Uma diplomacia com força

Ao criar as Nações Unidas, em 1945, os fundadores tinham em mente estabelecer uma organização supranacional capaz de resolver de modo pacífico os futuros conflitos, em particular os que pudessem ocorrer entre as grandes potências. Estávamos no fim da Segunda Grande Guerra, que trouxera níveis incríveis de sofrimento e de destruição. A preocupação maior era a de evitar novas confrontações militares. Assim estabeleceram uma estrutura que dava a primazia às negociações diplomáticas e que deveria evitar que situações como a que agora existe à volta da Ucrânia resvalassem para uma nova guerra. Passadas mais de sete décadas, os fundadores, se ainda estivessem entre nós, ficariam profundamente abalados ao ver que a ONU está completamente marginalizada, aqui, nesta parte da Europa, no que respeita à crise entre a Rússia e o Ocidente. Como também o está noutras geografias, onde as superpotências intervêm diretamente na luta pelo que consideram ser os seus interesses vitais.

A aposta na diplomacia, no que diz respeito à Ucrânia e à questão mais ampla que é a da segurança europeia, faz-se agora noutros fóruns - na UE, na NATO, na OSCE em Viena. E, sobretudo, nas discussões bilaterais entre americanos e russos, deixando os europeus numa posição secundária, embora sejam eles quem terá de pagar a parte mais importante da fatura, o custo das decisões que vierem a ser tomadas. Uma fatura cuja dimensão ainda permanece por definir, nos seus contornos económicos, financeiros ou mesmo militares.

Assim, não é apenas a ONU que fica de fora, são igualmente os próprios europeus, por muito que se negue essa evidência. Basta ver que não existe qualquer tipo de entusiasmo no Kremlin em discutir uma nova arquitetura de defesa na Europa com os dirigentes alemães, franceses ou outros. Quer se queira ver quer não, a verdade é que os russos só acreditam em possíveis entendimentos com os americanos. No que respeita à UE, a Rússia está apenas interessada nos Estados membros tecnológica e economicamente mais avançados, um a um, e apenas por razões de negócios. Ainda nesta quarta-feira, Putin manteve uma videoconferência com os dirigentes de grandes multinacionais italianas (Enel, Banco UniCredit e a companhia de seguros Generali, entre outras), enquanto, ao mesmo tempo, ignorava as propostas de desanuviamento que Macron lhe fizera chegar e reforçava a presença das suas forças armadas na Bielorrússia, a dois passos de Kiev.

Tornou-se evidente, de novo, que continuamos inseridos num quadro internacional em que a força armada, ou pelo menos quem a tem, faz a lei. Daí resulta um impacto muito negativo sobre o papel político da ONU. Também representa um desafio fundamental para a UE, que não tem as capacidades militares e de política estrangeira que seriam necessárias para fazer valer os seus pontos de vista e interesses estratégicos. A crise atual tem de ser transformada numa oportunidade para reforçar essas capacidades. É preciso diminuir a dupla dependência da Europa - militar e política - em relação aos EUA como também é fundamental reduzir a dependência energética de certos Estados membros da UE face à Rússia.

Voltando à diplomacia, recordo que Luís XIV fazia gravar nos seus canhões a locução latina ultima ratio regum, para lembrar que no armamento pesado estava "o último argumento dos reis". Ou seja, para que a diplomacia possa ser eficaz quando se quer a paz, não se pode descurar a preparação bélica. Só que as guerras de hoje já não se fazem apenas com canhões: as medidas económicas e financeiras, as restrições políticas, a cibernética, a informação e a contrainformação fazem agora igualmente parte do arsenal. É aquilo que se designa por uma resposta integrada perante uma agressão exterior. Essa resposta é particularmente necessária quando do outro lado temos um regime autocrático, liderado por um indivíduo que se apresenta como o protetor ultranacionalista do seu povo e da cultura nacional, que designa os oponentes como traidores e que não hesita em utilizar a violência armada, interna e externamente, para conseguir os seus objetivos de poder pessoal.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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