Inquérito a Tancos arranca hoje com tensão entre CDS e esquerda

O objetivo da comissão é "identificar e avaliar os factos, os atos e as omissões" do Governo relacionados com o furto

A comissão de inquérito ao furto de material militar em Tancos começa hoje os seus trabalhos, no Parlamento, em ambiente de tensão entre o CDS e os partidos de esquerda, PCP, PS e BE.

O objetivo da comissão, lê-se na resolução do CDS-PP aprovada no parlamento em 26 de outubro, é "identificar e avaliar os factos, os atos e as omissões" do Governo "relacionados direta ou indiretamente com o furto de armas em Tancos", de junho de 2017, data do furto, ao presente, e "apurar as responsabilidades políticas daí decorrentes".

A lei fixa em 180 dias o prazo para a conclusão de um inquérito parlamentar, podendo, porém, ser decidido o prolongamento do mandato por mais 90 dias.

Hoje, os deputados vão votar o regulamento e decidir a metodologia de trabalho, incluindo as entidades e personalidades a ser ouvidas.

Os centristas, através do deputado Telmo Correia, acusaram os três partidos de, "no limite", estarem a pôr "entraves e dificuldades" ao inquérito por defenderem a devolução dos documentos enviados pela Procuradoria-Geral da República (PGR), e em segredo de justiça, na posse da comissão parlamentar de Defesa Nacional, em vez de os remeter à comissão de inquérito.

Na segunda-feira, PS, PCP e BE exigiram que toda a documentação enviada pela PGR sobre o furto de Tancos, em segredo de justiça, deve ser devolvida e não transferida para a comissão de inquérito.

A proposta com vista à devolução à PGR dos documentos foi feita pelo PCP, em 31 de outubro, e teve o apoio de socialistas e bloquistas, reafirmada depois pelos coordenadores do PS (Ascenso Simões) e João Vasconcelos (BE).

Em 11 de outubro, a PGR enviou ao parlamento um conjunto de documentos com "informação processual" relativa ao furto de material militar dos paióis de Tancos, na sequência de um requerimento da iniciativa do CDS-PP visando que o titular da investigação criminal esclarecesse se, de facto, a lista do material militar furtado e a lista do que foi recuperado estava em segredo de justiça, como alegou em julho o ex-chefe do Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, para não a entregar na Assembleia da República.

Na altura, Marco António Costa, presidente da comissão, solicitou um esclarecimento adicional à PGR sobre quais os documentos enviados estavam em segredo de justiça para, em função da resposta, a comissão decidir como os manusear.

A resposta chegou em 30 de outubro, através de uma carta assinada pelo procurador que conduz o processo, João de Melo, na qual clarificava que não se opunha à divulgação das listagens da Polícia Judiciária Militar do material furtado e do material recuperado alguns meses depois, na Chamusca, Santarém.

Além das listagens do material furtado participado pela PJM em 29 de junho de 2017, a Procuradoria Geral da República enviou ao parlamento outros elementos do processo, mas entendeu que sobre esses documentos "deve ser mantido o segredo de justiça" por quem os consultar.

O furto do armamento dos paióis de Tancos foi noticiado em 29 de junho de 2017, e, quatro meses depois, foi recuperada parte das armas.

Em setembro, a investigação do Ministério Público à recuperação do material furtado, designada Operação Húbris, levou à detenção para interrogatório de militares da Polícia Judiciária Militar e da GNR e foi nessa altura que o CDS anunciou a comissão de inquérito, aprovada apenas com a abstenção do PCP e do PEV.

Este caso já levou à demissão do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, substituído por João Gomes Cravinho, e do Chefe do Estado-Maior do Exército Rovisco Duarte.

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