"A oferta de transportes poderá ser de 130%. Será gerida de acordo com as necessidades"

Os transportes públicos da Área Metropolitana de Lisboa estarão a funcionar em pleno em setembro? E não constituirão um risco para a saúde pública, como se sugeriu em junho e julho? Que impacto teve a pandemia no passe Navegante e nas transformações que estão previstas para o setor nesta região? Carlos Humberto, primeiro-secretário da AML, responde a estas e outras perguntas e diz que " vamos ter aqui uma espécie de geometria variável".

Anunciou recentemente que em setembro a oferta de transportes públicos seria reposta a 100% na Área Metropolitana de Lisboa. Tendo em conta as orientações da Direção Geral de Saúde, que determina que os transportes não devem exceder um terço da sua lotação máxima, e as queixas pré-pandemia, de sobrelotação de alguns deles, é suficiente voltar ao que já existia?
Estamos a acompanhar atentamente esta situação. Não conseguimos ainda dar respostas definitivas, mas estamos a considerar que a partir de meio de setembro, com a retoma da atividade económica, do regresso ao trabalho, que desejamos todos que seja grande, e o início do ano letivo, exista necessidade do reforço dos transportes.

A capacidade de resposta dos transportes rodoviários é maior do que a da ferrovia, porque a CP e o Metro, no fundamental, tudo o que têm disponível estão a oferecer, de acordo com aquilo que sabemos, ainda que se admita que até ao fim do ano venha a existir possibilidade de reforço.

Os operadores públicos estão quase todos com 100% de oferta, sejam rodoviários, ferroviários, fluviais ou metro. Os operadores privados em média estavam no fim do mês passado, com cerca de 93%.

O que estamos a admitir, mas não estamos em condições de afirmar definitivamente, é que tudo indica que é possível oferecermos 100%, mas podemos optar por não ser uniforme, mantendo nuns sítios os 90 ou subir para os 95 e noutros subir para os 120 ou para os 130 onde existir necessidade. Portanto, vamos ter aqui uma espécie de geometria variável.

E esses ajustes estão dependentes de quê?
De dois aspetos, por um lado, o nível da procura e, por outro, a nossa capacidade financeira, porque qualquer pedido que façamos aos operadores temos que pagar.

Mas há zonas onde durante estes meses os números de novos casos de covid-19 cresceram, como o concelho de Loures ou da Amadora, e que em termos de transportes públicos sabemos que estão no limite. Isso coloca questões que podem vir a ser problemáticas. Como é que isso está a ser considerado?
Estamos abertos e a estudar as diferentes realidades concretas e admitimos que é possível responder com aquilo a que chamei geometria variável. Portanto, se for preciso reforçar uma determinada carreira do concelho de Loures ou da Amadora ou de Vila Franca ou do Seixal, por exemplo, em princípio, estaremos em condições de resolver o problema.

Do que percebemos, os operadores também estão em condições de o fazer, porque se é verdade que estão a 100%, também é verdade que as viaturas de aluguer para turismo estão com pouca utilização, não nos parecendo que seja a falta de viaturas que vá impedir a resolução de problemas.

Mas isto obriga a um grande esforço e a alterações permanentes, como aconteceu no período inicial do desconfinamento, em que a situação era avaliada quase hora a hora, quando nos apercebíamos que havia um sítio com problemas, tentávamos resolver.

E num sistema complexo e pesado como o dos transportes públicos existe flexibilidade para essa "geometria variável" e esses ajustes constantes?
Tem que ser. Não conseguimos antecipar o cenário de setembro, até porque aquilo que era habitual deixou de ser.

Por exemplo, tudo indica que as escolas vão ter horários diferenciados e, ainda que estejamos a fazer um apelo para que as escolas comuniquem às câmaras e as câmaras comuniquem à AML e aos operadores para nos adaptarmos a essa realidade, temos a convicção de que, por muita adaptação prévia que façamos, é a verificação da situação no terreno que vai permitir ajustar a resposta às necessidades.

Estamos atentos e estamos até a tentar resolver outras coisas que temos entre mãos para, nesse período, estarmos o mais possível disponíveis para acompanhar a par e passo esta situação.

Falou recentemente na necessidade de um reforço do apoio do Estado para esta gestão dos transportes no contexto da pandemia. Poderá contar com isso?
É preciso que o Estado, e não estou a falar apenas da Área Metropolitana de Lisboa, estou a falar do país, tenha a maleabilidade e agilidade, do ponto de vista formal, para tomar as decisões, financeiras e não só, necessárias a essa gestão.

Do que me é dado a entender, talvez seja possível fazê-lo com o esforço do Estado central, porque as autarquias já estão no seu limite, pelo esforço que tiveram de fazer para responder à pandemia, a todos os níveis, não só dos transportes, tendo transferido já para a AML um valor substancial.

Portanto, temos que contar com a conjugação de todos os meios disponíveis na área metropolitana de Lisboa com eventuais reforços do Estado, que admito que não sejam substanciais.

Que impacto teve a pandemia de covid-19 teve no passe Navegante, medida charneira das grandes transformações que estão previstas para o setor dos transportes na AML?
Profundíssimo. Para ter noção, comparando o mês de abril de 2020 com o de 2019, vendemos nove por cento de passes. Temos um gráfico de procura que visualmente é impressionante porque tem um pico lá em cima, em março, desce quase para zero em abril e depois começa paulatinamente a crescer. No mês de julho, estávamos com cerca de 55% de venda de passes relativamente ao ano anterior, que é metade do que vendíamos, mas muito acima dos nove por cento de abril.

Isto quer dizer que, apesar de tudo e com as dificuldades que conhecemos e até com coisas, umas justas outras injustas, que se diz sobre os transportes coletivos, houve um aumento da procura.

De acordo com a nossa previsão, dificilmente chegaremos ao fim do ano com cem por cento, mesmo que não exista nenhuma nova vaga da pandemia, mas estimamos que a procura continue a subir. Agora, o que é preciso é que tenhamos capacidade de lhe responder com uma oferta adequada, com as regras que estão estabelecidas. Achamos, como lhe disse, que isso é possível.

Quando os novos casos de covid-19 se concentraram na área metropolitana de Lisboa, os transportes públicos foram apontados como um dos focos de transmissão do vírus. Que medidas concretas estão a ser tomadas para evitar isso?
Eu sobre essa matéria - de os transportes públicos serem um foco de transmissão - não me quero pronunciar porque não sou especialista em saúde pública.

Estou atento ao que se vai dizendo, mas a questão mais significativa, parece-nos, daquilo que vai sendo a experiência, é o número de viaturas disponibilizadas que permitam corresponder às necessidades e depois é aquilo que está estabelecido: a ventilação, a limpeza, o uso de máscara e todas as medidas definidas pela Direção Geral de Saúde.

Nós não deixaremos de chamar a atenção para isso, de exigir que as medidas sejam cumpridas e de pedir a quem tem capacidade de fiscalização, que nos ajude a fazê-la.

Quem é que tem capacidade de fiscalização?
As forças de segurança.

Segundo o concurso público internacional, lançado em fevereiro deste ano, no valor de 1,2 mil milhões de euros, todos os autocarros na AML vão pertencer à marca única Carris Metropolitana, prometendo "aumentar os serviços de transporte rodoviário em mais de 40% face ao estabelecido no período pré-pandémico, materializando uma oferta mais completa, maior eficiência, mais sustentabilidade ambiental, melhor qualidade do serviço, rejuvenescimento da frota, mais responsabilidade social, melhor imagem, informação ao público mais completa e maior foco nos utentes. A rede, desenhada de raiz durante um ano pela Área Metropolitana de Lisboa, vai ser composta por cerca de 600 linhas rodoviárias, que servirão aproximadamente 2,7 milhões de potenciais utilizadores". Posteriormente, a AML irá também gerir outros meios de transporte, estando previsto que o passo seguinte seja a Soflusa e a Transtejo, seguindo-se o Metropolitano e os comboios suburbanos. Que impacto teve a pandemia neste "processo revolucionário em curso" no setor dos transportes da AML? Poderá significar um retrocesso naquilo que estava previsto?
Claro que isto está sempre sujeito a alterações, porque tem muitos protagonistas e intervenientes e gente com capacidade de influenciar as decisões, desde logo 18 presidentes de câmara envolvidos no processo, mas o objetivo que levou ao Navegante, à solução tarifária e a esta revolução que estamos a fazer nos transportes é para manter, independentemente da pandemia.

Não sabemos que consequências esta terá, serão certamente profundas, mas amanhã ou daqui a dez anos podemos ter um terramoto ou um tsunami. Há que responder às circunstâncias e continuar a vida.

O processo tem que andar, as pessoas precisam de se deslocar e de utilizar os transportes. Os problemas que hoje temos relativamente às alterações climáticas não desapareceram.

Portanto, é preciso que a visão estratégica não seja posta em causa por acontecimentos, ainda que muito profundos e muito marcantes, mas limitados no tempo. Em resumo, a nossa convicção é que há que andar para a frente.

Mas o impacto financeiro que a pandemia teve nos operadores não influencia o andamento do processo?
Eu diria que não. O grande impacto financeiro foi nas autarquias e na administração central, que passaram a financiar, porque quando se decide passar a 90%, a AML paga 90%. Como é que calculamos os 90%? Com base naquilo que foi a receita do ano anterior. Claro que as contas são mais complexas do que isto, mas é para perceber o fundamental da solução que encontrámos.

Não digo que os operadores estejam a ser compensados na sua totalidade e que não tenham tido problemas, mas procurámos atenuá-los.
Queria sublinhar que o processo está a continuar e o concurso seguirá os trâmites previstos e fará o seu percurso normal e, no início do mês de setembro, estaremos em condições de receber as propostas dos eventuais concorrentes.

Por outro lado, ainda esta semana tomámos a deliberação de adquirir 18 quiosques, um para cada município, que permitirão a cada pessoa que o desejar, comprar o passe Lisboa Viva apenas com o cartão de cidadão, vai à máquina, põe o cartão de cidadão, paga o que tem a pagar e recebe o cartão Lisboa Viva.

Estamos a trabalhar nas várias matérias, tecnológicas, de simplificação tarifária, do concurso, da constituição da empresa, etc., com o objetivo que estava traçado.

E, portanto, no fim de 2021, a Carris Metropolitana estará a funcionar?
Sim. O nosso concurso é um concurso muito complexo, de mais de mil milhões de euros, e os concorrentes que ganharem, após a adjudicação, têm dez meses para entrar em funcionamento porque têm que adaptar-se: a rede, as novas viaturas, a pintura dos autocarros, as questões tecnológicas, etc., mas admito que em fim de 2021, início de 2022 esteja a funcionar. Estamos a fazer o caminho.

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