Intervalos para brincar e normas flexíveis. Os conselhos dos pediatras para o regresso às aulas

Sociedade Portuguesa de Pediatria divulgou uma carta em que refere que ensino à distância prejudicou muitas crianças e que o risco destas contraírem uma infeção pelo novo coronavírus na escola é inferior a outras atividades praticadas na comunidade.

A maioria das crianças infetadas com o novo coronavírus são assintomáticas ou têm sintomas ligeiros, mas estas podem ser veículos de transmissão da doença para grupos mais vulneráveis. Em Portugal, foram registados 2157 casos de covid-19 em crianças até aos 9 anos e uma morte (de uma bebé com 4 meses com outra patologias associadas). No entanto, a possibilidade de terem doença mais ligeira não descansa os pais, principalmente numa altura em que o regresso às aulas presenciais se aproxima.

Para a Sociedade Portuguesa de Pediatria há mais a ganhar do que a perder com o ensino presencial. Numa carta aberta, divulgada no seu site, os especialistas defendem que a escola virtual terá implicações sérias no desenvolvimento das crianças e que o risco do ensino presencial é inferior ao risco a que as crianças estão expostas noutras situações do seu dia-a-dia. Os pediatras acrescentam ainda que, nos países onde as crianças já regressaram às salas de aulas, não há notícia de um aumento significativo de surtos associados a esta realidade.

Acreditam, portanto, que é possível planear uma retoma segura do ensino presencial, tendo em conta as orientações sanitárias das autoridades de saúde. "Para proteção de todos, o mais importante continua a ser o comportamento responsável dos adultos, na escola mas também na comunidade, com cumprimento estrito das normas de distanciamento social físico e de higienização recomendadas, o isolamento precoce de casos sintomáticos e o rastreio rápido dos contactos", dizem no documento assinado pela direção da Sociedade Portuguesa de Pediatria e pela direção do Colégio de Especialidade de Pediatria da Ordem dos Médicos.

Para que tudo corra bem, sugerem:

- O afastamento entre diferentes grupos de crianças, devendo dentro do mesmo grupo manter-se a normalidade das relações sempre que possível.

- O intervalo deve continuar a ser um espaço de descontração e onde seja possível brincar.

- Deve haver flexibilidade no cumprimentos das normas.

- Para as crianças que entram pela primeira vez na escola, os pediatras pedem que sejam criadas condições para que os familiares possam levá-las até à sala, contribuindo para uma adaptação mais fácil.

Sobre a possibilidade de as crianças virem a utilizar máscara dentro das salas de aulas, os especialistas defendem que ainda não existem orientações científicas que comprovem a eficácia deste método.

Ensino presencial tem mais vantagens do que riscos

Os pediatras mostram-se muito seguros do impacto negativo do ensino à distância em idade pediátrica, mencionando que este contribuiu para acentuar as desigualdades entre as crianças.

"A interrupção das atividades escolares e extraescolares ditada pelo confinamento teve grande impacto na saúde das crianças, a nível da aprendizagem, da socialização e da saúde mental", afirmam, apresentando como exemplo o aumento da dificuldade de concentração.

"A escola deixou de ser o espaço para brincar, processo essencial ao desenvolvimento infantil, e o espaço seguro, onde existe alimento e ternura, tão necessários em alguns casos. Foi exigido enorme esforço às famílias na conciliação entre o trabalho e a vida familiar, que não poderá prolongar-se no tempo. São todas fortes razões para que se retome o ensino presencial", sublinham.

Para estes especialistas, a informação disponível sobre a transmissão do vírus SARS-CoV-2 "é escassa", mas sugere que as crianças não "sejam o grande veículo de transmissão da infeção".

"Embora seja fundamental manter vigilância, pois os dados podem vir a sofrer alterações com a reabertura total das escolas, até agora as crianças parecem ter menor probabilidade de contrair a infeção na escola do que na comunidade", dizem.

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