Marcelo anuncia fim das reuniões com o Infarmed e partidos criticam

Na última reunião que se realizou no Infarmed, o Presidente da República afirmou que os especialistas atribuem a situação da pandemia na região de Lisboa e Vale do Tejo à coabitação, as condições sócio-económicas e laborais. Partidos criticam fim dos encontros com os especialistas.

O Presidente da República garantiu esta quarta-feira, após aquela que será a última reunião com especialistas no Infarmed, que há uma "estabilização" das infeções por covid-19 em todo o país e também na região de Lisboa e Vale do Tejo, a mais afetada neste momento pela pandemia. Desta vez, Marcelo Rebelo de Sousa trazia do encontro uma explicação para o aumento de número de casos na Área Metropolitana de Lisboa, em que a "coabitação" surge à cabeça, seguida da convivência social.

O Presidente afirmou que há um estudo que mostra que parece demonstrar que os transportes ferroviários, que servem grande número dos concelhos com vários surtos, não é fator determinante para a disseminação da pandemia. Marcelo frisou que há "uma tendência de descida" dos casos de covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, a que atribuiu "provavelmente" às "medidas tomadas",

Anunciando um estudo epidemiológico sobre as situações económico sociais e as atividades nas vária regiões, Marcelo disse que é já possível perceber que o panorama é muito diferente nas regiões do Porto e de Lisboa, o que explicará a disseminação do novo coronavírus nesta fase de desconfinamento. Enquanto na primeira, as atividades se centram mais na restauração e na indústria; a segunda gira mais em torno do comércio e da circulação. "Na situação de Lisboa e Vale do Tejo pesa a inserção de comunidades não nacionais e as suas especificidades nas condições socioeconómicas", disse também o Chefe de Estado.

Marcelo manteve a ideia que há capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde para o número de casos e garantiu que houve reforço de equipas no terreno na região de Lisboa e Vale do Tejo. Anunciou ainda que o primeiro estudo sobre a eventual imunização daqueles que têm tido contacto com o covid-19 estará pronto no final de julho e depois seguir-se-á novos estudos de cinco em cinco meses.

O Presidente deu ainda por encerrado o primeiro modelo para lidar com a pandemia. "É o fim de um ciclo. Este é um modelo que tem de ser ajustado", disse. Ou seja, Portugal vai evoluir para um modelo macro para micro, que incidirá mais sobre os concelhos, as freguesias ou até os bairros.

Esta transição de modelo, justifica o fim dos encontros dos principais responsáveis políticos, partidos e parceiros sociais com especialistas no Infarmed,. Mas Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de elogiar as 10 reuniões que aconteceram desde março, depois de Rui Rio ter feito críticas à sua continuação.

O presidente do PSD considerou a semana passada que as "reuniões do Infarmed começam a ter pouca utilidade", e defende que estes encontros com especialistas devem apresentar uma "fotografia muito objetiva e curta" da evolução da pandemia, e dar "conselhos técnicos".

Rui Rio assumiu esta posição em entrevista no programa Gente que Conta, do Porto Canal . "As primeiras reuniões, particularmente as primeiras duas reuniões no Infarmed, foram reuniões relevantes na exata medida em que nós todos sabíamos muito pouco de epidemias, de pandemias, disto e aquilo. Foi a explicação da situação, e foram extraordinariamente úteis para quem a elas assistiu", afirmou.

Mas o líder social-democrata considerou que, depois, "começou a ser um pouco mais do mesmo" e concretizou: "há momentos em que são uns gráficos atrás dos outros, com tanta velocidade, que as pessoas que estão a assistir não têm sequer tempo para absorver mesmo aquilo que o gráfico está a mostrar" e "muitas vezes [a apresentação técnica] não tem o encadeamento mais lógico".

"Eu devo confessar que as últimas reuniões do Infarmed começam a ter pouca utilidade", salientou Rio, considerando que "na segunda parte, quando se dá a voz às pessoas para fazerem perguntas, então aí a utilidade ainda é menor".

Mas o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, veio mediatamente contrariar Rio, ao considerar que as reuniões obre a pandemia de Covid-19 "são muito importantes" e manifestou "estranheza" por alguns partidos "quererem prescindir delas".

"Falhar em Lisboa é falhar no país", diz PSD

No final da reunião, o deputado do BE José Manuel Pureza começou por sublinhar "a importância que estas reuniões tiveram na consolidação do conhecimento", considerando que esta "é a única forma de combater o eventual desânimo e o eventual alarme que possa aparecer".

"Aceitando que estas reuniões tenham hoje chegado ao fim de um ciclo, o Bloco de Esquerda entende que é muito importante que no parlamento se continue a fiscalizar de forma muito rigorosa toda a evolução quer da pandemia quer das políticas adotadas", defendeu.

Por outro lado, de acordo com José Manuel Pureza, "o país não compreende e não aceita que alguma inconsistência dos dados sobre casos reportados se deva a laboratórios privados". "O Bloco de Esquerda entende que são necessárias instruções, regras vinculativas dos operadores privados, por parte do Governo, para que a consistência dos dados seja um fator de segurança de todas as pessoas", defendeu.

Segundo o deputado bloquista, hoje a realidade passa por "dados que estão razoavelmente estabilizados no que diz respeito ao número de infetados, internamentos e óbitos", mas referiu a menção na reunião sobre a "importância de determinantes económicas e sociais da doença". "Eu quero chamar a atenção para o que foi sublinhado nesta reunião a propósito da importância dos movimentos pendulares, da superlotação do alojamento e também da falta de alternativas para muita gente que não tem outra hipótese senão vir trabalhar para poder sobreviver", apontou.

José Manuel Pureza insistiu assim na ideia de que esta realidade "exige evidentemente uma intervenção que vai além da saúde em sentido estrito e precisamos de medidas que sejam medidas de alcance socioeconómico porque elas combatem eficazmente a pandemia".

O PSD advertiu que, se falhar o combate à covid-19 na região de Lisboa, todo o país sofrerá também consequências negativas, e recomendou prudência perante a "aparente" estabilização do número de novos casos de infeção.

Ricardo Batista Leite começou por referir que o presidente do PSD, Rui Rio, participou na reunião por videoconferência e falou a seguir nas dificuldades que se estão a colocar ao setor do turismo, em particular no Algarve.

"Se falharmos na resposta de Lisboa, estaremos a falhar ao país. Quando olhamos para o número de surtos fora da região de Lisboa, percebemos que neste momento são 48, quando há duas semanas eram apenas 12", advertiu. Neste contexto, o deputado do PSD apontou que se regista um aumento do número de internamentos e da mortalidade.

"O que vimos de mais positivo da reunião foi uma aparente estabilização dos números na região de Lisboa - uma estabilização que os especialistas alertam que apenas ocorreu nos últimos dias, razão pela qual se impõe prudência. Onde não se verifica uma inversão é, de facto, no concelho de Sintra, onde há uma estabilização em vez de uma descida", destacou.

No caso do concelho de Lisboa, Ricardo Batista Leite falou "num aumento do número de casos" da covid-19, "apesar da tendência aparente de decréscimo depois de declarado o estado de calamidade em Loures, Odivelas e Amadora".

"Também de verifica um aumento da procura de consultas de cuidados de saúde primários por causa da covid-19. Portanto, estamos perante um conjunto de indicadores que nos dizem que temos de estar muito atentos e com uma ação muito dirigida", defendeu.

O vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD considerou depois positivos os elementos relativamente à identificação das pessoas infetadas e suspeitas.

"Atualmente, todos os inquéritos epidemiológicos são feitos em 24 horas. Isso é determinante para que se consiga controlar a epidemia, garantir que as pessoas infetadas e as que estiveram em contacto com elas sejam isoladas. Deram-nos garantias de que o isolamento está a ser feito, embora haja relatos de quem nem sempre isso está a funcionar de forma adequada", acrescentou.

PCP, PEV, IL CDS e Chega querem mais reuniões

PCP e PEV destacaram uma "tendência de estabilização" da evolução da pandemia e lamentaram o fim das reuniões com epidemiologistas, destacando a sua importância para a tomada de decisão política.

Jorge Pires, da comissão política do PCP, admitiu que a decisão tenha tido por base a opinião do presidente do PSD, Rui Rio, que na semana passada considerou que aquelas sessões começavam a "ter pouca utilidade".

Saudando os técnicos e especialistas que "prestaram um grande serviço" ao longo destes meses, o dirigente comunista contrapôs que as reuniões "tiveram uma importância extraordinária", frisando que "o conhecimento científico é fundamental" para a tomada de decisão política e afirmou esperar que possam regressar.

"É importante retomar mesmo que seja mais à frente, se não for assim só ficamos com informação que nos é dada na Assembleia da República ou pela comunicação social com todos os inconvenientes que isso traz", considerou.

No mesmo sentido, Dulce Arrojado, do PEV, sublinhou a "importância das reuniões" que, defendeu, "deviam continuar" para que seja possível aos responsáveis políticos tomar as decisões com base nos dados técnicos e sistemáticos.

Sobre os dados que hoje foram transmitidos no Infarmed, Dulce Arrojado, tal como Jorge Pires, disse que se verifica uma tendência de estabilização dos casos e frisou que o atual momento exige que não se baixe a guarda, advertindo que nos locais de trabalho devem ser asseguradas todas as condições de higiene e segurança.

O dirigente comunista refutou por seu lado a "diabolização da estrutura de saúde pública" por parte de pessoas "com responsabilidades partidárias", frisando que a situação daquela estrutura, considerada "há muitos anos o parente pobre do Serviço Nacional de Saúde", não é de agora.

Jorge Pires desafiou os mesmos responsáveis partidários a aprovar, no parlamento, propostas do PCP para o reforço daquela estrutura, declarando que "não basta vir dizer mal" e depois votar contra medidas concretas.

Quanto à situação de Lisboa e Vale do Tejo, Jorge Pires frisou que os dados demonstram que "é abusivo" dizer que "há um problema" em toda a Área Metropolitana de Lisboa, considerando que "o problema está concentrado em cinco dos 50 concelhos" e que "mesmo assim há uma tendência de estabilização".

A Iniciativa Liberal (IL) lamentou tambémo fim das reuniões com epidemiologistas realizadas no Infarmed, alertando que a situação "ainda não está controlada" e criticando a "atuação demorada" do governo na gestão da pandemia.

Carla Castro, da comissão executiva da Iniciativa Liberal frisou: "Para nós, é também bastante lamentável que as reuniões terminem. Nós apontámos diversas falhas na forma da reunião, na eficiência da organização. O objetivo devia ser melhorar as falhas, nunca terminar com estas reuniões, porque estas reuniões cumpriram e cumprem ainda um papel bastante diversificado".

A dirigente salientou que a situação epidemiológica do país ainda "não está solucionada", que o governo e as autoridades de saúde não podem isolar o facto de este ainda ser "um grande período de incerteza" e que as reuniões tinham ainda um importante papel de escrutínio do trabalho realizado na gestão da pandemia. "É com bastante pesar que vemos o fim destas reuniões e que ficamos com alguma expectativa de que possam no futuro ser retomadas", adiantou ainda Carla Castro.

Carla Castro deixou críticas à atuação demorada do governo na gestão da doença no país, acusando-o de procurar culpados ao invés de assumir responsabilidades. "[O governo] continua a encontrar inimigos externos: foram dados, cientistas, técnicos, jovens, quem vivia nas periferias, depois países e temos estado a assistir a esta procura de culpados quando nós gostaríamos muito mais de ver, quer o governo, quer as autoridades, preocupados em encontrar soluções e a agir convenientemente", criticou.

A IL alertou para a preparação conveniente do período de outono/inverno: "além da covid o outono e o inverno não são surpresa e nós vamos ter que nos preparar, as autoridades vão ter que se preparar - desta vez não vai haver surpresas".

Por fim, Carla Castro destacou as dificuldades sentidas ao nível da saúde pública, na recuperação de consultas e cirurgias, destacando o tema da saúde mental que, segundo dados adiantados na reunião e citados pela dirigente, afeta maioritariamente jovens entre os 16 e os 25 anos.

CDS-PP e Chega criticaram igualmente o fim das reuniões com especialistas no Infarmed, tendo os centristas alertado que a crise de saúde pública ainda "não acabou", e André Ventura dito que não informado oficialmente.

O vice-presidente do CDS-PP António Carlos Monteiro destacou a importância destes encontros pela partilha de "informação em primeira mão" e por permitir aos partidos tirarem dúvidas junto dos técnicos.

"Lamentamos que estejam a acabar com as reuniões numa altura em que a crise de saúde pública não acabou", afirmou o centrista, advogando que "foram fundamentais para construir uma unidade em torno do combate a esta doença".

O dirigente do CDS considerou também que esta decisão pode ser justificada pelo facto de, numa destas reuniões, "os especialistas terem contrariado as teses do senhor primeiro-ministro e, aliás, uma dessas especialistas já nem esteve nesta reunião" e pelas palavras do presidente do PSD, que disse que estas reuniões "começam a ter pouca utilidade".

António Carlos Monteiro defendeu que "não é com menos informação que o problema se resolve, muito menos quando essa informação foi dada e contrariou aquilo que eram as teses que estavam a ser defendidas por alguns políticos". O democrata-cristão deixou ainda um apelo para que a informação sobre a evolução da covid-19 "continue a ser fornecida aos partidos" e para que "seja ponderada no futuro a reativação" destas reuniões.

Também o líder demissionário do Chega apontou que "é de estranhar que, poucos dias depois de o presidente do PSD ter referido que estas reuniões estavam a ter cada vez menos importância, o Governo tenha decidido, também ele, terminar com estas reuniões e, aparentemente, sob a passividade enorme do Presidente da República".

"Não foi inocente nada disto que aconteceu", atirou André Ventura, falando num "alinhamento estruturado" para "controlar a informação, a gestão e a divulgação do que se passa sobre esta pandemia".

O dirigente disse não ter sido informado de forma "oficial" que esta tinha sido a última destas reuniões, e que soube quando se apercebeu de que não tinha sido marcada a próxima reunião, como era habitual, e quando ouviu o Presidente da República falar aos jornalistas à saída.

Sobre a evolução da pandemia, o CDS assinalou que "não existe nenhum milagre português", uma vez que, "em número de contágios por milhão de habitantes", Portugal "fica apenas atrás da Suécia" em termos europeus, país "que não fez qualquer confinamento".

Por isso, António Carlos Monteiro considerou que o problema "é muito sério, porque os portugueses pagaram o preço do confinamento em falências e desemprego" mas "não houve o efeito desejado" ao nível do combate à pandemia, falando em "frustração".

O dirigente alertou ainda para as dificuldades do setor do turismo quando Portugal foi colocado "na lista negra", pedindo ao Governo que tome "medidas para acompanhar este setor".

Também o Chega considerou preocupante a situação em Lisboa onde se verifica "um aumento progressivo dos contágios em todas as idades e um aumento das incidências em lares" e destacou que no Algarve o contágio social "está a aumentar de forma significativa", o que "pode ser letal" para os interesses daquela região.

Com Lusa

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