Assunção Cristas na Feira dos Carvalhos (Vila Nova de Gaia)

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Na estrada com... Assunção Cristas. A sombra permanente do "partido do táxi"

É contra o regresso do CDS-PP a uma dimensão de que já ninguém tem memória que Assunção Cristas se tem batido todos os dias. Nos contactos populares o tom da súplica vai-se acentuando.

Antes da notícia da morte de Freitas do Amaral, era assim que estava planeada, amanhã, o último dia da campanha de Assunção Cristas: depois de um pequeno-almoço engolido a correr no café Majestic (centro do Porto), 230 quilómetros a mata-cavalos até ao mercado da fruta das Caldas da Rainha (distrito de Leiria); a seguir, mais 130 quilómetros em alta velocidade, para um almoço no centro de Setúbal marcado para as 14.00.

A seguir, mais 50 quilómetros, em direção ao Chiado (Lisboa), para uma arruada marcada para as 18.30. A pé, Cristas e os seus apoiantes percorreriam a derradeira etapa desta campanha, até ao largo Adelino Amaro da Costa, em frente à sede nacional do partido, para o comício de encerramento, marcado para as 19.30.

[Por causa da morte de Freitas do Amaral o programa seria no entanto substancialmente alterado. Desapareceram três pontos da agenda: o pequeno-almoço no Majestic, a arruada no Chiado e o comício final junto à sede nacional do CDS.]

O CDS tem atualmente 18 deputados, eleitos em 2015 na coligação PàF (Portugal à Frente), com o PSD, pelos círculos de Lisboa (5), Porto (3), Viana do Castelo (1), Braga (2), Viseu (1), Leiria (1), Santarém (1), Aveiro (2), Setúbal (1), Faro (1)

Ao todo, seriam mais de 400 quilómetros num só dia - e quatro distritos percorridos (Porto, Leiria, Setúbal e Lisboa, por esta ordem). Os jornalistas que seguem a campanha desde o início do período oficial (domingo, 22 de setembro) já antecipam muito mais de quatro mil quilómetros percorridos, na contabilidade final. É uma anormalidade - mas não no CDS, diz quem conhece bem o histórico das campanhas centristas. Já com Paulo Portas - que deverá aparecer amanhã ao lado de Cristas - era assim. Como aconteceu muitas vezes com Portas, Cristas corre pela vida. Tantos quilómetros são, afinal, a medida de um certo desespero.

O CDS tem atualmente 18 deputados, eleitos em 2015 na coligação PàF (Portugal à Frente), com o PSD, pelos círculos de Lisboa (5), Porto (3), Viana do Castelo (1), Braga (2), Viseu (1), Leiria (1), Santarém (1), Aveiro (2), Setúbal (1), Faro (1). Foram estes, exatamente, sem tirar nem pôr, os distritos percorridos durante o período oficial de campanha. Todos os outros - os do Alentejo, por exemplo - foram-no antes. João Gonçalves Pereira, deputado eleito por Lisboa, é quem dirige a campanha. E explica ao DN como a volta da líder foi organizada: a direção nacional decidiu por onde tinha de passar; e as distritais depois preencheram cada deslocação a cada distrito com iniciativas.

O que a direção teme é nada menos do que um desastre, desaparecendo a representação centrista em, por exemplo, círculos como Santarém, Faro, Aveiro ou Leiria (círculo por onde Assunção Cristas foi eleita em 2015). Teme-se que no Porto o número dois da lista, o líder da Juventude Popular, Francisco Rodrigues dos Santos - "Chicão", para os amigos - não consiga ser eleito.

Alegando cansaço, há muito que Nuno Magalhães, líder parlamentar da bancada há oito anos, tinha anunciado que não tenciona na próxima legislatura manter-se no cargo, dando o lugar a outro (ou outra). Uma decisão sábia: é possível que não consiga ser eleito pelo seu círculo de sempre, Setúbal.

O fantasma chama-se assim "partido do táxi" (quando o partido, no tempo do cavaquismo, se viu reduzido a quatro deputados). Assunção Cristas tenta - e consegue - chegar aos contactos populares com um sorriso nos lábios e um semblante confiante. Mas há nas suas palavras, permanentemente, um tom de quase suplica que revela bem quão longe o CDS está hoje do triunfalismo dos dias após as últimas autárquicas, quando o partido, em Lisboa, com Cristas como candidata, ultrapassou o PSD. Disso não há sombra. A líder já não diz que quer ser primeira-ministra. O discurso, em termos de objetivos eleitorais, reduziu-se aquilo que não pode deixar de ser dito: "Tirar a maioria às esquerdas" e "reforçar o grupo parlamentar".

Os especialistas dizem que das Europeias (com Nuno Melo) à frente da lista para as Legislativas (com Cristas) a principal diferença política foram...os bombos. Melo, pelos vistos, gostava da barulheira dos bombos sempre a acompanhar as suas passeatas de rua - coisas talvez resultante de ser minhoto.

Mas Cristas mandou acabar com a coisa. Queria uma campanha suave, onde pudesse ir falando com as pessoas, sem perturbações sonoras em redor - e assim se fez, para desgosto da dúzia de "jotas" que a acompanharam pelo país.

O DN seguiu um dia de campanha da líder do CDS-PP, quarta-feira, no distrito do Porto. Um dia que corria assim-assim até que começou a correr mal, para acabar mesmo muito mal. No final de uma arruada na rua de Santa Catarina (centro do Porto) enfrentou a fúria de uma eleitora ainda bem recordada os cortes nas pensões feitos pelo governo Passos-Portas (2011-2015) que Cristas integrou como ministra. Ao mesmo tempo, viu Rui Moreira (o independente que preside à câmara do Porto) desmentir categoricamente qualquer intenção de apoiar o CDS (que assim não viu o retorno de ter apoiado Moreira nas últimas autárquicas).

A técnica de Cristas para o contacto pessoal com os eleitores inclui sempre, logo a abrir, dois beijinhos, sejam homens ou mulheres. E depois uma mão no ombro do interlocutor, como se tivesse todo o tempo do mundo. Está a correr mas não quer parecer que está a correr. Às vezes os "jotas" que acompanham cantam slogans ("Portugal merece / um governo CDS") e agitam as bandeiras azuis e brancas do partido, dando um pequeno tom de festa à campanha.

Na Feira dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia, foi ouvindo queixas várias, sobretudo de mulheres, por causa de pensões baixas ou, num caso, de uma senhora, por causa de um caso relacionado com o problema dos antigos combatentes (uma causa histórica do CDS, sobretudo desde Paulo Portas foi ministro da Defesa).

Tancos, como se fosse uma boia de salvação

Assunção Cristas aproveita as queixas para ir explicando o essencial do CDS, insistindo muito na ideia de baixa de impostos (tanto IRC como IRS). Mas, ao mesmo tempo - e de forma às vezes quase suplicante - explica a importância do voto no seu partido. "Precisamos dos votos todos", "dê-me força", "sem o CDS não se tira a maioria às esquerdas", "sem votos depois lá na Assembleia não conseguimos nada" - e tudo isto dito de mil e uma formas diferentes mas indo sempre dar ao mesmo: esta é a batalha da sua vida e, se perder, depois disto nada será como dantes para o CDS.

A direção do CDS-PP teme os efeitos de uma certa bipolarização entre o PS e o PSD

E depois houve Tancos. O "caso" voltou às primeiras páginas dos jornais no início do período oficial de campanha e o CDS-PP agarrou-se a ele como se fosse uma boia de salvação. O facto de o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes ter passado de arguido a acusado serviu às mil maravilhas a Assunção Cristas para passar a ideia de que, afinal, havia quem no Governo quem soubesse da suposta encenação montada com os assaltantes tendo em vista o "achamento" das armas.

Aqui sucederam-se as iniciativas: o pedido de uma reunião da comissão permanente da AR; o pedido de uma segunda comissão parlamentar de inquérito a Tancos (que será formalizado no início da próxima legislatura); o pedido a Ferro Rodrigues para que envie ao Ministério Público declarações feitas na AR por Azeredo e por Costa que podem sustentar uma ideia de perjúrio destes perante os deputados. O que ninguém na direção do partido sabe é se isto terá alguma influência no resultado final.

Não houve dia em que Cristas não falasse do assunto - e foi esse o tema que, nas últimas duas semanas, lhe permitiu ter um tema diferenciador que desse eco à sua sua campanha. Mas o PSD fez o mesmo e o crescimento eleitoral de Rio, iniciado nos debates e confirmado nas sondagens, só fez a direção centrista temer ainda mais os danos que sofrerá resultantes de uma certa bipolarização na campanha entre o PS e os sociais-democratas.

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