Ana Gomes desafia candidatos a limitar donativos a cem euros

Na sua primeira ação desde que anunciou a intenção de candidatura a Belém, a pré-candidata presidencial Ana Gomes assinalou o 5 de Outubro com uma sessão no Teatro da Trindade, em Lisboa, onde defendeu que "não há coroações e a estabilidade importa, mas não pode equivaler a um país conformado".

Ana Gomes desafiou nesta segunda-feira os candidatos presidenciais a limitarem a cem euros os donativos para a campanha às eleições presidenciais de 2021. O desafio foi feito já no final da sessão "Cuidar de Portugal", iniciativa que assinalou o 5 de Outubro, data de implantação da República, no Teatro da Trindade, em Lisboa.

Na intervenção final, Ana Gomes pediu a contribuição dos portugueses para a recolha de assinaturas para formalizar a candidatura à Presidência da República, assinalando que podem fazer também donativos. "Mas ninguém deve fazer contribuições acima de cem euros, não queremos contribuições acima de cem euros."

"Espero que este exemplo frutifique e seja seguido por outras candidaturas. Desafio-as a fazerem exatamente o mesmo", apelou Ana Gomes.

Foram as palavras finais de uma sessão em que a militante socialista começou por sublinhar que "em república não há vitórias antecipadas". Pedindo aos portugueses que "votem pelo reforço da democracia" nas próximas eleições presidenciais, a antiga diplomata lembrou que "não há coroações" e nada está decidido antes de os portugueses irem às urnas.

Uma afirmação feita a par com um apelo, dirigido a todos os eleitores, mas sobretudo aos mais jovens, para que "combatam a apatia, não se abstenham, não desistam de Portugal". "Compreendo quem esteja desencantado com a política e os políticos, mas todos somos chamados a construir um Portugal melhor", afirmou a candidata presidencial, dizendo esperar que se junte à sua candidatura "quem quer democracia com integridade e justiça". "Estou aqui para unir, para congregar portuguesas e portugueses", rematou Ana Gomes, militante do PS que, para já, conta com o apoio oficial do PAN e do Livre, assim como de alguns socialistas, a título individual.

Numa sessão intitulada "Cuidar de Portugal", que abriu precisamente com o discurso da candidata, Ana Gomes referiu que quem é eleito para a Presidência da República "tem o dever de defender a Constituição e a separação de poderes que sustenta a democracia", de a "todos convocar para determinar o rumo estratégico do país" e zelar para que esse rumo seja cumprido com "isenção, sentido ético, rigor e transparência".

"Importa a estabilidade, mas estabilidade não equivale, não pode equivaler a um país conformado", sustentou a candidata presidencial, acrescentando que agora, "mais do que nunca", é "preciso que todos votem pelo reforço da democracia, sobretudo quando os extremistas ressurgem por toda a Europa e tratam de cavalgar a crise e a desconfiança, semeando ódios, divisões e violência".

"Eu sou socialista, nunca desisti de lutar por princípios, valores e pelo bem comum". E fazer política "significa servir o bem, as pessoas, assegurar a boa governação" sem "esperar em troca cargos, honrarias ou contrapartidas materiais". "Não podemos continuar a aceitar que os negócios se confundam com a política, os interesses privados com o interesse público geral, que projetos pessoais e partidários estejam acima dos superiores interesses nacionais" e que, ao mesmo tempo "existam ainda pessoas que passam fome" em Portugal.

Já no período de perguntas e respostas, perante uma questão sobre pequenas e médias empresas, Ana Gomes prometeu que o tema da "revisão da fiscalidade ao nível nacional, mas também ao nível europeu" será uma das suas prioridades. Sublinhando que há dados europeus que mostram que as "pequenas e médias empresas pagam em média 30% mais de impostos do que as multinacionais", a ex-eurodeptada disse que há países da União Europeia que fazem dumping fiscal em relação aos outros. É o caso de "Luxemburgo, Irlanda, Holanda, Malta e Chipre, que são verdadeiros paraísos fiscais" - e depois há os "pequeninos paraísos fiscais, que é o nosso caso".

Ladeada por algumas pessoas no palco, sobretudo jovens, Ana Gomes foi respondendo a perguntas ao longo de cerca de duas horas, da educação à ecologia, da saúde (que "tem de ser uma prioridade, na vertente pública") aos direitos das minorias, das desigualdades aos extremismos."O discurso do ódio serve aqueles que querem combater a democracia e a liberdade, são inimigos", sustentou a candidata presidencial.

Questionada também sobre a transparência na aplicação dos fundos europeus que Portugal vai receber nos próximos anos, Ana Gomes disse que esta "é uma das questões mais prementes" que o país enfrenta. "É uma questão para todos nós, cidadãos: se nós desistimos de pedir contas, de escrutinar as decisões sobre a alocação desses fundos, então desistimos do país, então vai haver roubalheira, como houve no passado". Por isso, sustenta Ana Gomes, "é que temos de dizer desde já ao governo que nem pense avançar com esta proposta para mudar o regime da contratação pública, tal como está". A candidata disse ainda que é preciso perceber o que se passa no Tribunal de Contas. E até avisou que está a ser "muito diplomática"... "para já".

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