Vítor Feytor Pinto (1932-2021). O aplauso de Cristo

Um "enorme vazio". Foi o que sentiu Manuela Ferreira Leite, que o havia conhecido há mais de duas décadas, quando soube da sua partida nesta quarta-feira, com 89 anos. A antiga líder da oposição rumava de propósito ao Campo Grande todos os domingos para ouvir a sua homilia, mesmo não sendo moradora das proximidades da paróquia. "Ia só para o ouvir. Enchia-me a semana. Conseguia um elo de ligação entre as leituras que as tornava compreensíveis para todos, sempre com uma lição para levarmos", conta. "Era extraordinário."

Vítor Feytor Pinto, figura incontornável do catolicismo português, casou todos os seus filhos e batizou todos os seus netos. A ligação era antiga e próxima, começando no mais improvável dos locais: a política. Quando o governo de Cavaco Silva nomeia o padre para alto-comissário para o Projeto Vida - um plano integrado de combate contra a toxicodependência -, o programa fica na tutela do Ministério da Educação, isto é, de Manuela Ferreira Leite. A partir daí, a amizade entre ambos estabeleceu-se. "Era um homem especial. Não conheço ninguém que junte uma crença tão genuína a uma inteligência tão evidente. São duas características invulgares, especialmente se juntas", descreve.

Do seu modo de decidir, recorda o facto de não ser um ortodoxo ou fundamentalista. "Tomava decisões nem sempre exatamente de acordo com a doutrina, mas de forma genuinamente crente e inteligente." Perante o filho de um casal não unido pela Igreja, não lhe recusava o batismo, pois "não se recusa o batismo a alguém que o peça". Dito de outro modo: Feytor Pinto era dono de uma fé inabalável, mas não rígida. Capaz, portanto, de chegar a - e tocar - crentes e não crentes.

Outro paroquiano do Campo Grande nota o exemplo do seu cuidado em pormenores tão improváveis quanto o atendimento dos serviços da Igreja. "E tinha uma razão para isso: fazia tudo para não afastar as pessoas." Talvez também por isso os grupos de jovens que fundou tenham alçando números de pertença a rondar os 400 membros.

O padre Fernando Sampaio, capelão do Hospital de Santa Maria e atual coordenador nacional dos capelães hospitalares, enaltece o papel pioneiro de Feytor Pinto na sua missão. "Nós, os capelães dos hospitais, devemos-lhe muito, mesmo muito." Feytor Pinto, que desempenhou e concebeu a função de Fernando Sampaio como ela hoje existe, foi essencial na regulamentação, formação e estratégia da chamada pastoral da saúde. "Revolucionou o conceito. Virou-o não apenas para os doentes, mas também para os funcionários da saúde. Algo que não tinha precedentes em Portugal", explica o capelão. "Sempre com uma cultura da vida, uma humanização de um local onde o sofrimento e a perda estão sempre presentes, uma atenção ética a tudo", sintetiza também.

Em meados da década de 1990, Feytor Pinto celebrava um batizado numa pequena igreja na Malveira da Serra e, insolitamente, faltavam hóstias para a comunhão. O padre não se manifestou minimamente incomodado e anunciou pronta solução. Celebrariam com pão, como os apóstolos então fizeram. A criança era o filho de Paulo Almeida Sande, académico e conselheiro presidencial. "Com o padre Vítor aprendi: o sagrado reside no íntimo de cada um de nós, sendo aquilo que dele fazemos e em que acreditamos", conta, com saudade. Nos últimos anos, Feytor Pinto levava consigo para o altar as leituras impressas num tamanho de letra gigantesco, com os olhos cansados pela idade.

Entre os vários contemporâneos escutados por esta coluna, a dimensão humorada do sacerdote católico foi talvez a mais frequente. "Eu conto-lhe, mas não escreva" foi-me dito por padres, médicos e amigos próximos. Por pudor e promessa, cumprirei com o a discrição dos que melhor o conheceram.

Eu, que também passei a estacionar em segunda fila logo a seguir a Entrecampos para ir ouvi-lo, também o chorei assim. Com o sorriso de um homem bom na memória, a quem, numa missa, cantámos os parabéns por mais um aniversário há tão pouco tempo, dizendo-nos ele: "Agradeço estes anos de vida a Nosso Senhor e, claro, ao Calcitrin." Rimo-nos todos e batemos-lhe palmas, contra o que as regras mandam.

Mas não posso deixar de pensar que, naquele momento, era Cristo que o aplaudia connosco.

Colunista

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