Especialistas confiantes que reencontros de Natal não levarão a terceira vaga

Os especialistas em saúde pública mostraram-se mais confiantes no controlo da pandemia do que o Presidente da República. Os reencontros do Natal não devem levar a uma terceira vaga, até porque a vacina contra a covid-19 está a chegar, defendem.

"Estou muito otimista em relação ao verão, em que já estaremos mais próximos da normalidade." Foi com esta frase Manuel Carmo Gomes, médico e epidemiologista da Faculdade de Ciências, respondeu às dúvidas do Presidente da República sobre os riscos de Natal e Ano Novo desconfinados.

Na reunião do Infarmed, que serve de preparação à renovação do estado de emergência por mais 15 dias, com que Marcelo Rebelo de Sousa vai avançar nesta quinta-feira, a tempo de ser aprovado na sexta pela Assembleia da República, os especialistas foram unânimes a considerar que as vacinas contra a covid-19 deverão travar a possibilidade de uma terceira vaga em 2020. E num momento em que a pandemia está a abrandar em Portugal e na Europa.

"Estou muito otimista em relação ao verão, em que já estaremos mais próximos da normalidade."

No final de mais de três horas de reunião, Marcelo sintetizou as intervenções dos especialistas com perguntas e uma conclusão: "Parece depreender-se que apesar da evolução com sinais positivos há uma necessidade de consolidação das medidas."

Ou seja, a preocupação do Presidente da República era saber o que pensavam os especialistas sobre a manutenção de medidas restritivas em época das festas que se aproximam. Tanto mais que no sábado o governo, ao abrigo do novo estado de emergência, as terá de fechar já para o período do Natal e Ano Novo, como pediu Marcelo.

O médico Manuel Carmo Gomes manifestou-se "muito confiante" na situação da pandemia no fim do ano, mas advertiu que tudo depende das pessoas. "Não defendo que as medidas devam ser aliviadas, só pontualmente." E admitiu que no Natal haverá agregados familiares que se vão encontrar e que, por isso, haverá aumento de infeções.

Mas conjugou isso com a introdução das vacinações. Em março teremos uma quantidade de pessoas já imunizadas pela vacinação para evitar a propagação da pandemia, assegurou o especialista. "Se até ao fim de janeiro temos dúvidas em que quantidade vão chegar, depois vão chegar em quantidades muito superiores."

"Estou muito otimista em relação ao verão, em que já estaremos mais próximos da normalidade", adiantou. Portugal é um país que tem tradicionalmente muita adesão à vacinação, afirmou Manuel Carmo Gomes, e considerou que com a vacina da covid-19 também será assim, conforme a segurança for sendo assegurada. A Agência Europeia de Medicamentos reúne-se no dia 29 de dezembro para apreciar os pedidos de licenciamento das vacinas.

"Se até ao fim de janeiro temos dúvidas em que quantidade vão chegar [as vacinas], depois vão chegar em quantidades muito superiores."

Baltazar Nunes, outro especialista presente na reunião, afirmou que quando as famílias se reencontrarem e menos infeções existirem, menor será o aumento da curva. "Nos momentos anteriores ao reencontro seria importante a família que se vai reencontrar reduzir o máximo dos contactos", assegurou, aconselhando o mesmo com o Natal.

Impor medidas de restrição de circulação entre concelhos - o que deverá acontecer pelo menos no Ano Novo - vai ter problemas de cumprimento, reconheceu o especialista. Mas todos garantiram que é preciso manter a pressão na mola até lá. Traduzindo, manter as medidas que têm estado em vigor e que só deverão ser aliviadas no Natal e regressarem depois no Ano Novo.

Pico da segunda vaga em 25 de novembro

Durante a reunião do Infarmed, os especialistas em saúde pública deram boas notícias sobre a pandemia e associaram-nas às medidas que foram tomadas durante o estado de emergência. A curva de infeções está em descida em todo o país, tal como as mortes, e o pico das infeções foi atingido a 25 de novembro. O índice de transmissibilidade da doença, o chamado "R", já está abaixo de 1. Este abrandamento, reconheceram, também está a acontecer na Europa, em países como a República Checa, a Bélgica ou a Irlanda.

Uma fatia generosa das intervenções foi dedicada ao assunto que mais interessa à população neste momento, precisamente o das vacinas para combater a doença e que deverão começar a chegar a Portugal no início de janeiro.

João Gonçalves, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, ajudou a descodificar o trajeto das vacinas. Garantiu que o conhecimento da imunidade à covid-19 evoluiu muito nestes oito meses. "Nem todos os doentes com covid-19 têm a mesma imunidade", frisou sobre a durabilidade da imunidade que as vacinas poderão ter.

Potencialmente a eficácia da vacina vai variar muito de doente para doente. A imunidade é a mesma para todas as idades?, perguntou o especialista, fazendo o paralelo com a da gripe, que não tem tanta eficácia nas pessoas com mais de 50 anos.

"O sistema imunitário dos idosos não é tão competente para responder ao vírus", afirmou. "Nas vacinas é fundamental que elas estimulem nesta faixa etária o sistema imunitário."

Com oito meses de investigação, a vacina não vai criar imunidade igual para todas as pessoas. "Nem sabemos quando haverá imunidade de grupo", atirou João Gonçalves, lembrando que todas as vacinas têm efeitos adversos - como dores de cabeça, inchaços -, o que é bom porque é o sistema imunitário a reagir. E partiu deste especialista o apelo para que as pessoas não tenham medo das vacinas.

"O sistema imunitário dos idosos não é tão competente para responder ao vírus."

Henrique de Barros, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, frisou que "vamos descer a encosta de uma segunda onda" da epidemia, tendo no horizonte uma vacina que ajude a controlar a doença.

O especialista disse que há previsão de que "haverá já mais de um milhão de pessoas que tiveramcontacto com o vírus" em Portugal. Ou seja, entre 15% e 20% dessa população estará imunizada quando chegar a vacina. Depois de interpelado pelo Presidente da República foi ainda mais longe ao admitir que estaremos já no milhão e meio de pessoas que terão tido contacto com a doença.

A especialista da Escola de Saúde Pública, Carla Nunes, trouxe os dados do impacto da pandemia em Portugal e os níveis de confiança nas vacinas. Disse que quem apresentou piores estados de saúde foram as mulheres e os mais velhos, com idades superiores a 65 anos, e com pior escolaridade.

No que diz respeito à saúde mental, por causa do distanciamento físico, esta foi melhor durante o verão e é atualmente semelhante ao início da pandemia. Os mais jovens e os com maior nível de escolaridade foram os que manifestaram mais problemas com a saúde mental por causa da pandemia.

Nos últimos dois meses, os comportamentos estão concordantes com as medidas propostas, mas ainda há quem desrespeite. E, neste caso, são os homens que maioritariamente desrespeitam as regras.

Na perceção da adequação das medidas adotadas pelo governo vê-se uma ligeira recuperação na última quinzena em relação a outubro.

As mulheres são as mais confiantes nas vacinas. E sobre a intenção de a tomar quando estiver pronta, 51,7% querem esperar algum tempo, só entre aqueles com mais de 65 anos há mais a querer tomar a vacina. Os mais jovens, na ordem dos 11%, são os que menos querem.

Os determinantes para tomar ou não a vacina são vários, segundo Carla Nunes, sendo a confiança na sua eficácia a principal. As mulheres querem esperar mais do que os homens para tomar a vacina e os mais jovens também, na ordem dos 62% na totalidade dos portugueses que querem esperar "algum ou muito tempo" para serem vacinados.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG