Jerónimo encerra Festa do Avante! com ataque a Marcelo

A Festa do Avante! deste ano foi diferente de todas as outras mas terminou como habitualmente: com o líder do PCP a atacar todas as forças à sua direita - Presidente da República incluído

Jerónimo de Sousa fechou hoje a 44ª edição da Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia (Amora, Seixal) com um discurso onde se manifestou descrente nas promessas do PS de não fazer alinhamentos com o PSD.

O líder comunista disse mesmo que há "um processo de rearrumação de forças posto em marcha" e fez questão de inserir nesse "esforço" o Presidente da República.

"De pouco valem declarações do PS de que não quer nada com o PSD se as opções que vier a adotar forem, mais coisa menos coisa, aquelas que o PSD adotaria, sem romper com orientações e compromissos que têm sustentado a política de direita", disse.

Acrescentando: "Tanto mais quando se continuam a registar em matérias relevantes convergências entre os dois partidos, parte de um processo de rearrumação de forças posto em marcha, e em que o atual Presidente da República se insere, para branquear o PSD visando a sua reabilitação política e a cooperação mais intensa com o PS, indispensáveis à política de direita."

"Queriam calar-nos. Não o conseguiram! Sim, fizemos a Festa, cumprindo as normas sanitárias, porque a sua realização é, antes de mais, uma forma de assegurar a defesa e funcionamento da vida democrática na sua plenitude e isso contraria os seus desejos."

Jerónimo de Sousa abriu o seu discurso saudando a própria capacidade dos comunistas de fazerem a Festa, apesar de enfrentarem um "quadro de inusitada hostilidade dos grandes interesses económicos e das forças mais reacionárias e conservadoras", hostilidade essa movida, no seu entender, por "poderosos recursos mediáticos e de intoxicação da opinião pública".

"Queriam calar-nos. Não o conseguiram! Sim, fizemos a Festa, cumprindo as normas sanitárias, porque a sua realização é, antes de mais, uma forma de assegurar a defesa e funcionamento da vida democrática na sua plenitude e isso contraria os seus desejos", afirmou.

Ou, dito de outra forma: "Conseguimos resgatar a alegria de viver!"

Recado a Costa

Mais adiante acrescentaria que o PCP é um partido que "em momento algum se deixou intimidar, por maiores que fossem os perigos, adversidades, ameaças ou perseguições".

Este é um partido - disse - "a quem declararam já mil vezes a sua morte e que mil vezes surgiu renovado, determinado e convicto encabeçando a luta dos trabalhadores e do povo".

Mais adiante, aproveitaria para deixar um recado direto a António Costa: "Não vale a pena uns virem agitar com ameaças de crise política."

Mas ao mesmo tempo também deixou claro que o PCP não afasta à partida a necessidade de compromissos: "Não vale a pena apressarem-se, outros, a sentenciar que o PCP não conta, que está de fora das soluções de que o país precisa".

Jerónimo expôs também a agenda imediata do partido para o início do novo ano parlamentar:

- Aumento do Salário Mínimo Nacional para 850 euros (atualmente está nos 635 euros);

- Criação de um suplemento remuneratório para os trabalhadores dos serviços essenciais e permanentes (subsídio de insalubridade, penosidade e risco);

- Compensação remuneratória e reconhecimento da proteção social dos trabalhadores por turnos e do trabalho noturno;

- Alargamento do acesso ao subsídio de desemprego e o reforço dos seus montantes e duração.

- Eliminação dos cortes salariais associados ao lay-off;

- Proibição dos despedimentos de todos os que veem ameaçado o seu emprego e não apenas nas empresas com lucros;

- Revogar as normas da legislação laboral eliminando a caducidade da contratação coletiva e repondo o princípio do tratamento mais favorável.

- Aproveitar os próximos fundos comunitários para a criação de uma rede pública de lares de idosos.

O líder comunista procurou também, insistentemente, fazer passar a mensagem de que os portugueses não se podem deixar limitar nos seus direitos pelas consequências da pandemia.

"Continuando a viver com alegria e esperança a nossa vida familiar, social e cultural, encontraremos as forças para prosseguirmos na senda de um mundo melhor e mais justo."

"Os comunistas tudo fizeram e tudo fazem para ajudar a resolver os problemas do País dos trabalhadores e do povo" e "tudo farão na luta geral que se trava contra a covid-19", assegurou.

Porém, "não cederão ao medo real ou instilado através do pânico orquestrado que visa isolar as pessoas, quebrar solidariedades de classe e sociais, para que os trabalhadores aceitem docilmente fazer sacrifícios, abdicar ou aceitar a limitação dos seus direitos e condições de trabalho e de vida e até da sua liberdade".

"Resistir ao discurso do medo"

"Continuando a viver com alegria e esperança a nossa vida familiar, social e cultural, encontraremos as forças para prosseguirmos na senda de um mundo melhor e mais justo", insistiu.

Mas avisando ao mesmo tempo: "A prossecução deste caminho será possível se o povo, em particular os trabalhadores, não se deixarem remeter ao 'confinamento' em que alguns querem encerrar as suas reivindicações e as suas lutas."

"Os tempos são duros e reclamam uma determinação para resistir ao discurso do medo e de que não há alternativa", insistiu ainda, afirmando, por exemplo, que esse discurso passa por "introduzir novas linhas de exploração, por exemplo na situação de teletrabalho" ou pelo "prolongamento de aulas virtuais".

Congresso: "Os caminhos de futuro"

Sem perder muito tempo, Jerónimo passou pelos próximos desafios eleitorais - e, como se esperava, sem dar a mínima pista sobre quem poderá ser o candidato presidencial do partido: "Aí está a nossa determinação na batalha das eleições para Presidente da República com uma candidatura que assume os direitos dos trabalhadores, os valores de Abril e o compromisso do projeto que a Constituição da República Portuguesa consagra mas que está muito longe de ser cumprido". Também fez uma referência às eleições regionais açorianas (marcadas para 25 de outubro), onde importa "defender os interesses dos trabalhadores e do povo dessa Região Autónoma."

Do próximo congresso do PCP (novembro) também não disse muito, exceto o óbvio: servirá para apontar "os caminhos do futuro", com as respetivas "orientações e medidas para responder à situação". E isto será feito pela reafirmação da "identidade comunista", da "natureza de classe" do partido, e "usando os instrumentos que Marx e Engels criaram, a experiência legada por Lenine e a elaboração colectiva do PCP com o singular contributo de Álvaro Cunhal".

A 44ª edição da Festa do Avante! foi marcada por intensa polémica em torno da sua realização. PSD e CDS criticaram fortemente os comunistas por avançar com o evento, tendo em conta a pandemia de covid-19.

Internamente, a decisão de realizar ou não o evento foi intensamente discutida, tendo sido a decisão final tomada numa reunião do Comité Central em 16 de maio.

Os comunistas reduziram a lotação máxima de pessoas em simultâneo no espaço da Quinta da Atalaia - um espaço com a dimensão de trinta campos de futebol - de cem mil pessoas para 33 mil. Mas, por imposição da DGS, foram forçados a limitar ainda mais essa lotação, para 16,5 mil pessoas.

"Aquilo que posso adiantar é que, em qualquer circunstância, o meu partido pode sempre contar comigo até eu poder."

No discurso que fez a abrir a Festa, sexta-feira, Jerónimo de Sousa explicou os ataques de que o PCP foi alvo com o "temor" que o partido suscita: "Querem-nos quietos, confinados, calados e com temor, porque sabem o que aí vem. Querem que abdiquemos do que a vida tem de mais belo e realizador, libertos dos nossos medos, reencontrar o convívio e as amizades, a cultura, os concertos de diversos estilos de música."

No sábado, desafiou o Presidente da República a visitar o evento. "Talvez queira dar uma mãozinha ao seu partido, que tem encabeçado esta campanha violenta contra a Festa do 'Avante!'. Não vou aqui abrir nenhuma guerra, mas gostaríamos de ver o Presidente a ver com os seus olhos e tirar as conclusões desta realidade que é a Festa do 'Avante!'", afirmou Jerónimo de Sousa.

"Aquilo que posso adiantar é que, em qualquer circunstância, o meu partido pode sempre contar comigo até eu poder."

Esta foi, para Jerónimo de Sousa, a 16ª edição da Festa do Avante! sendo líder do PCP - e não se sabe se será a última (para novembro está marcado um congresso eletivo). Falando aos jornalistas, sábado, tentou desdramatizar o assunto.

"Tem de haver decisões coletivas, opinião pessoal. Não tenha pressa que isto não será um problema no próximo congresso", afirmou Jerónimo. Prosseguindo: "Aquilo que posso adiantar é que, em qualquer circunstância, o meu partido pode sempre contar comigo até eu poder."

Mais Notícias