A vida que se segue à morte do Palacete Domingos Afonso

Câmara tem vários estudos em andamento para reabilitar aquela zona do centro histórico, mas avisa que estão em fase preliminar. Trânsito deve ser reaberto esta terça-feira, após um fogo que causou alguma estranheza aos peritos e levou PJ a investigar

No domingo, foram três horas de inferno, que provocaram a morte ao centenário Palacete Domingos Afonso (de 1905, tudo indica), na Rua do Carvalhal, centro histórico de Braga. Ainda assim, um inferno dentro de um certo controlo: cinco corporações de bombeiros, 53 operacionais e vinte viaturas confinaram o ameaçador incêndio (cujas colunas de fumo podiam ser avistadas a quilómetros de distância) ao edifício arquitetado pelo suíço-português Ernesto Korrodi (Zurique, 1840 - Leiria, 1944). Salvaram-se, com alguns danos menores, as habitações contíguas. A origem do fogo está a ser investigada pela Polícia Judiciária de Braga e a morte do Palacete atraiu as atenções para a reabilitação daquela degradada zona nobre da capital do Minho, que a Câmara Municipal de Braga revelou ao DN ter alguma prioridade na agenda do executivo.

"Havia um projeto que caducou [da Rodrigues & Névoa, proprietária daquele edifício e outros dois contíguos], que estava relacionado com a parte interior, que decorreu com a abertura [em 1997, e posterior alargamento em 2009] do túnel que liga a Praça do Conde Agrolongo [Campo da Vinha] à Avenida da Liberdade", lembrou ao DN o vereador do Urbanismo, Miguel Bandeira. O referido projeto era para fins habitacionais, confirmou a empresa.

"O que se passa é que na Câmara de Braga há ideias para o arranjo interior do quarteirão, em diálogo com os proprietários, que não são só os do Domingos Afonso, para resolver o problema urbanístico", prossegue, referindo-se à degradação daquela zona nobre delimitada pelas ruas dos Capelistas, dos Chãos e do Carvalhal, e o Campo da Vinha. "Os nossos serviços têm já alguns estudos, mas estamos na fase preliminar. Há mais do que um técnico a trabalhar sobre isso, vamos confrontar as várias soluções nesta fase de anteprojeto, e depois proceder à resolução urbanística", garante Miguel Bandeira, responsável ainda pelos pelouros de Regeneração Urbana, Património, Relação com as Universidades, Planeamento, Ordenamento e Mobilidade.

A origem do fogo está a ser investigada pela PJ

"A intervenção no espaço é desde logo complexa porque tem um túnel rodoviário por baixo. E não estamos a falar só com um interlocutor, mas com vários", prosseguiu o edil. Por isso, mas porque a Câmara quer encontrar "a melhor solução possível" para servir "o interesse público com o acordo dos diversos proprietários", a "conclusão não será precipitada". Prevê-se um longo período de espera para a solução de um dos problemas urbanísticos do centro histórico de Braga. "Desde que este executivo tomou posse [2013] que pretende resolver essa questão patrimonial, mas sobretudo urbanística", diz. E conclui. "A mudança do mercado [obras de requalificação começam em breve] veio dar margem para resolver esta questão".

Um fogo monstruoso

Pouco depois das 16:00 de domingo, os Sapadores de Braga acudiram ao local, sendo que houve um momento caricato: a linha de socorro recebeu duas chamadas em simultâneo, uma para a Rua do Carvalhal, onde de facto estava a arder o Palacete Domingos Afonso, e outra para a Rua dos Congregados, também no centro, mas onde não decorria qualquer incidente.

Recentrados no essencial, os bombeiros (Sapadores de Braga já com o apoio dos voluntários de Braga, Amares, Taipas e Famalicenses) tiveram outra contrariedade. A Rua do Carvalhal não dispõe de qualquer boca de incêndio, encontrando-se a mais próxima a cerca de 150 metros do local do incêndio (na perpendicular Rua dos Chãos).

O que espantou os bombeiros, segundo contou um deles ao DN, foi a velocidade das chamas. "Quando chegámos, o edifício já estava tomado [destruído pelas chamas]. De noite, ainda se percebia que encontrássemos uma situação tão avançada, mas a meio do dia? Limitámo-nos a atacar os flancos para evitar que as chamas passassem para as habitações contíguas", confessou um bombeiro. A carga térmica era tão elevada que derreteu persianas dos prédios do outro lado da rua. "Houve um carro que estava estacionado do lado contrário da rua e que saiu daqui com os para-choques todos deformados pelo calor", revela outro.

Enquanto o DN se encontrava no local, já ao final da manhã desta segunda-feira, ainda caíam pedaços de persianas dos prédios em frente ao edifício fumegante. Os operacionais, ainda assim, conseguiram confinar o incêndio ao já destruído palacete, que ficou apenas com a fachada de pé. Morreu com a fachada de pé.

Dois agentes da brigada de incêndios da Polícia Judiciária estiveram duas vezes no local, na noite de domingo e na manhã desta segunda-feira. "Está sob investigação", limitou-se a informar a polícia de investigação.

"Viemos com a auto escada demolir as partes em risco de derrocada no exterior, que já não oferece perigo", informava, por volta do meio-dia, o chefe Mota, responsável pelo rescaldo dos Sapadores de Braga. A equipa de engenharia da Rodrigues & Névoa revelou que esta terça-feira já deverá ser possível reabrir a via ao trânsito. "Hoje devemos conseguir limpar o entulho do exterior, mas só amanhã poderemos trabalhar no interior", disse ao DN a engenheira Cristina Sá.

A engenheira reuniu-se esta segunda-feira de manhã com a Proteção Civil Municipal, liderada por Vítor Azevedo. Ficaram definidos os trabalhos necessários.

Ao DN, Vítor Carvalho reforçou a estranheza em relação à forma como acelerou o fogo. "É a minha opinião pessoal, mas um edifício devoluto que não é habitado e começa a arder do nada?", interrogou-se.

O homem e a obra

O Palacete Domingos Afonso é uma das obras emblemáticas de Ernesto Korrodi, um suíço que chegou a Braga em 1889 para lecionar na Escola Industrial e Comercial de Braga, onde ficaria até 1894, quando se transferiu para a homóloga de Leiria (onde morreria já com nacionalidade portuguesa, em 1944). No Minho, seria o responsável por outras obras emblemáticas: o coreto do Parque da Ponte, (crê-se que) a Casa da Mata, em Semelhe (arredores), o Palácio de Dona Chica (Palmeira, arredores) e o castelo do Bom Jesus.

O palacete, construído para uma família com fortes ligações ao Brasil, teve muitas utilizações: foi uma fábrica de confeções e serviu vários consultórios médicos, entre muitos outros fins. Antes da abertura do túnel que liga o Campo da Vinha à Avenida da Liberdade, em 1997, já o edifício estava desabitado. Foi, como referiu Miguel Bandeira, morada de indigentes (toxicodependentes usaram as instalações para consumo de drogas e refúgio), vítima de um punhado de pequenos incêndios e de acentuada degradação nas duas últimas décadas.

Há meia dúzia de anos, disse a proprietária Rodrigues & Névoa ao DN, foram emparedados os acessos frontais e das traseiras. Um bombeiro, que na manhã desta segunda-feira estava envolvido na equipa de seis operacionais dos Sapadores de Braga em ação, referiu que já não havia notícias recentes de ocupação indigente, apesar de terem notado um pequeno buraco nas paredes de proteção erigidas na parte de trás do palacete.

O palacete teve muitas utilizações: entre outros fins, foi uma fábrica de confeções e serviu vários consultórios médicos

O nome de Korrodi, que chegou a liderar uma comissão de obras afeta à Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em 1921, está associado a cerca de 400 edifícios e construções, muitas delas em Leiria, mas espalhadas um pouco por todo o país. Em Lisboa, o edifício no número 5 da Rua do Viriato, em Lisboa, ganhou o Prémio Valmor de 1917.

Voltando ao Domingos Afonso: é um palacete urbano, cuja tipologia é inovadora na sua inserção urbanística nos finais do século XIX, de gosto europeu, designadamente no palacete urbano francês inserido na retificação urbanística. O DN contactou vários especialistas em património, incluindo Regina Soares, que em dezembro de 2012 submeteu com sucesso uma dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura na Universidade de Coimbra intitulada "Ernesto Korrodi: A Habitação na Imagem da Cidade de Leiria". A tese foi orientada pelo Professor Doutor Rui Lobo (Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra) e teve co-orientação do malogrado Professor Doutor Paulo Varela Gomes, escritor e historiador falecido em abril de 2016.

A grande questão era apurar o ano da construção do Domingos Afonso. Com pouca documentação existente, sabe-se que foi construído em inícios do século XX. Parece consensual na comunidade que, muito provavelmente, em 1905.

Mandado construir por Domingos Afonso, personalidade distinta na vida local bracarense, cuja família fizera fortuna no Brasil no último quartel do século XIX, foi um palacete urbano de estilo eclético do virar dos séculos XIX e XX. A casa evidencia um estilo composto por diversas referências neoclássicas, com apontamentos de arte nova (vãos tripartidos, revestimentos de azulejos e grades de ferro forjado).

O terceiro piso correspondia ao aproveitamento do vão da cobertura e afirmava-se pelo conjunto de janelas do tipo mansarda. O palacete foi ligado a outro prédio por uma passarela em cantaria e um grande terraço, sob o qual se situava um pavilhão que abria para o jardim e era luxuosamente decorado com pinturas e tetos de madeira. O interior era igualmente extremamente decorado, com pinturas parietais, tetos decorados (pintados ou com entalhamento de madeira) e estuques. Exteriormente, os vãos de cantaria, tripartidos, casavam-se com os azulejos, num magnífico traçado que se filiava na arquitetura dos "chalets" oitocentistas.

Toda esta riqueza arquitetónica levou à tentativa de classificação como património municipal, um processo que este ano, por razões diversas, não teve seguimento e nem chegou a entrar na Câmara de Braga.

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