Os problemas da União Europeia não são os que pensamos que são

Acompanhamos a SummerCEmp, escola de verão da Comissão Europeia em Portugal

Dia 2 do SummerCEmp, escola de verão da Comissão Europeia em Portugal. Dia de discutir as ameaças reais e as ameaças imaginadas. A União vai andando de crise em crise, a ser sempre diagnosticada com doenças terminais. E, no entanto, aí está ela, prestes a começar uma nova legislatura europeia. Quais são os problemas que a União enfrenta, e quais não são?

Comecemos pelo início. Pedro Calado, Alto-Comissário para as Migrações, falou-nos sobre o problema da integração e da aceitação da diferença. As migrações são um bom exemplo de uma ameaça que ganhou estatuto de hipérbole. As imagens registadas durante algumas semanas de 2015 continuam a surgir nas nossas mentes quando falamos do tema, embora a migração esteja de regresso a níveis pré-2015. O problema existe e precisa de resolução, mas não conseguimos chegar a conclusões se temos perceções completamente distorcidas da realidade. O Alto-Comissário citou números: os portugueses acham que 21,6% dos habitantes do seu país são estrangeiros, quando na verdade são 4,1%. O cenário é igual em toda a Europa. É importante que se faça um debate diferente sobre este tema, e que seja um debate europeu, já que a realidade italiana é totalmente diferente da realidade lituana ou da realidade portuguesa. A abolição de fronteiras internas traz direitos que recorrentemente louvamos, mas traz também o dever de partilhar o fardo dos países que formam a fronteira externa da União.

As migrações são um caso interessante, mas a tecnologia e inteligência artificial não lhe ficam atrás. É um tema que tem surgido neste SummerCEmp, honrando a importância que tem. Se as migrações têm um destaque desmesuradamente maior do que aquele que os números apontam, a inteligência artificial está muito menos presente nas discussões políticas nacionais do que deveria. Dizia um orador que, se o século XX se definiu pela questão da relação do indivíduo com o Estado, o século XXI será o da relação do indivíduo com a tecnologia. Quanta da nossa privacidade estamos dispostos a entregar à tecnologia? Estaremos a refletir sobre o impacto da automação no mercado laboral? Nesta legislatura, em Portugal, houve debates no plenário da Assembleia da República sobre caça à raposa, mas não sobre inteligência artificial. Como em Portugal, assim se passa noutros países europeus. É uma questão que mudará radicalmente a forma como usufruímos de direitos e cumprimos deveres ou a forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mercado laboral. É preciso encarar-se o problema e falar dele. A perceção fica muito aquém da realidade.

São dois exemplos entre muitos. Há uma questão que se impõe: qual o papel da imprensa e da sociedade civil na modulação das perceções? Os extremos tomaram conta do espaço público, e os moderados vão a reboque dessa agenda. As propostas que se ouvem num mundo polarizado são de simplificação da realidade, o que obriga a alimentar as hipérboles e a evitar questões complexas. O populismo continuará a ser uma ameaça enquanto o apontarmos à exaustão como ameaça e enquanto aceitarmos os temas que ele nos traz. É preciso recentrar a agenda. É preciso coragem para descrever a realidade e criar soluções políticas inclusivas. À hora do lanche, houve lugar para um debate franco com o comissário europeu Julian King sobre segurança na União Europeia. King foi claro: a ameaça terrorista está controlada, tanto quanto possível em sociedades livres. Já não é um tema frágil da UE. Em relação à discussão sobre tecnologia e as redes sociais, King fez questão de elogiar o trabalho feito com as plataformas, que redundou num acordo - mas também reconheceu que, caso os resultados no final do ano fiquem aquém do esperado, será de esperar que a Comissão avance com legislação própria. Novamente, alternativas. É este o caminho para líderes, imprensa e sociedade civil. É esse o caminho que o SummerCEmp estará a percorrer até sexta-feira.

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