"No centro de Lisboa se calhar já se justifica usar máscara"

Uso de máscara tem regras diferentes segundo os países, as regiões, as cidades, as idades. Filipe Froes, da Ordem dos Médicos, defende que já se justificaria o uso, mesmo ao ar livre, nas zonas com maior movimento de algumas cidades. Infecciologista Jaime Nina diz que em espaços fechados os benefícios estão comprovados, em espaços abertos a "evidência é curta".

Em espaços fechados, na via pública; a partir dos 6 anos, a partir dos 10; por decisão do Governo central, de uma região, das autarquias. O uso de máscara para evitar o contágio por covid-19 tem dado azo a todo o tipo de decisões nos vários países, dos cenários mais permissivos aos mais restritivos.

Em Espanha não há uma determinação do Governo no sentido da obrigatoriedade da máscara em todo o espaço público, mas várias regiões já impuseram essa medida. A primeira, ainda em julho, foi a Catalunha, seguida das ilhas Baleares. Logo a seguir, a Extremadura adotou a mesma regra, tornando obrigatório o uso de máscara mesmo na via pública a todos os maiores de 6 anos, e impondo uma multa de cem euros a quem não cumprir. A Galiza impôs a mesma medida determinando o uso de máscara tanto em espaços abertos como fechados, mesmo que seja possível manter a distância de 1,5 metros. As únicas exceções aplicam-se a pessoas com dificuldades respiratórias. A comunidade de Castela-Leão avançou pouco depois no mesmo sentido.

No final de julho, já com os números de contágio da covid-19 a aumentar significativamente, também a Comunidade de Madrid ditou que todas as pessoas com mais de 6 anos estão obrigadas ao uso de máscara na via pública, nos espaços ao ar livre e em qualquer espaço fechado de uso público, independentemente de manterem a distância física de segurança. A máscara também é obrigatória em todos os meios de transporte público, e até mesmo nos privados, se os passageiros que partilham o transporte não viverem no mesmo domicílio.

Em França, o uso obrigatório de máscara tem vindo a ser sucessivamente alargado. Em julho, o Governo francês decretou a obrigatoriedade da máscara em todos os espaços públicos fechados (até então só era obrigatória nos transportes públicos). E desde o passado dia 1 de setembro, a mesma medida foi imposta para todos os espaços de trabalho fechados e partilhados.

Mas há várias cidades que têm vindo a impor medidas mais restritivas, nomeadamente na costa francesa, que com a época estival viu aumentar o número de veraneantes - e de casos de covid-19. Mas não só. Em Lyon e em Estrasburgo, as autoridades regionais queriam impor o uso obrigatório de máscara em todos os espaços, mas viram os tribunais limitar essa medida às zonas de maior movimento da cidade, um entendimento que foi caucionado, na semana passada, pelo Conselho de Estado, a mais alta jurisdição administrativa do país.

Em Itália, a máscara é obrigatória em locais públicos entre as 18.00 e as 06.00, uma medida que está em vigor desde meados de agosto, altura em que o Governo italiano mandou fechar as discotecas em todo o país para travar o aumento de contágios.

Já na Alemanha, o uso de máscara é obrigatório nos transportes públicos e nos espaços comerciais.

Em Portugal continental, o uso de máscara é obrigatório em espaços interiores fechados, como estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, serviços e edifícios de atendimento ao público, estabelecimentos de ensino e creches, assim como nos transportes públicos. É recomendado que as pessoas que se inserem em grupos de risco usem máscara cirúrgica sempre que saem de casa.

Na Madeira, por decisão do Governo Regional, o uso de máscara é obrigatório até mesmo ao ar livre, uma medida que está em vigor desde 1 de agosto.

As dissonâncias sobre esta forma de proteção da covid-19 também se estendem às escolas, nomeadamente quanto à idade a partir da qual as crianças têm de usar máscara: a partir dos 6 anos em Espanha e Itália; a partir dos 10 em Portugal; a partir dos 11 anos na França; na Dinamarca ou na Suécia o uso de máscara na escola não é obrigatório.

No início de junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou a orientação sobre o uso de máscaras no contexto da covid-19. Se inicialmente a OMS recomendava esta proteção apenas para profissionais de saúde e pessoas infetadas com SARS-CoV-2, passou a recomendar o uso de máscaras de tecido quando há "transmissão disseminada" da infeção e quando é difícil manter o distanciamento físico, como é o caso de "ambientes fechados".

"No centro de Lisboa se calhar já se justifica" usar máscara

Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a covid-19, remete para a orientação emitida em agosto por este gabinete, recomendando que "deve ser equacionada a utilização da máscara em espaços públicos abertos de acordo com o nível de atividade epidemiológica local". Ora, olhando para a situação atual, "provavelmente haverá algumas zonas de algumas cidades em que já se justifica", defende. "Uma pessoa que está sozinha no campo precisa de pôr máscara? Não. Mas no centro de Lisboa, no Rossio, se calhar já se justifica. Eu já ando de máscara", refere o pneumonologista, sublinhando que "nós temos cada vez mais cadeias de transmissão persistentes na comunidade, com indivíduos assintomáticos, e o facto de eles andarem de máscara evita que transmitam a outras pessoas. Por outro lado, os que usam máscara também aumentam o seu nível de proteção."

E deveria a OMS ser mais taxativa e mais precisa na recomendação de máscara, nomeadamente no que se refere a locais de grande circulação nas cidades, mesmo ao ar livre? "Eu percebo que a OMS tem de emanar recomendações para todos os países do mundo, do mais rico ao mais pobre, às vezes não é fácil estabelecer padrões que possam ser implementados por todos estes países", responde Filipe Froes, defendendo que esse papel deveria caber ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC na sigla inglesa).

"Eu reservaria esse papel para o ECDC, aí é que faria sentido uma maior uniformidade de procedimentos e de atuações a nível europeu. O FCDC deveria ser, provavelmente, mais claro, e devia ter uma política comum mais articulada e mais esclarecedora", diz Filipe Froes. Até porque estas dissonâncias na tomada de medidas, a "falta de uma política comum, articulada e coerente a nível europeu" tendem a criar "um mecanismo de desconfiança" nos cidadãos.

Há, aliás, movimentos antimáscara que, embora minoritários, se vão fazendo ouvir em alguns países. "Isso é sinal, por um lado, de que as pessoas estão saturadas. E encontram nesta desigualdade de comportamentos motivos para fundamentarem esses movimentos", diz Filipe Froes.

"Temos de perceber que estamos numa pandemia e não estamos a fazer a prevenção absoluta da doença, estamos a fazer a minimização do risco. É o somatório de várias medidas que minimizam o risco que fazem que os ganhos sejam maiores", resume o pneumologista, lembrando que este coronavírus foi identificado há pouco mais de nove meses: "Não há para este o nível de evidência que existe para outros micro-organismos."

Evidência de benefícios ao ar livre "é muito mais curta"

O infecciologista Jaime Nina destaca que "há um número muito limitado de estudos científicos empíricos e a maior parte deles não são feitos com vírus verdadeiros, há alguns feitos com adenovírus, mas são poucos, são feitos com substâncias que imitam o vírus. A solidez da evidência empírica é muito frágil".

Mas, dito isto, há um "consenso de que as máscaras diminuem acentuadamente o número de partículas, nomeadamente se uma pessoa tem uma máscara e tem um ataque de tosse, ou espirra, o número de partículas que envia para a atmosfera é muito menor. Numa máscara cirúrgica essa diminuição anda na casa dos 90%, ou até um pouco mais", diz ao DN, retirando daqui uma conclusão clara: "Vale a pena usar máscara."

O que é tanto mais relevante perante uma doença em que há infetados que não têm sintomas: "A única maneira de estas pessoas não estarem a infetar a comunidade é todas as pessoas usarem máscara. Isto é particularmente importante em circunstâncias facilitadoras do contágio, por exemplo locais fechados."

Jaime Nina tem bastantes mais dúvidas quanto ao uso em espaços ao ar livre. "A evidência que está disponível neste momento apoia fortemente a utilização de máscaras, particularmente em espaços fechados", mas ao "ar livre essa evidência é muito mais curta, o vírus dilui-se rapidamente", diz o infecciologista, para quem esta circunstância explica a multiplicidade de decisões diferentes a que se vai assistindo na Europa.

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