Borba. "Chegámos ao fim de uma operação extremamente complexa"

Presidente Autoridade Nacional da Proteção Civil, Mourato Nunes, anunciou os fim das operações em Borba depois do resgate das cinco vítimas mortais. "Podemos garantir com grau de probabilidade não absoluto mas elevadíssimo de que não haverá mais vítimas dentro da pedreira"

"Chegámos ao fim de uma operação de proteção civil extremamente complexa." Foi assim que o presidente Autoridade Nacional da Proteção Civil, Mourato Nunes, anunciou o fim dos trabalhos de resgate na pedreira de Borba, depois de já este sábado ter sido recuperado o corpo da quinta vítima mortal da derrocada da estrada municipal 255.

O tenente-general Mourato Nunes disse ainda que se pensa que o corpo retirado este sábado de manhã seja o último que estava no fundo da pedreira. "A GNR tem procurado na sua base de dados se nesta região havia mais desaparecidos. Não configura nenhuma situação que leve a concluir que haja mais vítimas no local."

"Garantias absolutas não existem, o que há é a probabilidade elevadíssima de que recolhemos todos os corpos de todas as vítimas que estavam na pedreira. Face às descrições que temos, que não são muitas mas são as possíveis, face ao conhecimento que existe na autarquia e nas juntas de freguesia das pessoas da área desaparecidas, e face ao conhecimento que as forças de segurança têm dos desaparecidos, naquela data, podemos garantir com grau de probabilidade não absoluto mas elevadíssimo de que não haverá mais vítimas dentro da pedreira"​​​​​​, acrescentou.

O presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil, que se deslocou a Borba para dar os trabalhos por encerrados, frisou que a operação de resgate dos cinco corpos foi uma operação "complexa e meticulosa", mas em que tudo decorreu "conforme planeado". A complexidade da operação foi sempre referida pelo comandante distrital de Operações de Socorro de Évora, que chegou a admitir a possibilidade de o resgate se prolongar por semanas. Durou, afinal, 13 dias.

O último corpo a ser retirado da pedreira foi o de Fortunato Ruivo, um ex-militar do Exército, de 85 anos, morador no Alandroal que tinha saído de casa para ir a uma loja de informática. Fortunato foi encontrado dentro da sua viatura, que foi localizada pela equipa da Proteção civil na sexta-feira.

Para o líder da proteção civil, não há razão para continuar as operações. "Do ponto de vista da proteção civil, consideramos que a operação está encerdada. Nunca podemos dizer que está bem encerrada, quando há vítimas nunca é um êxito. Mas face às circunstâncias - já sabíamos que havia víimas - e àquilo que era possível fazer num espaço temporal o mais curto possível e sem provocar mais vítimas, direi que foi feito tudo aquilo que podia e devia ser feito"

Os dois trabalhadores da pedreira, um maquinista e um auxiliar da retroescavadora que foi arrastada para o fundo da pedreira com a derrocada, foram as duas primeiras vítimas a ser recuperadas e já foram sepultados. O funeral de Gualdino Pita, de 49 anos, realizou-se dois dias depois do acidente, a 21 de novembro, e o de João Xavier, de 58, na última segunda-feira, precisamente uma semana depois de a estrada que atravessa as pedreiras ter desmoronado.

Ainda na sexta-feira tinham sido recuperados os corpos dos dois cunhados de Bencatel, que seguiam numa carrinha de caixa aberta cinzenta: José Rocha, conhecido por Zé Algarvio, de 53 anos e o cunhado, Carlos Andrade, de 37, que gozava o último dia de férias antes de regressar ao trabalho, no Intermarché.

Este sábado, o Expresso noticiou que a Polícia Judiciária está a investigar se realmente houve uso de explosivos na pedreira de Borba, uma vez que testemunhas garantem ter ouvido pelo menos duas detonações horas antes da tragédia que vitimou cinco pessoas.

O uso de explosivos nas pedreiras tem de ser autorizado e obedece a rigorosas regras de segurança. O Ministério do Ambiente respondeu ao Expresso que o último parecer favorável da Direção-Geral de Energia e Geologia para o uso de explosivos foi emitido a 1 de março de 2017 e autorizava o uso de 75 quilos de pólvora.

Nas investigações à causa da tragédia está a ser tido em conta o sismo de 2,1 que foi registado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera em Arraiolos, dois dias antes de a estrada ter desmoronado.

O Ministério Público já instaurou um inquérito para apurar as causas do acidente. Por seu turno, o Governo ordenou uma inspeção ao licenciamento e exploração das pedreiras na zona de Borba.

O Presidente da República, que esteve no local do acidente, pediu respostas rápidas sobre o que aconteceu. "Parece evidente que há uma responsabilidade objetiva", disse Marcelo Rebelo de Sousa.

"Espero que também não demore muito tempo a apurar porque os portugueses há uma coisa que têm muito presente: é que há um tempo útil para apuramento de responsabilidade e que a justiça é muito lenta e acaba por não ser justa", afirmou Marcelo.

Costa, por seu turno, não se deslocou ao local, mas já afirmou que se houver uma responsabilidade do Estado, certamente haverá indemnizações aos familiares das vítimas. A estrada foi desclassificada em 2005, quando deixou de estar debaixo da alçada das Estradas de Portugal e as responsabilidades da gestão e manutenção passaram para as câmaras de Borba e Vila Viçosa. O acidente ocorreu na zona de Borba, mas o presidente da autarquia, António Anselmo, tem insistido em dizer que não se demite porque isso é para os fracos.

Em 2014, a Direção-Geral de Energia e Geologia propôs a construção de duas estradas em alternativa à via que ruiu, mas não houve acordo. Uma das vias deveria servir a população, ligando à atual estrada principal, e a outra permitiria o acesso às pedreiras. Mas nem uma nem outra avançaram.

Uma ata da Assembleia Municipal de Borba confirma que o autarca conhecia desde 2014 os riscos de a estrada desabar, mas terá minimizado o alerta.

Com Roberto Dores

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