi, num trabalho com a Segurança Social e as Finanças, cruzando bases de dados, conseguir alargar a tarifa social 10 vezes. Havia ali muitas rendas sobre as quais não se podia fazer nada, mas outras, e demonstrámo-lo, sobre as quais se podia fazer muita coisa. Ao mesmo tempo, conseguimos lançar concursos que implicaram a capacidade de produção de energia a partir do solar, sem subsídios, sem apoio, sem criar novas rendas. O governo lançou concursos a seguir, um com base em garantias de preço, que demonstraram que o preço que se está a garantir é muito abaixo do preço de mercado. E continuam a ter essa característica: os concursos que lançámos do solar só contribuem para baixar o preço da eletricidade, enquanto no passado - política que foi assumida - houve custos que depois oneraram o sistema por se apostar nas renováveis.

O seu livro fala da preocupação com a pobreza - não apenas energética. O que fazer para combater a pobreza extrema no país?
A pobreza tem de ser vista a dois níveis. A um nível de condições sociais mínimas, que temos de oferecer às pessoas, e mesmo quem cai em situação de pobreza deve ter apoios para que consiga ter uma vida digna. E tem que ver também com a perspetiva económica mais ampla. Tínhamos 27% das crianças a nascer em famílias classificadas como pobres: se não dermos condições a estas pessoas para saírem da pobreza e não dissermos que as crianças que estão em pobreza têm de ter as mesmas oportunidades que as outras, se não trabalharmos para criarmos essas oportunidades no sistema de ensino, nos apoios para que tenham o mínimo, comam bem, tenham acesso à saúde, etc., o que estamos a dizer é que vamos prescindir de 27% das pessoas para fazer o crescimento futuro. Um país que tem uma quebra de natalidade tão grande pode prescindir de muitas coisas, mas não de 27% das crianças. Felizmente, até 2019 houve grande redução, em particular, da pobreza infantil, que caiu para 18% - mas é um número ainda muito alto. O livro retrata a evolução entre 2015 e 2019, uma redução muito forte da pobreza, das pessoas que estão em privação material severa. Houve uma redução forte, estamos a falar de meio milhão de pessoas a saírem da pobreza. A ideia de o estímulo económico ser dado pelo reforço dos apoios sociais aos mais pobres foi importante na estratégia de relançamento, porque nessas os apoios chegam imediatamente à economia, têm um efeito multiplicador mais forte. É preciso criar uma estrutura de apoio social mais dinâmica e mais flexível, mas que tem de se manter muito ativa em 2021 e eventualmente em 2022. Como o apoio a empresas poderá em 2021, em muitos setores, ir sendo retirado mas noutros deve ser mantido e visto como meio de recuperação.

As moratórias foram uma boa ajuda, mas também há quem lhes chame bomba-relógio. Como é que olha para este risco da banca?
O setor financeiro em geral respondeu bem à crise e as moratórias, no período em que surgiram e depois com a extensão, foram extremamente importantes. Naquela altura, muitas empresas tinham ficado sem rendimento nenhum.

E o malparado iria disparar?
Exatamente. O crédito malparado iria disparar e muitas empresas viáveis e que depois recuperaram estariam a fechar portas, a ir à falência, a ficar com problemas de insolvência. Era mau para o sistema financeiro, para os bancos e para as empresas. Como se conseguiu estender até setembro, se houver, de facto, uma retoma da economia no segundo trimestre já com alguma força e se ela continuar no terceiro trimestre, penso que muitas empresas terão capacidade de começar a pagar essas moratórias.

O problema é se é suficiente e se haverá essa recuperação...
É quase inevitável que as moratórias sejam levantadas em setembro, por isso devem criar-se instrumentos, não só dentro dos bancos, de renegociação e transição das empresas que estão a sair de moratórias. Por exemplo, começarem a pagar só juros ou pagar os juros e uma parte do valor. Também devem criar-se instrumentos ao nível do Banco de Fomento e de fundos comunitários, de capital e de crédito mais alargado, que permitam às empresas que estão a sair ainda numa fase incipiente da retoma ter financiamento ou entradas de capital para um período relativamente amplo - cinco, seis anos, em alguns casos até aos 12 -, que lhes permita sobreviver numa situação em que as coisas se estão a equilibrar, para que dentro de dois ou três anos estejam completamente normalizadas. Esses instrumentos que fazem a ponte vão ser necessários. Agora, em setembro, se a recuperação continuar, a vacinação estiver num ponto mais avançado e a pandemia contida, haverá muitas empresas a conseguir sair das moratórias pelo próprio pé. Não podemos é dizer que as que não conseguem serão deixadas à sua sorte. Tem de haver instrumentos, que não serão obrigatoriamente a extensão das moratórias, mas que podem passar pela renegociação com os bancos. Penso que os bancos não o devem começar a fazer em setembro, devem começar já em maio, junho, julho, olhando para a situação das empresas, para o mercado, caso a caso, e dando condições diferentes ou aconselhando a empresa a ter acesso a outros instrumentos financeiros. É importante criar esses instrumentos, com escala grande e com um nível de apoio que se estenda por prazos suficientemente longos, e não apenas por crédito, mas que tenha uma componente muito importante de capital.

Na área de seguros e fundos de pensões, o que é que o preocupa em relação aos efeitos da crise?
Não quero comentar essa área, pois não estou aqui nesse papel. Posso dizer que o setor mostrou ter uma forte resiliência e não teve, em 2020, problemas financeiros originados por esta crise. Foi um trabalho muito forte ao nível da supervisão, mas as carteiras de investimentos recuperaram na bolsa e o setor, nesse aspeto, aguentou bem. Estava bem capitalizado, houve alguns casos em que houve reforços de capital, mas aguentou bem. Temos de continuar a estar atentos.

Continua a acompanhar a política muito de perto. Vai voltar?Não há regresso previsto. Dei contributos para a construção de políticas económicas durante muito tempo. A intervenção política é importante para todos, mas pode ser feita de muitas maneiras, eu já a fazia muito antes de ir para o governo. Foi importante essa intervenção, como a que tive na economia. Deu-me muito trabalho e afastou-me da família - saí do governo com um filho de quatro anos, que há três via o pai muito de vez em quando... Há outros aspetos na vida.

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