Marcelo Rebelo de Sousa: Vandalizar estátuas é "imbecil"

Presidente da República avisou que a pandemia não desapareceu e Portugal tem de se preparar para uma crise ainda pior do que a atual. A possibilidade de Centeno ir para Governador do Banco de Portugal e a tomada de posse do novo Ministro das Finanças, João Leão também foram abordados.

Vandalizar estátuas é um ato "imbecil". A declaração é de Marcelo Rebelo de Sousa, que defende que o património que existe ligado à cultura e à história "têm de ser consideradas na época em que se viveram". E por isso nada "justifica vandalizar ou destruir" monumentos "que são testemunhos da personalidade da nossa história".

"Senão começávamos no D. Afonso Henriques, que perseguiu muçulmanos e acaba na Torre de Belém e nos Jerónimos. Vai tudo", atirou o Presidente da República, que nunca gostou "da ideia de queimar livros ou destruir estátuas". Para ele "julgar a história hoje, para o passado é um risco".

Para o presidente o que foi feito com a estátua do padre António Vieira, em Lisboa, "demonstrou ignorância e imbecilidade". "É imbecil porque é difícil não saber quem foi uma das grandes personalidades da história do país. Foi um grande diplomata", defendeu Marcelo, lembrando que ele "perseguido pela Inquisição" e "foi o maior orador português da sua época". Por isso, "ser considerado um exemplo do que se quer demolir na nossa história é uma coisa verdadeiramente imbecil".

"Não sei se a sociedade portuguesa é, como um todo, racista. Agora que há setores racistas e xenófobos em Portugal, há", disse Marcelo Rebelo de Sousa, preocupado com "a radicalização da sociedade portuguesa". "Estamos a viver uma pandemia e, no momento em que temos uma crise económica e social, vamos juntar a isso a radicalização, gratuita, da sociedade portuguesa, que se alimenta reciprocamente, que não é tratar seriamente os problemas ou definir políticas contra as desigualdades", defendeu, lembrando que "o radicalismo puxa radicalismo".

E deixou no ar uma questão:"O povo português ganha alguma coisa com essa radicalização gratuita e não inteligente? Acho que não."

Crise pior do que a atual

Depois de uma teleaula, na RTP Memória, onde fez um balanço na pandemia, o presidente da República contornou depois o assunto da possível ida de Mário Centeno para Governador do banco de Portugal. Quando questionado sobre as declarações do primeiro-ministro a propósito da iniciativa parlamentar para instituir um período de nojo para impedir que ex-governantes passem para governadores do Banco de Portugal, Marcelo repetiu que não via problema em membros do Ministério das Finanças passarem a governadores do Banco de Portugal. "Sobre a lei só me posso pronunciar conhecendo o teor da lei. Entendo que não devo pronunciar-me sobre isso, a lei ainda não está votada, e o papel do Presidente da República é manter o contacto com os vários órgãos de soberania, deve ser fator de união e não de divisão", disse.

Centeno foi substituído por João Leão na pasta das finanças. Uma nomeação que não mereceu "nenhum reparo" por parte do Presidente, uma vez que "era um colaborador muito próximo do ministro cessante", pois, considera importante continuar "a mesma linha política em matéria financeira e orçamental".

Até porque, na opinião de Marcelo, o País vai "viver uma crise pior" do que a que está a viver neste momento. E também por isso apelou ao "diálogo responsável" dos partidos, que se preparam para votar o Orçamento Suplementar do governo na quarta-feira. "Às vezes esquecemo-nos mas o vírus não desapareceu, ainda não há vacinas, portanto o que eu penso é que, sendo legítimo haver pluralismo de opinião em democracia, todos terão presente a importância de não perderem canais de diálogo que existiram. Vamos viver uma crise pior do que a que neste momento vivemos, e quanto mais tempo durar a pandemia maior será a crise. Com as economias semi-paradas é evidente que todos sofrem", disse, justificando que não apela à aprovação do orçamento, porque "os nossos responsáveis políticos são responsáveis e são livres de escolher o seu caminho", conscientes de que a pandemia ainda não acabou e o diálogo é uma boa arma de combate.

Presidente "estupefacto" com Novo Banco

Marcelo Rebelo de Sousa foi ainda questionado sobre a possibilidade de o Novo Banco vir a precisar de uma injeção de capital adicional devido ao impacto da pandemia, tal como admitu o presidente do banco, António Ramalho. "Vi a notícia. Fiquei estupefacto, mas não comento esse tipo de notícia para não entrar em questões concretas das instituições financeiras", disse o presidente, que esteve no meio da uma crise política entre o primeiro-ministro e o agora ex-ministro das finanças por se mostrar contra a transferência de 850 milhões de euros para a instituição bancária sem ser concluída a auditoria.

A recapitalização do Novo Banco totaliza 2978 milhões de euros, 2130 milhões de empréstimos do Tesouro.

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