Um homem com qualidades

Conheci Almerindo Marques num fim de tarde de primavera, há vinte anos, no Hotel Altis. Era fácil adivinhar que estava perante uma figura singular. Conciliava uma calma olímpica com uma enorme determinação. Chegava a ser ligeiramente desconcertante aquela sua crença absoluta no trabalho a realizar, perante qualquer emergência. Fora assim na banca, seria assim na comunicação social, e mais tarde nas infraestruturas. Tínhamos sido nomeados para gerir a RTP, que estava à beira de explodir.

Almerindo enfrentava o problema como um grande cirurgião, pronto a entrar na sala de operações, transmitindo total segurança. Não que ele tivesse um plano detalhado ou prioridades já definidas, para além da noção de que iria "pôr ordem naquela bandalheira", como gostava de dizer quando chegava a qualquer instituição.

Mais tarde percebi duas ou três coisas sobre a forma de estar deste gestor, ou sobre a filosofia de vida deste homem: tinha uma visão gradualista das situações, ou seja, achava que atuando bem, com racionalidade, iria no final deixar uma situação melhor do que a que tinha recebido, e isso bastava-lhe para dormir tranquilo. Por outro lado, estava sempre a passar a ideia de que nenhum problema era grande demais para o atormentar e isso era um sinal importante, tanto para os adversários a combater ("os poderes estabelecidos", como ele dizia), como para as suas tropas, que ganhavam energia para ir à luta. Este desassombro controlado fazia parte do mito do homem de coragem, obviamente. Na sua essência, estava aquele gosto vincado pelas tarefas complexas. Para ele tudo era fácil quando as coisas eram difíceis, e tudo se tornava mais difícil (ou aborrecido) num cenário de facilidades. Crescia com os problemas graves, de máxima adrenalina - o seu espaço natural.

Não era o típico gestor público, com habilidade política, e isso dava-lhe caráter. Perante uma opção, nunca perguntava se o caminho X ou Y iria agradar, perguntava-se a si próprio o que fazia sentido. Vi vezes sem conta um homem independente a funcionar. E com uma inata obsessão pela ética, pela transparência, pela honestidade. Era demasiado focado na execução para pretender ser um perfeccionista. Gostava de resolver problemas, encontrar soluções, avançar. Não tinha medo de errar de vez em quando, desde que apontasse na direção certa.

Almoçámos tantas vezes no velho e já desaparecido "O Polícia", onde começávamos por falar de empresas e rapidamente passávamos para a política, que o interessou muitíssimo desde jovem e durante toda a vida, mais do que se julga. Estava sempre bem informado. Conhecia toda a gente, tendo passado pelo governo, pelo parlamento, por conselhos de administração. Tinha amigos e adversários em qualquer lado, que o respeitavam de igual forma. Também aqui nos entendíamos, sem concordar a cada passo, o que tinha ainda mais graça para um heterodoxo como ele (e como eu): tanta cumplicidade entre aquele senhor que vinha do universo socialista mas gostava de trabalhar com os pragmáticos da direita, e eu que sou social-democrata mas gosto de conviver com a criatividade dos progressistas.

Diz-se muitas vezes que já não se fazem homens assim. Não embarco nestes saudosismos. Cada geração produz gente extraordinária. E nenhuma vaga é pior que a anterior. Mas também direi que Almerindo era uma colheita própria. Uma figura da esquerda moderada, mas ao mesmo tempo um gestor terrivelmente eficaz. Com fama de intransigente, mas sabendo ceder para conseguir o essencial. Andava sempre com pressa, mas guardava disponibilidade para ouvir cada pessoa. Conhecia os corredores do poder, mas queria ser visto como homem de ação. Vibrava com as tarefas mais arriscadas, mas era cuidadoso na execução. Era um apóstolo do rigor, que conciliava com uma generosa consciência social. Sim, era realmente um homem com qualidades.


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