Resistência Galega tinha depósito de explosivos no centro de Coimbra

A Polícia Judiciária apreendeu explosivos numa garagem na cidade de Coimbra, alugada pelos cabecilhas da Resistência Galega, já detidos desde o ano passado em Espanha

A operação que desmantelou a base logística da Resistência Galega, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ) e coordenada pelo Ministério Público de Coimbra, foi conhecida esta segunda-feira pela primeira vez, mas decorreu já em novembro de ano passado.

A ação conjunta entre as autoridades espanholas e portuguesas foi divulgada primeiro em Espanha no site da rádio Cope.es.

"No dia 9 de novembro de 2019, após partilha de informações e cooperação policial entre os dois Estados, foi localizado um imóvel em Coimbra, associado aos líderes da Resistência Galega e utilizado como "casa de recuo"

"No dia 9 de novembro de 2019, após partilha de informações e cooperação policial entre os dois Estados, foi localizado um imóvel em Coimbra, associado aos líderes da "Resistência Galega" e utilizado como "casa de recuo", confirmou a PJ.

Em comunicado, a Judiciária adiantou que "foi apreendido vasto material probatório, correlacionado com as atividades terroristas levadas a cabo por este grupo independentista, destacando-se, inúmeros utensílios utilizados na fabricação de engenhos/artefactos explosivos, nomeadamente relógios, temporizadores e telemóveis preparados como dispositivo de ativação remota de cargas explosivas; dispositivos pirotécnicos e engenhos explosivos improvisados, uma carga total de aproximadamente 30 kg pólvora, livros, apontamentos manuscritos e manifestos de propaganda dos ideais da Resistência Galega".

A PJ revela que se "apreendeu ainda uma panela de pressão, para confinamento de carga explosiva, igual às usadas por este grupo terrorista em diferentes atentados, bem como material utilizado para falsificação de documentos, como carimbos de instituições públicas espanholas e plastificadoras a quente".

Adianta ainda que "o material apreendido foi remetido à Autoridades espanholas, devidamente acondicionado".

Ao que o DN conseguiu apurar, o material estava guardado numa garagem de um prédio, numa zona degradada do centro de Coimbra.

Esta apreensão, mantida em segredo até agora, foi o culminar de um processo de investigação conjunta entre as autoridades espanholas e as portuguesas e decorrer cerca de cinco meses depois de terem sido detidos em Vigo os cabecilhas desta organização, Antón García Matos "Toninho" e María Asunción Losada Camba, fugidos da Justiça desde 2006.

A investigação portuguesa, com base num inquérito aberto em novembro de 2019, apurou que María Asuncion alugou aquele espaço em 2014 onde terá sido vista algumas vezes, segundo testemunhos recolhidos pela polícia.

"Toninho" nunca foi visto nesta zona, ocupava a liderança a organização terrorista e também era especialista na fabricação e manuseio de artefactos explosivos.

Em conferência de imprensa na sede da PJ, o coordenador da Diretoria do Centro, Jorge Leitão, explicou a demora - quase um ano - na divulgação desta operação com o facto de a investigação ter continuado, depois do material ter sido apreendido, para apurar se havia outros operacionais da organização ativos e com conhecimento daquela base logística, nomeadamente portugueses.

"A conclusão é que não havia nenhuma ligação e por isso demos como finda a nossa investigação e decidimos enviar toda a prova para Espanha", onde estão em prisão preventiva Anton e Maria Asuncion, sublinhou Jorge Leitão.

Último atentado em 2014

O casal, recorde-se, foi detido em Vigo em junho do ano passado, juntamente com outro colaborador. Matos e Camba são considerados os maiores responsáveis ​​pelo movimento de independência armada da Resistência Galega que ambos conceberam em 2005, herdeira da estrutura do Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive.

Desde a sua detenção que mais ninguém se tinha deslocado à garagem de Coimbra e o local só foi detetado pela investigação, através de cruzamento de informações.

Desde a sua detenção que mais ninguém se tinha deslocado à garagem de Coimbra e o local só foi detetado pela investigação espanhola, através de cruzamento de informações.

O Exército Guerrilheiro atuou na Galiza entre 1987 e 1991, deixando três mortos em consequência do atentado perpetrado na discoteca Clangor, em Santiago de Compostela, e outro no qual morreu um agente da Guarda Civil em Irixoa, (A Coruña).

Desde 2005 que foram contabilizados mais de quatro dezenas de ataques, a maioria causando apenas danos materiais.

Até à sua detenção em 2019, o casal tinha estado, pelo menos desde julho de 2014 fora dos radares das autoridades.

Até à sua detenção em 2019, o casal tinha estado, pelo menos desde julho de 2014 fora dos radares das autoridades.

Em julho desse ano, Garcia Matos tinha divulgado um vídeo a defender a luta armada e em outubro, também desse ano, a Resistência Galega reivindicou a sua última ação terrorista conhecida, com a colocação de uma bomba na Câmara Municipal de Baralla foi (Lugo), cuja deflagração causou graves danos materiais.

Recuo para Coimbra

Ao que tudo indica, os cabecilhas terão recuado e reunido material em Coimbra na referida garagem. Todo o material estava acondicionado em malas e caixas. Foi também apreendida diversa literatura ligada a movimentos nacionalistas independentistas, entre os quais a ETA.

Em setembro último, o Ministério Publico espanhol disse que "o grupo terrorista Resistência Galega é considerado quase totalmente desmantelado", uma vez que em todo o ano de 2019 "não houve ações terroristas" da sua parte.

O MP espanhol diz que "apesar de desarticulada quase por completo" a Resistência Galega, ainda "continua a representar alguma ameaça".

No entanto, o MP espanhol acrescentava que "apesar de desarticulada quase por completo" a Resistência Galega, ainda "continua a representar alguma ameaça".

A UNCT tem mantido ao longo dos últimos anos uma relação próxima com as autoridades espanholas na investigação e controlo em território nacional deste movimento independentista.

Em 2014, a polícia espanhola suspeitava que, pelo menos 15 operacionais estariam a viver em Portugal.

Além de "Toninho" e Asuncíon, cuja presença assídua em Portugal estava sob suspeita das autoridades até à sua detenção, outros operacionais foram sendo controlados pelos investigadores da PJ.

Histórica ligação a Portugal

Em 2006, recorde-se, foram apreendidos engenhos explosivos numa casa abandonada em Vieira do Minho, a cerca de 40 quilómetros da fronteira espanhola. No local estava também material de propaganda da Resistência Galega.

Em 2015, Héctor José Naya Gil, de 33 anos, foi detido no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, quando tentava embarcar num voo para Caracas (Venezuela), com um passaporte venezuelano falso.

Era suspeito de ter planeado um ataque contra a sede do PP em Pontevedra e tinha sido condenado a 11 anos de prisão - 5 anos por "participação em organização terrorista", mais seis anos por "colocação de artefactos explosivos com fins terroristas".

Mas a ação da PJ no combate a esta organização que defende a independência da Galiza, remonta aos anos 90.

Num livro publicado em 2015 por dois inspetores da UNCT, um deles envolvido nas investigações relacionadas com a Resistência Galega, é dito que "o ano de 1991 marcaria a extensão, para o território português, das atividades delituosas e movimentações operacionais da principal organização separatista a Galiza".

Inicialmente designada Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive (EGPGC), apareceria em Portugal "essencialmente na base da mediação providenciada por ativistas portugueses que aderiram à organização", contam estes polícias no livro "Base Mike", onde são recordadas as principais investigações da UNCT, ex-Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB).

Este grupo "estendeu o seu campo de atuação para território nacional, não propriamente com intuito de executar operações violentas, mas sobretudo para dispor de redutos de apoio logístico e de recuo, assim recorrendo a residências particulares"

De acordo com estes investigadores, este grupo "estendeu o seu campo de atuação para território nacional, não propriamente com intuito de executar operações violentas, mas sobretudo para dispor de redutos de apoio logístico e de recuo, assim recorrendo a residências particulares, na região de Sesimbra e de S. Martinho do Porto, para depósitos de materiais explosivos.

Em outubro de 1991, a então DCCB, numa operação com a polícia espanhola, fez buscas numa das casas de recuo do grupo, apreendendo material explosivo diverso (velas de gelamonite e de goma, detonadores, fios elétricos, cordão lento e detonante).

Além dos casos de Susana Poças e Alexandra Vaz Pinheiro, que foram julgadas e condenadas em Espanha por adesão à Resistência Galega, não são conhecidos outros portugueses envolvidos direta, ou indiretamente, com o grupo. Não há arguidos portugueses constituídos neste processo.

No decurso da investigação, garante a PJ, "além das ligações logísticas a território nacional, não foi identificada qualquer outra ligação efetiva ou envolvimento direto de cidadãos nacionais na organização terrorista".

A diretora da UNCT, Manuela Santos, também presente na conferência de imprensa, garantiu ao DN que neste momento já não existem inquéritos abertos em Portugal relacionados com a Resistência Galega.

Atualizado às 15h30 com a Conferência de Imprensa

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