Alfeite. "Ano de viragem", diz a holding. "A bater no fundo", temem os trabalhadores

O PSD quis chamar ao parlamento o ex-presidente do Conselho de Administração do Arsenal do Alfeite e saber porque se demitiu passados menos de oito meses de ter tomado posse, mas PS e PCP inviabilizaram.

"Isto aqui parece uma cidade fantasma. Não se ouve nada, não se ouve trabalho". A tristeza é audível na voz de Rui Ferreirinha, membro da Comissão de Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, de onde nos fala. O histórico estaleiro está praticamente parado e os operários vivem em angústia.

Para os trabalhadores o Arsenal "está a bater no fundo". Para o administrador da IDD -Portugal Defense, a holding pública que integra a empresa, tudo está a ser feito para que 2021 "seja o ano de virar de página do estaleiro".

Tal como os deputados do PSD, Ferreirinha também queria saber os reais motivos da demissão do último Presidente do Conselho de Administração (PCA) da empresa, passados menos de oito meses da sua nomeação, deixando uma recordação sombria nos trabalhadores: pela primeira vez tiveram salários em atraso - o subsídio de Natal foi pago quase três semanas do previsto e a ameaça da falta de verbas para vencimentos continua a pairar.

PS e PCP chumbam audição

Esta quarta-feira, na Comissão de Defesa Nacional, os sociais-democratas foram surpreendidos com o chumbo ao seu requerimento para chamar ao parlamento José Miguel Fernandes, escolhido pelo ministro da Defesa para dirigir o Arsenal do Alfeite desde maio passado, e ouvir da sua boca as razões para ter abandonado tão rapidamente o cargo (oficialmente a justificação foi por motivos pessoais), bem como obter informações atualizadas sobre a situação crítica do estaleiro.

Mas o PS votou contra e o PCP absteve-se na votação do requerimento, esta quarta-feira, inviabilizando assim que José Miguel Fernandes se explicasse e explicasse a situação da empresa.

"Ouvimo-lo há muito pouco tempo. Queremos é ouvir quem o substituiu para saber dos salários de fevereiro. E ouvir o ministro quando estiver restabelecido", justificou ao DN António Filipe, deputado comunista. José Miguel Fernandes tinha sido de facto ouvido em novembro passado, mas nessa altura estava em funções, tendo dado informações genéricas sobre o plano para a empresa.

"Não ia abandonar o barco"

Rui Ferreirinha conta que no passado dia oito de janeiro teve uma reunião com José Miguel Fernandes, ainda PCA, por ocasião da tomada de posse da nova Comissão de Trabalhadores. "Não nos disse nada que fizesse prever que iria demitir-se passados 10 dias. Aliás garantiu que não ia abandonar o barco", o que viria a acontecer dia 18.

"Tinha saído pela porta dos fundos da empresa e regressa em 2020, pela mão do Sr. Ministro da Defesa que o apresenta como como alguém de sua confiança"

"O que nos faz mais confusão é perceber o que veio afinal fazer aqui esta pessoa. Recordamos que no passado tinha saído pela porta dos fundos da empresa (tinha sido vogal do Conselho de Administração da Arsenal do Alfeite, S.A., de onde saiu marcado por várias decisões polémicas, como despedimentos de técnicos especializados e em rutura com a Marinha, incluindo conflitos com o então comandante da base do Alfeite) e regressa em 2020, pela mão do Sr. Ministro da Defesa que o apresenta como como alguém de sua confiança. Era a equipa da sua confiança e o Presidente do Conselho de Administração sai passados oito meses?", questiona este membro da CT do Alfeite.

Mais intrigado ainda fica quando "esta equipa veio substituir outra que até estava a conseguir resultados positivos e nunca deixámos de ter trabalho. Então e a confiança que o Ministro disse que tinha nesta nova equipa? Durou oito meses?".

Refere-se ao anterior Conselho de Administração, liderado pelo vice-almirante José Garcia Belo (2018-2020), que o ministro João Gomes Cravinho afastou, seis meses antes do final da comissão de serviço, para "reorientar" o estaleiro.

"Estamos de mãos atadas"

A equipa de Belo conseguira aumentar em 48% o volume de negócios e reduzir num ano o prejuízo de estaleiro de 4,5 para 1,9 milhões de euros. Na opinião de várias fontes ouvidas pelo DN, militares e civis que prestam e prestaram serviço no Arsenal e na Marinha, o seu trabalho estava a conseguir reconquistar a confiança do mercado nacional e internacional da indústria naval.

Rui Ferreirinha teme que o estaleiro esteja "a bater no fundo" e lamenta que o não haja sequer condições para cumprir compromissos assumidos, como o da reparação da fragata Vasco da Gama, "que já devia estar em manutenção", ou a construção da segunda lancha salva-vidas contratada para o Instituto de Socorros a Náufragos - a primeira ficou concluída no final de 2020 já com um atraso substancial em relação ao previsto. "Estamos de mãos atadas", sublinha.

Assinala que, neste momento "apenas está um dos submarinos a ser reparado, este também com muito atraso, e uma ou outra coisa pequena. Dizem que há dinheiro para isto, não há dinheiro para aquilo. As pessoas vivem angustiadas com o seu futuro".

Carlos Reis, o deputado do PSD membro efetivo da Comissão de Defesa Nacional, que tem acompanhado este dossier no parlamento, tem também "dificuldades em compreender o que se passa".

Destaca a "falta de informação facultada aos deputados", sublinhando, por exemplo, que "até hoje a nova administração nunca nos remeteu nenhum documento escrito que configurasse um plano estratégico para a empresa. Quer o ex-PCA, quer o Presidente da IDD - Portugal Defense só nos apresentaram ideias soltas".

"Ninguém ganha, atirando os problemas para baixo do tapete. O PSD quer ajudar a resolvê-los"

O deputado sente que há "um bloqueio claro, até procedimental, como se viu no chumbo para a audição do ex-PCA, em esclarecer o que se passa. Ninguém ganha, atirando os problemas para baixo do tapete. O PSD quer ajudar a resolvê-los".

Confrontado pelo DN com estas preocupações, o gabinete do ministro da Defesa remete para a IDD e a resposta é dada, celeremente, pelo seu Presidente: " A Arsenal, a IdD - Portugal Defense e as tutelas (Defesa e Finanças) têm vindo a trabalhar em soluções para que 2021 seja o ano de virar de página do estaleiro, designadamente soluções a curto prazo em termos de tesouraria e a médio longo prazo com um plano de investimentos. Há concertação na necessidade de virar a página da Arsenal para um estaleiro que cria valor, um estaleiro de excelência e do século XXI, mas orgulhoso do seu legado histórico e que valoriza a sua experiência única, sempre em parceira próxima com a Marinha, com quem existe harmonia de diagnóstico e construção conjunta de soluções".

Mário Capitão Ferreira alega ainda que a empresa Arsenal "nunca incumpriu um prazo legal de pagamento de salários" e que "em janeiro os vencimentos foram pagos na data usual da empresa". O que é contrariado por Rui Ferreirinha, uma vez que este membro do CT diz que os subsídios de Natal só foram pagos a 15 de dezembro, quando a data sempre foi a 20 de novembro.

Antes de 2009, quando o Arsenal se tornou uma sociedade anónima, havia mais de 1200 trabalhadore. Agora são 447.

Antes de 2009, quando o Arsenal se tornou uma sociedade anónima, havia mais de 1200 trabalhadores, entre quadros técnicos e operários. Neste momento, regista a CT, os recursos humanos estão reduzidos a 447 .

Contrariando a tendência de redução que continuou a verificar-se com a nova administração, Mário Capitão Ferreira, afirma que "como já apresentado publicamente na Assembleia da República e comunicado aos trabalhadores, não se prevê redução de recursos humanos, mas um reforço dos mesmos, nesta empresa detida a 100% pelo Estado".

Pela primeira vez na história, o CA do Arsenal do Alfeite não integrou nenhum oficial da Marinha.

José Fernandes era administrador executivo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova e já presidiu o organismo do Tribunal Constitucional que fazia o controlo dos financiamentos dos partidos políticos.

Em setembro passado, provocou já alguns momentos de tensão no estaleiro, quando chamou diretores, chefes de serviço e chefes de divisão, para propor um reajustamento de contratos que levaria a reduções salariais. Alguns pediram demissão, em protesto. Em causa estavam, em boa parte dos casos, quadros altamente experientes, militares e civis.

"Há uma missão, uma estratégia, uma equipa, um relacionamento natural com a Armada, abertura ao mundo", afirmou o Presidente da República na sua única visita ao estaleiro do Alfeite, em julho de 2017. Deixou uma "mensagem de confiança e esperança" no futuro deste histórico estaleiro e assinalou como "viragem histórica" o plano em curso na empresa.

Rui Ferreirinha diz que, em breve, chegará uma carta a Belém, num derradeiro apelo a Marcelo Rebelo de Sousa, para que interceda em defesa do investimento necessário à empresa para a sua sobrevivência.

Em declarações à TSF confidenciou que na sua cabeça ainda ecoam as palavras do Presidente: "Se estou aqui é porque existe futuro". A frase, da visita de 2017. Mas de acordo com este responsável pela Comissão de Trabalhadores do Arsenal do Alfeite, desde então foi "sempre a cair". E é por isso - por esse futuro - que vão pedir ajuda ao Presidente da República.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG