"Estão a matar os que querem trabalhar". Centenas manifestam-se por medidas para salvar restauração

Empresários, trabalhadores e respetivas famílias ligados aos setores da hotelaria, restauração e bares e discotecas, eventos e cultura juntaram-se ao início da tarde no Rossio, em Lisboa, para mostrar indignação sobre a falta resposta do governo de António Costa à crise acrescida trazida pela pandemia da covid-19.

Com ânimos exaltados, mas controlados, palavras de ordem como "Estão a matar os que querem trabalhar", acompanhadas ora pelo hino de Portugal, ou por "Grandola Vila Morena" os organizadores da manifestação, onde se destacou o chef Ljubomir Stanisic, dono do restaurante 100 Maneiras, em Lisboa, apresentaram uma série de medidas para tentar salvar o setor do turismo, onde se engloba a restauração, eventos, bares e discotecas e hotelaria.

"Estamos fartos das falsas promessas que temos recebido", disse Stanisic em cima de um palco improvisado mesmo em frente ao pórtico do Teatro D. Maria II, para várias centenas de pessoas.

A manifestação, permitida por lei apesar do recolher obrigatório, realizou-se com o apoio da PSP e de forma apartidária - como não se cansou de repetir o chef Ljubomir Stanisic - veio reivindicar várias medidas ao executivo de Costa através de um manifesto que engloba trabalhadores da hotelaria, arte, cultura, pequenas e medias empresas, restaurantes, transportes privados, autocarros.

"Há oito meses ainda antes do governo o decretar muitos de nós tomaram a decisão de fechar os nossos estabelecimentos em nome da saúde pública, seguindo todas as normas quando, em maio muitos abriram", explicou Paulo Silver, produtor de eventos. Que, de seguida apontou algumas das medidas exigidas pelos manifestantes para salvar os profissionais dos setores representados:

Apoios a fundo perdido para compensar os prejuízos acumulados ao longo de 8 meses no setor dos bares e discotecas, eventos, restauração, comércios e todos os fornecedores diretos e indiretos; apoios pela redução de horários à restauração e comércio; reposição do horário de funcionamento de restaurantes, bares e comércio local; apoio ao pagamento de rendas; pagamento do IVA automaticamente aprovado em seis prestações; reforço imediato das linhas de crédito, retirando limitação de acesso às novas linhas a quem já recorreu a linhas anteriores; isenção de TSU até 30 de junho de 2021; Redução da taxa de IVA até 31 de dezembro de 2021.

Da Figueira da Foz e com alguns elementos da sua equipa estava, a empunhar um cartaz a reivindicar medidas, António Sanchez , proprietários de três restaurantes na Figueira dos quais um deles já teve de fechar, e dispensar cinco trabalhadores, contou ao Diário de Notícias. Disse ainda que a situação é insustentável e que espera por medidas para o setor para salvar os outros dois restaurantes.

Do norte, Alberto Cabral, empresário com seis bares e discotecas em Vila Real, Espinho, Macedo de Cavaleiros, Chaves e Santa Maria da Feira, acompanhado do seu cão e com um cartaz ao pescoço a dizer-se "cego de amor pela noite", contou ao DN que todos os meses perde 9 mil euros desde que fechou os seus bares e discotecas por causa da pandemia. "São cerca de 72 pessoas sem trabalho", afirmou. "Espero que o governo nos oiça", disse.

Os organizadores, sobretudo pela voz do chef Ljubomir Stanisic, repetiram várias vezes o apelo à não violência, sublinhando que era um protesto sem políticas e sem políticos e apelar ao cumprimento da distância de dois metros entre todos os presentes por respeito às normas de sáude pública.

André Ventura passou pelo Rossio quase despercebido, denunciaram-no a roda de seguranças e algumas pessoas com máscaras com o logotipo do Chega. Mas soube a organização do evento sublinhou que o manifesto é apolítico e não aprovava o aproveitamento do momento por alguns. Recado dirigido ao dirigente do Chega e a algumas bandeiras do Movimento Cumprir Portugal, prontamente recolhidas.

Depois do discurso de vários empresários dos setores representados no manifesto, acenderam-se tochas e foi feito um minuto de silêncio pelos empregos perdidos e pelas empresas que fecharam durante a pandemia da covid-19.

O Presidente da República considerou neste sábado, em Fátima, as manifestações "legítimas", mas apelou que os protestos decorram sem violência, para não agravar a situação existente provocada pela pandemia da covid-19.

O chefe de Estado sublinhou que a pandemia "é em si mesmo uma violência", a crise económica e social também "é em si mesmo uma violência".

"Não podemos ter nem crises políticas nem situações de tensão levadas à violência, porque dissolvem o tecido económico e social, o relacionamento entre as pessoas e precisamos dessa solidariedade", acrescentou.

Ao mesmo tempo que decorria o protesto no Rossio, o ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital anunciou, em conferência de imprensa que os apoios já disponibilizados ou anunciados para o setor da restauração na sequência da crise causada pela pandemia totalizam 1.103 milhões de euros, correspondendo a cerca de 60% do da quebra de faturação registada pelo setor.

O valor global engloba 286 milhões de euros de apoios que já chegaram às empresas deste setor por via do 'lay-off' simplificado e do apoio à retoma progressiva ou ainda os 200 milhões de euros para o novo programa apoiar.pt que consiste na atribuição de um apoio a fundo perdido às micro, pequenas e médias empresas para as compensar pela quebra de faturação.

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