Crianças em isolamento não devem estar em contacto com avós ou idosos

Até agora, o coronavírus tem poupado as crianças. No mundo, não há casos de morte dos zero aos 10 anos. Há crianças infetadas, mas que têm manifestado a doença de forma muito ligeira. Porquê? Não se sabe. Em Portugal, especialista alerta para o facto de crianças em isolamento não deverem estar em contacto com os avós porque "estes são um grupo de risco".

Desde que o covid-19 foi identificado que muito se tem falado de como este atinge ou não as crianças até aos 10 anos e os jovens. Uma coisa os cientistas sabem: as crianças são infetadas, mas quando manifestam a doença é de forma ligeira. Porquê? Ainda não se sabe.

Em Portugal foram contabilizados, até esta segunda-feira, 39 casos positivos, mais nove do que no dia anterior, estando sete internados em unidades do norte e dois em Lisboa e Vale do Tejo. Destes, cinco são crianças e jovens, dos 10 aos 19 anos, dois rapazes e três raparigas.

O pediatra da unidade pediátrica de cuidados intensivos do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), Francisco Abecasis, alerta para os casos em que os avós também são cuidadores das crianças. "Há muitos casos em que os avós até são os principais cuidadores das crianças, e este é um verdadeiro problema, porque eles são um grupo de risco."

O médico argumenta com um facto simples: "Quando uma escola encerra porque há necessidade de isolamento profilático, muitos pais têm necessidade de deixar os filhos com os avós. É um problema, porque as crianças ou são assintomáticas ou muito pouco sintomáticas, mas podem infetar outros, como tem estado a acontecer."

Francisco Abecasis afirma: "Está tudo muito preocupado com as criança, mas já se percebeu que elas vão ser as mais poupadas a esta epidemia, como já o foram a outras, caso da gripe A. Devíamos era estar preocupados com os idosos, com os lares, etc."

O pediatra referiu ao DN que não é a primeira vez que os mais novos, sobretudo até aos 10 anos, são poupados às epidemias e até a outras doenças, como a legionela, "agora exatamente porquê? Não se sabe". Francisco Abecasis exemplifica: "A doença do legionário não atinge crianças e jovens abaixo dos 16 anos e, tanto quanto sei, ainda não se sabe porquê."

Quanto ao coronavírus, esta imunidade ao vírus nada tem que ver com o facto de estarem em idade de vacinação em relação a algumas doenças bacterianas e virais. O médico refere que "as vacinas servem para proteger em relação a outras doenças, não em relação ao covid-19 ou até à do legionário".

Mas há algumas teorias. "Há quem defenda que tal pode acontecer porque as crianças estão constantemente a contactar com vírus novos, sendo mais fácil o seu sistema reagir a um vírus novo do que o de um adulto ou idoso. A população adulta não tem tanta imunidade contra os vírus e, por isso, quando aparece um novo é diferente e afeta-a mais."

Estudo de cientistas chineses confirma que crianças são tão infetadas quanto os adultos

Um estudo realizado pela Universidade de Shenzen, na China confirma exatamente tudo isto. As crianças são infetadas, mas não desenvolvem sintomas graves associados ao coronavírus. A taxa de letalidade é muito baixa dos 10 aos 19 anos, 0,2%, e abaixo dos zero aos 10 não há sequer no mundo um caso de morte.

Porém, antes de este estudo, "não se sabia se tal acontecia porque as crianças não eram infetadas ou se o seu organismo, de alguma forma, enfrenta melhor a infeção". Agora, sabe-se que elas também são infetadas e tão facilmente quanto os adultos.

Os cientistas do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de Shenzen analisaram detalhadamente os casos de 391 pessoas infetadas por covid-19 e acompanharam 1286 dos seus contactos mais próximos para saber se tinham contraído o vírus mesmo que não apresentassem sintomas.

Segundo os cientistas, foi o maior estudo feito até agora, dois meses e meio depois da identificação do vírus, que veio confirmar que as crianças dos zero aos 10 anos expostas ao vírus são infetadas da mesma forma que os adultos e com a mesma taxa de infeção, que ronda os 8%.

Perante tais conclusões, os epidemiologistas norte-americanos Ben Cowling e Justin Lessler salientaram: "Descobrir o que torna as crianças mais resistentes ao coronavírus constitui um desafio" para a medicina.

Nesta segunda-feira, dia 9, há já várias escolas fechadas em Portugal e centenas de alunos em isolamento profilático. É o caso de todas as escolas de Felgueiras e Lousada, no norte, de duas na região da Grande Lisboa, Escola 2,3 Roque Gameiro e a Escola Secundária da Amadora, e duas em Portimão, a Escola Secundária Teixeira Gomes, frequentada pela jovem que deu positivo ao covid-19, e outra onde a mãe desta, também confirmada como caso, era professora.

O mesmo estudo revela outro facto importante e que tem que ver com a transmissão: morar na mesma casa do que uma pessoa infetada aumenta seis vezes o risco de contrair o vírus em relação a todas as outras com que contacta.

O vírus é recente e há ainda muito por descobrir. Aliás, este tem sido um dos problemas no combate ao vírus. Mas em todo o mundo já há cientistas a estudá-lo. A China é o país que mais sabe, até porque o aparecimento desta estirpe de coronavírus surgiu na província de Hubei, cidade de Wuhan, principal epicentro de propagação do vírus para o resto do mundo.

Ao final da tarde desta segunda-feira, os dados mundiais apontam para quase 114 mil infetados, quase quatro mil mortes e 63 mil recuperados. A faixa etária mais afetada é a dos idosos com mais de 80 anos, registando uma taxa de letalidade de 21,9%, enquanto nas faixas dos 10 aos 49 anos esta oscila entre os 0,2% e os 0,4%.

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