Pico de contágios na próxima semana, primeiras vacinas no início do ano

Especialistas apontam pico de novos contágios já para a próxima semana e pico de óbitos para a segunda semana de dezembro. Políticos estão a ouvir peritos em reunião no Infarmed, em Lisboa.

O presidente da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) admitiu esta quinta-feira que as primeiras vacinações contra a covid-19 aconteçam no início do próximo ano, dependendo das autorizações da agência europeia que tutela o setor.

Intervindo num reunião entre especialistas e políticos em Lisboa, na sede do Infarmed, Rui Ivo afirmou que as entregas de vacinas acontecerão em tranches ao longo de 2021 e que poderão estar disponíveis mais de cinco milhões de doses no primeiro trimestre, cerca de oito milhões no segundo trimestre e mais dois milhões no último trimestre do ano que vem.

Rui Ivo indicou que há contratos firmados para quatro vacinas, três das quais (BioNTech/Pfizer, AstraZeneca/Oxford e J&J/Janssen) estão num fase mais avançada de desenvolvimento e para uma outra vacina da marca Sanofi.

Todas estão sujeitas a avaliação e autorização da Agência Europeia do Medicamento, salientou, um processo que ainda poderá ter desenvolvimentos este ano.

Pico de contágios na próxima semana

Numa intervenção anterior, Manuel do Carmo Gomes, da Faculdade de Ciência da Universidade Nova de Lisboa, afirmou que com a tendência atual do Rt [transmissibilidade] o pico de novos contágios por covid-19 ocorrerá de "25 a 30 de novembro" - já na próxima semana.

O pico de óbitos é apontado para a segunda semana de dezembro, com uma média de mortes diárias "entre 95 e 100", projetou o especialista na reunião que está a decorrer no Infarmed, em Lisboa, onde vários peritos estão a analisar a situação epidemiológica em Portugal. "Não podemos baixar a guarda", advertiu.

Manuel do Carmo Gomes sublinhou que há "uma tendência a nível nacional" de descida do índice R, que determina quantas outras uma pessoa infetada pode contagiar. Atualmente, o R estará em 1,11 e nos modelos de evolução apresentados no Infarmed, deverá estar em 1 no fim de novembro e princípio de dezembro, referiu Carmo Gomes, considerando que não se pode "baixar a guarda, porque à primeira oportunidade, o R volta a subir".

É preciso "descer o R significativamente para um nível gerível em termos de entradas hospitalares", alerta, dado que se projeta que na transição de novembro para dezembro o número médio de novos casos por dia atinja os 7 000. A questão é que mesmo que se consiga uma redução do R para 1, a incidência de novos casos por dia pode manter-se em vários milhares, entrando-se "num planalto do qual não é fácil sair" e que se continuará a refletir em mais casos internados e mais mortes.

Por isso, de acordo com os modelos que apresentou, é preciso "manter o R abaixo de 1 continuamente". Se isso acontecer poderá haver uma média superior a 3 000 novos casos por dia até meados de janeiro.

Já em resposta a perguntas feitas pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que questionou se o país pode esperar um novo pico de casos em janeiro e fevereiro do próximo ano, Carmo Gomes respondeu que isso "depende de nós", ou seja, dependerá do comportamento que os portugueses assumirem, dado que o "R está sempre pronto a disparar".

Ocupação de 84% nos cuidados intensivos

Também em resposta ao Presidente da República, João Gouveia, presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva (CARNMI), manifestou-se preocupado com a situação da Medicina Intensiva - "Neste momento, temos 84% de taxa de ocupação das camas de unidades de cuidados intensivos dedicados à covid-19. Temos o risco de já não conseguir receber todos os doentes que precisem de Medicina Intensiva com covid-19 e esta situação tem uma variedade regional enorme".

Segundo João Gouveia há serviços no Norte do país que estão a 113% da sua capacidade e outros que estão com menos noutras zonas do país, entre os 40/60%, lembrando que estes "na verdade, são serviços mais pequenos". Por isso, o número verdadeiro de camas que está disponível é menor, sublinhou o especialista.

Apesar de ainda haver "almofada", com capacidade de expansão, de poder chegar às 967 camas, João Gouveia mostrou-se preocupado por tal estar a ser feito com "sacrifício da assistência aos outros doentes".

"Isso é uma fatura que vamos pagar depois no fim. Vamos ter de conviver com este vírus durante bastante tempo, e não podemos manter a expansão, porque não é compatível com uma atividade médica normal", salientou.

"Resumindo, estou preocupado, não acho que estejamos em situação de catástrofe, ainda, mas estamos já em situação de rutura", lamentou.

Crescimento a abrandar desde meados de outubro

Na intervenção inicial na reunião Infarmed, Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, afirmou que o R nacional está "a crescer há 88 dias", verificando-se uma média diária de 6.488 novos casos (calculada com os números efetivos a sete dias), que é "seis vezes superior" ao que se verificou na primeira onda de março/abril.

Esta incidência tem tido "uma tendência positiva nas últimas semanas", indicou, referindo que o tempo que demora a duplicar o número de novos casos diários tem vindo a aumentar.

"Continuam a crescer [os novos casos por dia] mas com um crescimento menos acentuado desde o meio de outubro", declarou.

De acordo com Baltazar Nunes "só com uma redução dos contactos na comunidade superior a 60% e uma elevada cobertura do uso de máscara é possível trazer o R para baixo de 1" e mantê-lo aí "por várias semanas".

Baltazar Nunes salientou que os países europeus que conseguiram baixar o índice de transmissibilidade são os que aplicaram "medidas mais restritivas e apresentam níveis de mobilidade mais baixos".

Portugal está com "níveis de mobilidade mais elevados que estes países", notou.

Incidência é "sete vezes superior" aos números de abril

Já Óscar Felgueiras, especialista da Faculdade de Ciência da Universidade do Porto, centra-se na região Norte, afirmando também que se está a registar um abrandamento do crescimento da pandemia de covid-19. Mas a incidência ainda é quase sete vezes superior à registada em abril.

"Temos neste momento uma situação em que em geral está a haver abrandamento de crescimento" no Norte do país, a zona onde há mais casos de infeção, afirmou Óscar Felgueiras na reunião que decorre no Infarmed, em Lisboa, onde vários peritos estão a analisar a situação epidemiológica em Portugal.

Segundo o especialista, mesmo onde a pandemia está a crescer, em geral, há abrandamento.

Ao acompanhar a média diária de casos numa janela a sete dias e numa janela de casos a 14 dias, observa-se que tem havido um crescimento grande. "Estamos neste momento com uma incidência que é quase sete vezes superior à registada em abril no momento mais alto da pandemia e recentemente a tendência foi de haver um certo abrandamento", sublinhou Óscar Felgueiras.

À semelhança do que acontece no país, as faixas etárias com maior incidência são as da população ativa dos 20 aos 49 anos, seguida dos idosos acima dos 80 anos, bem como dos 70 aos 79 anos.

"Mesmo no caso dos idosos, a incidência atual é mais do sobro do que aquela que foi atingida no pico de abril", salientou.

Segundo Óscar Felgueiras, estão a surgir cerca de 200 casos diários de pessoas com 80 ou mais anos neste momento - "A verdade é que a incidência é bastante elevada".

A taxa de incidência a 14 dias aumentou na última semana 16% com tendência, no entanto, de abrandamento, sendo a variação de crescimento de menos 9%.

Em termos de faixas etárias que estão a crescer estão as crianças, mais 32%, os adolescentes, mais 24%, e os idosos com mais de 80 anos (26%) e 70 a 79 anos, mais 21%.

O especialista adiantou que as realidades na região norte não são absolutamente homogéneas.

Em Aveiro existe uma tendência elevada, mas que está em crescimento desacelerado, em Braga é mais elevada, estando o crescimento em 28%, mas também está a desacelerar o crescimento, enquanto Bragança esteja em crescimento acelerado, mas num patamar mais baixo.

O distrito do Porto é onde se está a dar alguma estabilização e que está a ocorrer sobretudo nas faixas etárias da população ativa, não tanto nos jovens e os idosos ainda estão a subir um bocadinho.

Portugal contabiliza pelo menos 3.632 mortos associados à covid-19 em 236.015 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Acompanhe aqui toda a informação sobre a pandemia de covid-19.

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