Transmissão aérea da covid. "Não é essa árvore que faz a floresta"

A discussão sobre se pode o vírus SARS-CoV-2 transmitir-se pelo ar, sem contacto direto entre as pessoas, tem sido recorrente. E, nesta semana, um grupo de cientistas volta a reafirmar isso mesmo. Para o bioquímico Miguel Castanho, esta não deve ser umas das principais preocupações das autoridades de saúde, pois estamos a falar de uma quantidade ínfima de contágios.

Voltaram a ser levantadas dúvidas sobre a possibilidade de um infetado com covid-19 poder deixar o vírus num espaço fechado, mesmo que não toque em nenhum objeto, havendo risco para as pessoas que entram nessa sala depois. Num artigo publicado na revista Science, na segunda-feira (5 de outubro), um grupo de cientistas defende esta hipótese. Horas depois, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos atualizou as suas orientações para frisar que a doença pode de facto ser transmitida pelo ar. No entanto, para o bioquímico português Miguel Castanho, o assunto está a tomar uma dimensão desproporcional.

"De todo o universo de contaminações, no mundo inteiro, o dominante é a contaminação de pessoa a pessoa. Não são eventuais exceções que vão fazer a diferença", diz ao DN o responsável pelo laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, em Lisboa. "Em teoria, a transmissão por aerossóis é possível, poderá ter acontecido uma ou outra vez, mas não é essa árvore que faz a floresta", continua o especialista.

O estudo da Science, liderado por Kimberly Prather, da Universidade da Califórnia, de San Diego, chega mesmo a argumentar que "a precaução deve ser direcionada para a proteção contra a transmissão aérea" e que as recomendações das autoridades de saúde deveriam ser modificadas: para além da utilização de máscaras, das medidas de higiene e distanciamento físico, os autores defendem a importância de se fazer todas atividades possíveis na rua, em vez de em espaços fechados, e melhorar a qualidade do ar dentro dos edifícios por meio de ventilação e filtração.

Miguel Castanho não vê essa necessidade. Admite que existem gotículas mais pequenas, os chamados aerossóis, que "sendo muito mais pequenas não têm a ação da gravidade e flutuam no ar, podendo ser inaladas por outras pessoas, mesmo a distâncias maiores", ou seja, trazem um risco acrescido. Mas, distingue, estes casos são "raríssimos" e acontecem em ambientes muito específicos.

"O que o estudo nos mostra é que isto só acontecerá nos ambientes em que se formam muitos aerossóis, que não são os ambientes normais, onde nós andamos. São por exemplo, os consultórios dos dentistas, onde a pessoa está de boca aberta, onde se faz tratamentos com jatos de água e se soltam vapores, e em alguns ambientais hospitalares", aponta o investigador. "Falta demonstrar ainda que, na maior parte das situações do dia-a-dia, os aerossóis têm uma contribuição significativa para a transmissão. O contágio significativo será quando as gotículas passam de pessoa para pessoa."

Sem deixar de considerar a investigação da Science, Miguel Castanho lembra que "os estudos científicos são feitos um pouco ao contrário. O objetivo não é demonstrar que o vírus está em aerossóis. É demonstrar que se o vírus estiver em aerossóis, pode de facto permanecer ativo mais tempo no ar". Ou seja, na sua opinião, é preciso relativizar estes resultados para que as pessoas não estejam sempre preocupadas com tudo, a um ponto em que já não consigam controlar aquilo que realmente depende de cada um.

Dosear o esforço

"O exagero leva a que nos desfoquemos. Nos primeiros tempos de quarentena, por exemplo, as pessoas punham as compras em isolamento, desinfetavam tudo, e isso transformou o quotidiano das pessoas num pequeno inferno. Repetidamente, estes gestos cansam as pessoas e o cansaço e a saturação levam a um efeito adverso. Às tantas, as pessoas encolhem os ombros. Deixam de tomar as medidas mais relevantes. Precisamos de dosear o esforço e colocá-lo naquilo que sabemos que é crítico para a infeção", defende o especialista do IMM.

"Precisamos de dosear o esforço e colocá-lo naquilo que sabemos que é crítico para a infeção."

À medida que a pandemia continua a avançar, sem uma perspetiva clara sobre quanto tempo poderá levar até existir uma vacina segura e que possa ser distribuída em massa, as populações acusam o cansaço desta nova forma de viver e facilitam em gestos imprescindíveis. Nesta terça-feira (6 de outubro), o diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, reforçava precisamente esta mensagem, enquanto pedia aos governos para combaterem o cansaço da população.

"Com base nos dados agregados na pesquisa dos países desta região [europeia], podemos notar, sem surpresa, que o cansaço dos entrevistados está a aumentar. Estima-se agora que tenha atingido mais de 60% nalguns casos ", dizia Hans Kluge, numa nota em que sublinha que as populações fizeram "imensos sacrifícios" durante oito meses, desde que foram detetados os primeiros casos de covid-19.

Para combater este "cansaço", defende o responsável, as autoridades devem ouvir a população e criar com ela as respostas para continuar a lutar contra a pandemia do novo coronavírus, cujos níveis de transmissão continuam elevados em toda a Europa. "Temos de atender às nossas necessidades de maneiras novas e inovadoras. Sejamos criativos e corajosos para conseguir isso", pede Kluge.

Miguel Castanho aproveita a oportunidade para reafirmar: "Se começamos com medo de entrar em todo o lado só porque já lá esteve outra pessoa, é um outro inferno que não tem significado prático." Como quem diz a transmissão aérea da covid é uma preocupação para se ter apenas em locais muito específicos e não nos deve condicionar ainda mais a vida.

"Poderíamos estar a fazer o mesmo esforço aplicado racionalmente"

"Neste momento devíamos estar a identificar os pontos críticos de contágio, em vez de estarmos a disparar para todos os lados, e devíamos estar a atuar muito localmente sobre esses pontos de contágio. Poderíamos estar a fazer o mesmo esforço aplicado racionalmente a coisas mais importantes e estar a ter resultados melhores. Isso também exigiria estarmos a estudar muito bem quais são os pontos mais fortes de contágio, o que eu acho que não estamos a fazer. Não se ouve a Direção-Geral da Saúde a divulgar nenhum resultado de um estudo que tenha esse objetivo", sugere o bioquímico.

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