Ministra da Saúde. "Ninguém conseguiria aplicar um plano desenhado a régua e esquadro"

Em resposta às críticas de médicos e administradores hospitalares ao plano para o outono-inverno do Serviço Nacional de Saúde, apresentado nesta semana, Marta Temido lembrou que o que está escrito são pistas, garantindo que vão ser dadas "respostas práticas que façam a diferença na vida das pessoas".

O Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21 é um papel e o que se vai fazer com esse papel é que fará "a diferença na vida das pessoas", disse a ministra da Saúde, nesta quarta-feira, depois de médicos e administradores hospitalares terem criticado o documento. Consideraram-no "aquém das expectativas", sem explicações práticas e sem metas.

"Ninguém conseguiria aplicar um plano desenhado a régua e esquadro, ao milímetro e desenhado em serviços centrais", apontou Marta Temido, em resposta ao DN, durante a conferência de imprensa no Ministério da Saúde onde é feito habitualmente um balanço da situação epidemiológica do país.

"O nível de implementação passa pelas Administrações Regionais de Saúde (ARS), por isso, temos nelas direções técnicas altamente capazes de interagir com os agrupamentos de centros de saúde e com as unidades hospitalares para providenciar as melhores respostas em proximidade", continuou a responsável pela pasta da Saúde, que garantiu ainda: "Estamos a trabalhar para que o plano da Saúde não seja um papel, sejam respostas práticas, que façam a diferença na vida das pessoas."

Esta é precisamente a preocupação de médicos e administradores hospitalares, que na segunda-feira, depois de o projeto ter sido conhecido, se mostraram desiludidos com o conteúdo do relatório. Na teoria, as intenções são boas, diziam o bastonário da Ordem dos Médicos e o presidente dos Administradores Hospitalares, ao DN. Na prática, faltam explicações sobre como vai ser executado e, em muitos casos, é uma repetição da resposta anterior.

"Se isto tivesse sido publicado em junho, era uma coisa. Agora, já devíamos estar a perceber os efeitos da implementação", referiu Alexandre Lourenço, o presidente da Associação de Administradores Hospitalares. "Está aqui a dizer que no início do outono - que é hoje - temos de planear a vacinação sazonal ou que é preciso ter hospitais covid free, quando andamos a dizer isso desde abril. Sinceramente, há aqui muitas matérias que pensava que já estavam decididas."

A ministra da Saúde realça que "há uma margem de adaptação que está prevista" e que aquilo a que o plano se propunha - identificar os desafios para as próximas duas estações do ano e as estratégias de ação - foi cumprido.

O documento prevê um aumento da capacidade de testagem do país, nomeadamente de exames regulares a profissionais de saúde; a definição de novos circuitos de tratamento, com áreas dedicadas para doentes respiratórios; maior colaboração dos cuidados de saúde primários e de hospitalização domiciliária; um reforço da vacinação contra a gripe; e armazenamento de equipamentos de proteção individual e medicamentos. Fala num sistema de vigilância epidemiológica distrital, em hospitais de retaguarda para doentes com alta médica que continuem a ocupar camas hospitalares, uso de máscara ao ar livre sempre que não esteja garantido o distanciamento físico e a criação de uma task force dedicada a doentes não covid.

Hospitais livres de covid? IPO

Questionada sobre quais os hospitais livres de covid que estão previstos no documento, embora sem nomes associados, Marta Temido referiu o caso dos três Institutos Portugueses de Oncologia (em Lisboa, no Porto e em Coimbra). "São hospitais onde os casos de covid diagnosticados são reencaminhados para outras estruturas e é essa a lógica que está subjacente a este plano", confirmou a ministra.

Quanto aos outros, numa fase "de relativa normalidade na resposta à pandemia", todas as unidades hospitalares tenderão a receber infetados com o novo coronavírus, através de circuitos devidamente assinalados para o efeito.

"O setor privado está claramente nestas respostas e precisamos também do seu apoio"

Outro ponto no documento que gerou alguma indignação por parte da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada foi a ausência de uma menção aos setores privados e sociais. No entanto, a ministra da Saúde fez questão, nesta quarta-feira, de reafirmar o interesse do SNS na colaboração com estes dois setores.

Tal como até então, está previsto que o privado continue a realizar testes de rastreio à covid-19 e a comunicar os resultados laboratoriais. Atualmente, o SNS é responsável por quase 50% dos exames, informou Marta Temido, sendo os restantes distribuídos entre os privados e os laboratórios académicos.

Ou seja, "o setor privado está claramente nestas respostas e precisamos também do seu apoio".

Circunstâncias em que serão usados testes rápidos vão ser conhecidas no final da semana

O plano prevê também a utilização de testes rápidos de rastreio à covid-19 em Portugal, que podem diminuir o tempo de espera dos resultados para 60 minutos. Apesar disto, as circunstâncias concretas do seu uso ainda não são conhecidas e a ministra remete esta informação para o final da semana.

"A utilização deste testes ainda não está recomendada para diagnóstico de casos de infeção. Até ao final da semana teremos uma definição sobre as circunstâncias em que podem ser utilizados", disse Marta Temido, antes de lembrar que estes tipo de exames "não eliminam a hipótese de casos negativos falsos", por terem "baixa sensibilidade em assintomáticos e pessoas com carga viral baixa". Por isso, a sua utilização deve ser muito ponderada.

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