Legislativas: PSD e CDS limpam armas, PS quer pensar verde

Os resultados nas europeias foram o tiro de partida para as legislativas de outubro. Os partidos perdedores, PSD e CDS, estão já a limpar as armas e a afinar a estratégia. O PS começou a apontar a mira ao eleitorado do PAN e quer pensar verde.

Os partidos estão a acelerar para as eleições legislativas. CDS e PS reuniram esta quinta-feira à noite os seus órgãos nacionais e ficou claro que os resultados das europeias vão determinar o rumo até outubro. A líder do CDS, que sofreu pesada derrota, pediu a união do partido, mas ouviu críticas e está sujeita a pressão interna. Os socialistas ainda sonham com uma eventual maioria absoluta e há já quem peça, no caso João Cravinho, que é preciso olhar para a "agenda verde", que é a de outro vencedor de 26 de maio, o PAN. Rui Rio avisou os "desleais" do PSD que não conta com eles.

O PSD ainda não reuniu o Conselho Nacional do partido para analisar os resultados eleitorais, e nem o deverá fazer em breve, mas o líder deu sinais do que quer fazer após um mau resultado nas europeias, depois da Comissão Política Nacional ter aprovado os critérios para integrar a lista de deputados. Rui Rio admitiu publicamente que fará ajustamento na comunicação e avisou que os "desleais" ficarão mesmo fora das listas às legislativas.

Segundo a imprensa que esteve presente esta quinta-feira no Legislators Dialogue, na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Rio admitiu que há "ajustamentos" a fazer, mas recusou a mudar o que sempre tem defendido. Recusa-se a vender as propostas como um "produto" e procurar que os eleitores entendam as propostas do PSD. Sobre o resultado de outubro, Rio acredita que "está tudo em aberto", o que não quer dizer que o PSD "vai ganhar de largo" e admite que "até pode piorar".

Assunção, pressionada, pede unidade

A líder centrista, que saiu das eleições fragilizada, esteve sob pressão esta quinta-feira no Conselho Nacional do partido e fez um apelo à unidade para as legislativas.

Assunção Cristas fez a intervenção de abertura na reunião, na sede nacional do partido, em Lisboa, a primeira desde as europeias de domingo, em que o CDS ficou em quinto lugar, elegeu um eurodeputado e falhou o objetivo de eleger um segundo representante no Parlamento Europeu.

De acordo com dirigentes presentes na reunião, a líder centrista fez um discurso à unidade interna no partido para as eleições legislativas, marcadas para 06 de outubro.

Uma primeira consequência das eleições surgiu no mesmo dia com a notícia da demissão do presidente da comissão política do CDS de Ovar por discordar da manutenção de Assunção Cristas na liderança do partido após o resultado nas eleições europeias.

O resultado nas europeias levou dirigentes como Filipe Lobo d'Ávila, do grupo "Juntos pelo Futuro" e que apresentou uma lista ao Conselho Nacional no último congresso do partido, e Abel Matos Santos, da Tendência Esperança e Movimento (TEM), a criticar a estratégia seguida pela direção.

À Lusa, na segunda-feira, dia seguinte às eleições, Lobo d'Ávila disse mesmo estar em choque com o resultado, mas não pôs em causa a liderança de Assunção Cristas, e é hoje um dos dirigentes presentes no Conselho Nacional que ainda decorria cerca das 23:00.

O PS venceu as eleições para o Parlamento Europeu de domingo, com 33,38%, elegendo nove dos 21 deputados, 11 pontos percentuais à frente do PSD, (21,9% e seis eurodeputados), seguindo-se o Bloco de Esquerda com 9,8% e a CDU com 6,8%, ambos com dois eleitos.

O CDS ficou em quinto lugar, reelegeu Nuno Melo, com 6,2% dos votos, à frente do PAN, com 5,08%, que pela primeira vez terá um deputado no Parlamento Europeu.

Cristas "sem margem de erro"

De acordo com relatos feitos à Lusa por dirigentes presentes na reunião, Lobo d'Ávila alertou que Cristas "não tem margem de erro" nas legislativas e fez uma análise do que correu mal nas europeias em que o partido falhou o objetivo de ter dois deputados em Estrasburgo, ficando-se pela eleição de Nuno Melo, o cabeça de lista.

Para o antigo secretário de Estado, a culpa pelos resultados de domingo não foi dos candidatos e, tal como já tinha afirmado na segunda-feira à Lusa, apontou erros na gestão do 'dossier' dos professores, em que a bancada alinhou, num primeiro momento, com a esquerda no parlamento na contabilização do tempo de carreira.

Apontou a "gestão desastrosa" neste 'dossier', e afirmou que Cristas e a sua direção alegadamente caíram "na armadilha" do primeiro-ministro, António Costa, que definiu as europeias como uma moção de confiança ao Governo.

Ainda segundo os mesmos relatos, o CDS quis censurar o Governo e acabou "chamuscado" pela própria censura, segundo Lobo d'Ávila, que, com o grupo "Juntos pelo Futuro", apresentou uma lista ao conselho nacional no último congresso.

Internamente, o conselheiro nacional também criticou a direção pela forma como escolheu os candidatos a deputados, por dividir o partido, e admitiu candidatar-se em último da lista do partido em Lisboa se a direção repensar a "imposição" de nomes como candidatos.

Filipe Lobo d'Ávila afirmou ainda sentir dificuldade em identificar as causas e propostas do partido, que levam os eleitores a optar pelos centristas no momento das eleições.

O PS venceu as eleições para o Parlamento Europeu de domingo, com 33,38%, elegendo nove dos 21 deputados, 11 pontos percentuais à frente do PSD, (21,9% e seis eurodeputados), seguindo-se o Bloco de Esquerda com 9,8% e a CDU com 6,8%, ambos com dois eleitos.

O CDS ficou em quinto lugar, reelegeu Nuno Melo, com 6,2% dos votos, à frente do PAN, com 5,08%, que pela primeira vez terá um deputado no Parlamento Europeu.

PS a pensar "verde"... como o PAN

Os socialistas, que ainda saboreiam a vitória eleitoral, projetaram o que é preciso fazer para reforçar os resultados eleitorais. O antigo ministro socialista João Cravinho fez na quinta-feira à noite um dos discursos mais marcantes da Comissão Política do PS, em que alertou o seu partido para a urgência de dar primazia a uma "agenda verde".

De acordo com vários dirigentes do PS contactados pela agência Lusa, João Cravinho fez uma análise detalhadas dos resultados verificados nas eleições europeias de domingo, designadamente sobre os motivos da subida eleitoral do PAN (Pessoas-Animais-Natureza) e da elevada taxa de abstenção verificada.

Na sua intervenção, o antigo ministro socialista considerou que as questões ambientais passaram definitivamente para o primeiro plano das preocupações dos cidadãos, sobretudo dos escalões etários mais novos, razão pela qual defendeu que o seu partido tem de dar respostas concretas nesta área, atribuindo "centralidade a uma agenda verde".

Antes, no discurso de abertura da Comissão Política Nacional do PS, o primeiro-ministro, António Costa, tinha afirmado que um dos quatro "eixos estratégicos" do futuro programa eleitoral dos socialistas para as legislativas de outubro seria o do combate às alterações climáticas.

Mas João Cravinho alertou ainda para dois outros perigos, o primeiro dos quais a elevada taxa de abstenção verificada no domingo passado, tendo então classificado "urgente" a adoção de medidas contra este fenómeno.

Neste ponto, António Costa, segundo fontes da Comissão Política do PS, apenas disse que as eleições europeias, tradicionalmente, registam taxas de abstenção muito elevadas em Portugal.

O segundo perigo de que falou João Cravinho na sua intervenção relacionou-se com a evolução da União Europeia, com o antigo ministro das Obras Públicas do primeiro executivo liderado por António Guterres (1995/1999) a mostrar-se apreensivo com a hipótese (em cima da mesa) de a Alemanha dominar o Banco Central Europeu, comandando de acordo com os seus interesses a política do euro.

Segundo dirigentes do PS, grande parte da reunião da Comissão Política Nacional do PS foi dedicada à análise e discussão da atual situação da União Europeia após os resultados de domingo passado.

Fora deste registo, o dirigente socialista Daniel Adrião entregou a António Costa uma carta aberta assinada por mais de cem militantes a reclamar a realização de eleições primárias (abertas à generalidade dos cidadãos) no processo de escolha dos candidatos a deputados do PS para as próximas eleições legislativas.

Daniel Adrião interpelou mesmo António Costa para que dissesse "uma palavrinha" sobre se aceita ou não a realização de eleições primárias para a escolha dos candidatos a deputados do PS.

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