Neil Sipe. "O medo do transporte público não tem qualquer evidência científica"

Especialista australiano avisa que o receio de usar o metro ou o autocarro vai levar tempo a desaparecer, apesar de a ciência não encontrar uma correlação com os surtos de covid-19.

A ciência não tem encontrado nenhuma correlação entre transportes públicos e focos de infeção por covid-19. Mas isso pouco ou nada tem ajudado na recuperação do setor. O medo é o grande obstáculo para sair desta crise. É isso que defende Neil Sipe, professor de planeamento urbano e regional da Universidade de Queensland, na Austrália, que esta quinta-feira (9 de julho) foi o convidado da entrevista do Portugal Mobi Summit.

"A perceção de que os transportes públicos não são meios seguros permanece e vai levar tempo até que a confiança seja restabelecida", avisa o investigador australiano, recordando logo de seguida o estudo do MIT que, em finais de abril, concluiu não haver relação entre os surtos do novo coronavírus e os bairros nova-iorquinos servidos pelas estações de metro.

Redes de metropolitano, de comboio ou de autocarros, porém, nunca foram negócios lucrativos. "Providenciar transportes não dá dinheiro agora, mas também já não dava antes da covid-19", diz Neil Sipe, sublinhando que o setor a nível global já não se encontrava bem financeiramente e pior ficou com a crise pandémica.

A expansão da mobilidade como um serviço

Mas o mesmo não aconteceu com as empresas de mobilidade que continuaram a "investir milhões" e a expandir-se para várias cidades europeias ou americanas: "A covid-19 não alterou a estratégia de investimento que, no fundo, se resume a uma grande batalha entre a concorrência para conquistar o título de uma Amazon ou de uma Netflix da mobilidade", explica o especialista.

O trunfo para o crescimento continuar constante não está unicamente na oferta de transporte, ressalva o professor da Universidade de Queensland. É sobretudo por se apresentarem como plataformas de serviços - que vão da micromobilidade às entregas domiciliárias -, que estas empresas conseguiram resistir aos efeitos da pandemia na economia.

O crescimento da micromobilidade tem sido, aliás, o efeito positivo desta crise, reconhece o especialista. Trotinetes e, sobretudo bicicletas elétricas, já apresentavam tendências de crescimento, mas a perceção de que são mais seguras e, também as infraestruturas que as autarquias criaram nos últimos meses, aceleraram esse movimento. "Estou convencido de que esse é um fenómeno que continuará a crescer, tal como as empresas com os negócios focados na mobilidade como um serviço."

Não significa, contudo, que o transporte público fique esquecido pelos governos locais e centrais, adverte o especialista: "Embora não seja lucrativo, é um serviço essencial para a mobilidade urbana." E, no curto prazo, "é urgente" assegurar os seus serviços para o segmento da população que depende dele, remata Neil Sipe.

(Veja tudo sobre mobilidade e o Portugal Mobi Summit em www.portugalms.com)

Mais Notícias