Morte de Bruno Candé. PJ não exclui crime racial, mas mantém opções em aberto

Arma utilizada no homicídio fora furtada à PSP nos anos 90. Assassino confesso negou, à Judiciária, ter sido motivado por ódio racial. Diz que fora agredido dias antes pela vítima.

A Polícia Judiciária, que investiga o homicídio do ator Bruno Candé, não exclui a hipótese de motivação racial no crime, mas também ainda não tem elementos que lhe permitam estabelecer, para além da dúvida razoável, se de facto foi esse o móbil do homicida confesso, segundo apurou o DN.

Isto porque, perante esta força policial -- que é quem tem a competência de investigar o crime, ocorrido no sábado, na Avenida de Moscavide, Loures -- o autor dos disparos negou tê-lo feito por motivos racistas.

Segundo fonte policial, o homem, de 80 anos, afirmou ter querido vingar-se de uma agressão que teria sofrido dias antes -- um suposto empurrão -- em mais um episódio de um conflito já antigo que tinha com a vítima, por causa da sua cadela.

O animal estava junto ao ator, na paragem de autocarro onde este estava sentado quando o idoso se aproximou dele e, em plena luz do dia, disparou quatro tiros à queima-roupa.

A arma utilizada, segundo a referida fonte, era uma antiga arma policial, desaparecida da PSP nos anos 90.

O homem foi imediatamente imobilizado por transeuntes no local. Bruno Candé não resistiu aos ferimentos, no pescoço e no peito.

Populares na zona, ouvidos esta segunda-feira por vários meios de comunicação social, falam em racismo, afirmando que o autor dos disparos terá dito palavras como "vai para a tua terra" e "volta para a sanzala". Também a SOS Racismo veio falar em "assassinato racista".

No entanto, só a investigação poderá confirmar se tal de facto foi o móbil do crime.

O que não se confirma é a informação, veiculada esta segunda-feira, de que o homem é um enfermeiro reformado. Segundo fonte da PJ, na realidade ele foi auxiliar de limpezas num centro hospitalar.

A PJ prossegue a investigação ao caso, o que incluirá o facto de o autor dos disparos ter sido militar no ultramar. Este, fica a aguardar o desenrolar o inquérito em prisão preventiva.

Quem era Bruno Candé?

Bruno Candé Marque vivia atualmente no Casal dos Machados, na freguesia do Parque das Nações, perto do local do crime. A família era oriunda da Guiné- Bissau mas Bruno nasceu a 18 de setembro de 1980 já em Portugal. Cresceu na Zona J, de Chelas, esteve na Casa Pia de Lisboa e desde muito novo que queria fazer teatro, tendo inclusivamente frequentado um curso de representação no Chapitô, durante um ano.

Mónica Calle conheceu-o em 2010, quando a Casa Conveniente ainda era no Cais do Sodré, numa altura em que a encenadora tinha um projeto com os reclusos da prisão de Vale de Judeus. Em 2015, Candé contou ao Observador o encontro que mudaria a sua vida: "Foi o Boss [de seu nome Mário Fernandes, um dos ex-reclusos que trabalhou com Mónica Calle em Vale de Judeus] quem me trouxe para cá. Mas não foi fácil, não foi fácil. O Boss sempre foi um gajo que anda sempre na brincadeira, na "reinação" com toda a gente, e quando ele me disse que fazia teatro, e que queria que eu fosse lá com ele, eu achei que ele estava no gozo, tás a ver? Nem liguei. Mas ele insistiu, e um dia disse-me, se não quiseres vir, não vens. Fica para aí na tua vida! Ele tanto marrou comigo, vamos, vamos, vamos!, que eu abri a pestana e lá fui, ao Cais do Sodré. Mas calma... quando lá cheguei, disse: é aqui? É aqui que vão fazer teatro? Estava à espera de um palco, de uma cortina, de uma plateia. Não havia nada disso. Mas logo que comecei a trabalhar com ela [Mónica Calle], percebi que tudo aquilo fazia sentido exatamente como era."

O primeiro espetáculo em que participou foi A Missão - Memórias de Uma Revolução, de Heiner Müller (espetáculo que acabou por ganhar um prémio da Sociedade Portuguesa de Autores) e, desde então, continuou a trabalhar regularmente com a Casa Conveniente. Em 2011 entrou em Macbeth, ao lado de José Raposo e Mónica Garnel. Pudemos vê-lo ainda em Rifar o Meu Coração (2016, de Mónica Calle), Drive In de Mónica Garnel, Atlas de João Borralho e Ana Galante, entre outros espetáculos. Quando não estava no palco, trabalhava como assistente ou dando apoio técnico na Casa Conveniente, como se lê nas fichas técnicas dos espetáculos A Boa Alma ou Os Sete Pecados Mortais.

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