Uma classe política sem classe

Quando o debate político se centra na questão das vacinas - ora vacinas-te tu, ora vacino-me eu - é bem revelador da falta de classe da nossa classe política actual, pese uma ou outra excepção.

As questões essenciais para o povo português - educação, habitação, emprego e outras - passam ao lado do debate político, infelizmente dominado pelas tricas e pelas polémicas estéreis, com as birras pelo meio.

Exemplo flagrante do que afirmo é a circunstância de em plena presidência portuguesa da União Europeia, extremamente importante para o nosso país, nada se ouvir falar dela. Nem uma palavra. A maioria dos media, também há excepções, evidentemente, preferem os assuntos menores, só quebrados pela actual obsessão com os números de casos da Covid-19, a situação nos hospitais e notícias afins, com as quais as televisões nos bombardeiam.

A intoxicação da opinião pública com a Covid-19 - parece que não há mais nada para dizer - chega a ser preocupante, diria mesmo alarmante. Informar não é saturar as pessoas e, muito menos, massacrá-las. A obsessão de que falo é uma doença, esta do foro psicológico, e uma doença não se cura com outra doença.

A mediocridade do nosso debate político - nem uma linha também sobre as leis eleitorais, cuja revisão é essencial - está de acordo com a falta de sentido de Estado da maioria dos políticos actuais.

Felizmente, tanto Marcelo como Costa estão muitos furos acima do político português médio e é sobre eles que impende a responsabilidade de nos conduzirem a bom porto. Mas o panorama geral é desolador. A começar nos deputados e a acabar na Oposição.

Tivemos quatro grandes políticos, Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Freitas do Amaral. Comparar os debates televisivos entre eles com os de hoje é o mesmo que comparar o ouro com a merda, permitam-me o termo. A época em que viveram foi, sem dúvida, os anos de ouro da nossa democracia.

A falta de bons políticos é um fenómeno universal, não só português. Basta referir Salvini, Le Pen,Trump, Bolsonaro, Merkel e outros para atestar a veracidade do que afirmo. E faz-nos pensar se o voto, em alguns casos, em vez de ser a arma dos povos, não será a sua desgraça! O Brexit, ainda como exemplo.

A regeneração da política europeia e mundial afigura-se-me tão urgente como a superação da pandemia. Sem dirigentes à altura, a Europa e o Mundo serão incapazes de vencerem as pandemias, sejam quais forem. Com Biden nos EUA, Macron em França e nova liderança na Alemanha algo poderá mudar para melhor. Portugal, com Marcelo e Costa, por enquanto está bem entregue. Os próximos cinco anos asseguram-nos uma vivência democrática. E depois? Cito John Maynard Keynes, quando o acusaram de vencer a grande crise de 1929-30 só a curto prazo: a longo prazo estamos todos mortos, disse ele.

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