Um "equilibrista" ou um "homem sério"?

António Costa pode ser outra coisa que não um político pragmático? Tem convicções, conhece-se o seu campo político, mas foi-se subjugando à real politik que lhe surgiu diariamente à frente. E tanto praticou o atravessamento de precipícios políticos que já ninguém sabe no que acredita realmente: se na manutenção do poder a todo o custo, se num projeto para o país.

Tê-lo-á? Vislumbram-se dois chavões: "combater as desigualdades", "modernizar a economia". Rui Rio não dirá de forma muito diferente. O que distingue então Costa e Rio? Adquirida a ideia da "governabilidade" (que Paulo Rangel não demonstrava solucionar), os eleitores vão escolher, no essencial, a personalidade dos líderes. E é aqui que se abre uma grande dúvida para o PS: o que é hoje António Costa.

Recuemos às escolhas dos portugueses ao longo dos anos e aos quatro em linha da democracia: Eanes, Cavaco, Guterres, Passos. Há uma linha de conservadorismo que os une, a ideia de um regime de homens sérios que nunca saiu do nosso inconsciente coletivo. Poderemos contrapor as vitórias de Soares, Sampaio, Sócrates e Costa. Apesar de tudo, há algumas nuances a justificar cada uma delas: Soares, como ícone histórico; Sampaio como alternativa a Cavaco após 10 anos de Cavaquistão; Sócrates como fuga coletiva ao Santanismo; e finalmente Costa, com uma vitória sobre Rio num momento de grande pujança económica - mas apenas a 4% dos votos conjugados de PSD e CDS. (Nestes perfis, Marcelo é um híbrido - conservador freak.)

Parece mais fácil a eleição de um líder austero que o contrário. E há as questões específicas, regionais. Por exemplo, a PAF de Passos e Portas, ganhou o país em 2015 - e com maior margem a Norte. Rui Rio venceu por três vezes o PS (e Pinto da Costa) no Porto. O PSD cresce sempre de Norte para Sul.

O Norte é região mais populosa do país e onde se concentra a economia exportadora, onde o Estado apoia menos, onde os salários são mais baixos - e não tem uma classe de funcionários públicos e empresas do Estado com sistemático "doping" salarial. O mundo dos conflitos sindicais apresentados pelos telejornais parece muitas vezes pertencer a um outro país. Por isso mesmo, os eleitores a Norte votam muitas vezes no PSD como partido do dinamismo, a par de um equilíbrio social (q.b.). Preferencialmente com menos Estado (leia-se impostos e burocracia) e onde há mais ensino e saúde privados.

Claro, há ainda um tema muito fraturante, a TAP, a que se junta a sombra de 10 mil milhões de investimento no aeroporto de Alcochete, além de problema socialmente mal resolvidos como o fecho da refinaria em Matosinhos sem contrapartidas imediatas e assinadas, a exploração do lítio no Alto Minho, a maioria dos novos hospitais "PRR" concentrados na Área Metropolitana de Lisboa, o péssimo funcionamento dos comboios, e a trágica mas simbólica desproteção de Miranda Douro na venda das barragens da EDP aos franceses.

Todos estes pontos beneficiam Rui Rio a Norte. Além, provavelmente, de passar a beneficiar da opinião dos comentadores, maioritariamente anti-Governo. Tudo somado, para vencer o país com mais um voto, Costa tem uma opção: vestir só o fato de homem de Estado, como fazia Cavaco em campanha, e conter-se. Contra Rui Rio, menos é mais.

PS - Imagine-se que o Chega não candidatava André Ventura. Poderia excluir-se o Chega dos debates eleitorais? Pois é exatamente o que se prevê fazer ao Livre e a Rui Tavares. É legítimo excluir-se um partido com representação parlamentar?

Jornalista

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