PS: escolher o caminho entre a geringonça e a maioria absoluta?

Com mais ou menos sinceridade, Costa puxou pela geringonça, falando da vitória à sua esquerda, para somar à sua. E diz que "quem define as condições de governação são os portugueses". Os caminhos dos socialistas até às legislativas. Já que os resultados são poucochinhos para a maioria absoluta.

A vitória clara do PS não será uma rampa imediata para uma maioria absoluta socialista. Na noite eleitoral, António Costa, sabendo disso, sacudiu a questão dos jornalistas sobre esse sonho com uma resposta politicamente correta: "O único sonho que temos é conseguirmos cumprir tudo o que prometemos aos portugueses."

O seu partido elegeu nove eurodeputados, com 1,1 milhões de votos no território nacional e uma percentagem de 33,41%. Ou seja, uma vitória. Cresceu um eurodeputado, 70,8 mil votos e quase dois pontos percentuais.

No entanto, no seu discurso de domingo, o secretário-geral socialista puxou pela geringonça, falando da vitória à sua esquerda, para somar à sua. E nem uma sondagem avançada pela RTP, que coloca o PS com 39% para as eleições legislativas - ainda longe da tal maioria absoluta, que se alcança aos 43% - fez com que o líder socialista se atirasse peara esse lado. "Quem define as condições de governação são os portugueses", justificou-se, atirando a decisão para o voto de 6 de outubro.

O antigo dirigente socialista Paulo Pedroso parece concordar, ao avaliar os resultados deste domingo europeu na sua página do Facebook, apontando que "o PS não cresce para uma hegemonia total sobre a esquerda". E completa: "Não há sinais de que os portugueses simpatizem com a ideia de o PS caminhar para uma maioria absoluta."

O politólogo António Costa Pinto considera difícil que os socialistas consigam chegar à maioria absoluta. "Os partidos dominantes do sistema, PS e PSD juntos, não ultrapassam os 50 e picos por cento", notou. São 55,33%, de acordo com os totais quase finais. Ou seja, os tempos não parecem estar para maiorias absolutas, pelo menos não para um partido só.

"A maioria absoluta afasta-se do PS, é um objetivo muito difícil", diz Costa Santos. Os socialistas vencerão as eleições, "salvo situações muito graves, fatores que não conseguimos ponderar", como um escândalo de corrupção, um "familygate" ou algo que corra mal nos incêndios. Até porque "os resultados da direita não fazem augurar nenhuma alternativa" gerada pelo PSD e CDS, considerou o professor do Instituto de Ciências Sociais.

Mais força à geringonça e adeus ao Bloco Central?

O socialista Francisco Seixas da Costa reconheceu, numa publicação no seu Facebook, que só "algo de inesperado na área do governo" ("nunca subestimemos a capacidade do PS para dar tiros nos pés"), recordando "fortes fogos de verão" pode retirar a vitória nas legislativas aos socialistas.

O embaixador notou que "o PS teve um bom resultado", mas deixou um aviso: "Não se pode dizer, contudo, que tenha sido um resultado excelente, porque denota que o partido começa a ter um teto que, mesmo em conjunturas bem favoráveis, o deixa longe de uma maioria absoluta. Mas, para quem lidera o governo, ainda que não tenha sido o partido mais votado nas últimas eleições legislativas, a noite de ontem garantiu um forte banho de legitimidade."

O bloco à esquerda será, portanto, para os próximos tempos, a opção mais forte para os socialistas. Também por isso, talvez, António Costa insistiu num discurso, que será mais ou menos sincero, de contar com a geringonça. "Não há razões para alterar aquilo que tem produzido bons resultados", garantiu. Aliás, recusa a ideia de que seja bom para a democracia uma grande coligação ao centro. Uma coligação entre socialistas e sociais-democratas, disse, "não seria saudável". "Seria um empobrecimento para a democracia retirar aos cidadãos a oportunidade de escolherem."

Seixas da Costa, no entanto, aponta um engulho para Costa. "É uma péssima notícia para o PS a subida do BE nesta eleição", apontando os números do Bloco como "responsáveis, em parte, pela 'travagem' da subida eleitoral do PS". E é no interior do partido que esses engulhos poderão ser maiores: "A ala esquerda socialista sabe isto bem e, agora mais do que nunca, vai ser tentada a mostrar as credenciais 'de esquerda' do partido, o que a fará contrapor-se aos 'possibilistas', que não são grandes fãs da geringonça e preferem manter intocável o cumprimento estrito dos compromissos financeiros bruxelenses." Ou seja, Costa terá de fazer a "quadratura do círculo", defendeu o embaixador.

Novos aliados ou novos inimigos?

De outro lado está, é sabido, Paulo Pedroso. Sublinhando que "a geringonça desbloqueou a alternância esquerda-direita" e, agora, "o PAN pode desbloquear as alternativas de governo ao centro, sem os partidos parlamentares da esquerda nem da direita". Notando que "não é um desejo" seu, Pedroso vê antes na votação do partido de André Silva uma "antecipação de um novo cenário possível na governabilidade do país".

O antigo ministro constata que "o PCP continua a ser penalizado eleitoralmente pela sua fidelidade à geringonça, um preço que o BE continua a não pagar". Já Seixas da Costa sublinha que isto, assim, é mau para Costa. "Ainda pior que a subida do BE é, para as contas do PS, a quebra do PCP. A geringonça, é sabido, tem fortes críticos no seio dos comunistas e o resultado por estes agora obtido fragiliza a aposta feita por Jerónimo de Sousa no apoio ao governo PS."

Se Costa "parece confiar bastante mais em Jerónimo de Sousa do que em Catarina Martins", argumenta, o PCP, "agora mais fraco", "fica também mais acossado, mais permeável ao radicalismo e, por isso, mais tentado a deitar mão, como arma política, das movimentações sindicais, que são a sua força de reserva". Para outubro, "um ainda pior resultado dos comunistas" será, segundo Seixas da Costa, "uma nova péssima notícia para António Costa" e, "de caminho, para a geringonça".

Costa Pinto sublinha que "a questão fundamental é a percentagem com que o PS vai ganhar as eleições" - e o peso que terão os outros partidos à esquerda para contrapor ao dos socialistas, para a repetição de uma geringonça, mesmo com outro nome.

Para o politólogo, "a recuperação do BE" é um "fator interessante" a ter em conta. Os bloquistas tinham tido "um resultado muito mau em 2014", mas agora "com a sua política moderada" e "um programa socialista de esquerda", o BE passa a ser "simultaneamente rival do PS e limitador do crescimento" dos socialistas. "Será um desafio colocar o BE na governação", concluiu Costa Pinto. António Costa, já o disse, remete essa decisão para os portugueses a 6 de outubro.

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