Um dissidente português

Pavel Elizarov foi detido pela primeira vez aos 19 anos, na Bielorrússia. Antes, havia testemunhado os primórdios do movimento maidan, aquando da chamada revolução laranja na Ucrânia, em 2004.

Na altura um radical confesso, passou um par de noites na prisão e não esquece a experiência. Foi um dos primeiros russos a ser preso em território bielorrusso e a estada foi tão prolongada quanto desagradável. O frio na cela era tanto que os seus camaradas de marcha pulavam durante a noite de braço dado, para se aquecerem, como se saltando à corda sem a corda para agarrarem. Com as temperaturas geladas, o sono era uma impossibilidade e, de qualquer modo, só havia uma cama de madeira para a dezena de reclusos. O feito chegaria às notícias internacionais e Pavel recorda, com um sorriso humorado, o chouriço que amigos deixavam na prisão para ele ter o que comer.

O tirano contra quem protestavam está ainda hoje no poder: Lukashenko. E as detenções de manifestantes também se mantêm.

Mais tarde, crescentemente embrenhado no movimento ativista russo, chegaria a ser preso com Alexei Navalny, o inimigo maior de Vladimir Putin. Quando é obrigado a fugir para Portugal, em 2013, pede imediatamente asilo político e é o amigo quem lhe assina uma carta às autoridades portuguesas, comprovando o seu papel de oposicionista ao regime de Putin. Há dias, por via próxima, enviou-lhe uma mensagem, contando-lhe que um protesto contra a sua prisão havia desencadeado uma crise política em Portugal. A resposta ainda não chegou.

Pavel, há já sete anos em Lisboa, não sente a sua segurança em risco na cidade que o acolheu, mas não esconde a indignação pelo modo como a câmara municipal expôs dissidentes como ele. "Não tiveram consciência do que estavam a fazer, mas é a ignorância que isso mostra que mais me preocupa", diz. "Uma maior atenção a estas questões tem de ser uma prioridade aqui."

Se regressasse à Rússia, seria preso. Disso não tem dúvidas.

Encontro-o numa esplanada, de sandálias e calças de ganga, com boa disposição no rosto. Fala português com fluência e gosto, foi votar nas presidenciais, tenciona voltar às urnas nas autárquicas e faz design gráfico como freelancer. É mais liberal do que Navalny, em particular no que toca à Crimeia, mas não dramatiza a divergência. "Ele começou como nacionalista, hoje é um moderado. Eu comecei como radical, hoje sou mais liberal", admite. É o tempo que passa, e tanto no campo das convicções como no acaso das circunstâncias, Pavel parece encarar tudo com a tranquilidade da restante esplanada.

A proposta de Merkel e Macron para retomar as relações com Moscovo, nesta semana? Nada contra. "É sempre bom haver diálogo. Putin não estará lá para sempre." E há sinais de mudança na Rússia? "Há, mas para pior. Hoje, és acusado de extremista por partilhar um post no Facebook e declarado inimigo do Estado se tiveres doado dois euros ao movimento [a favor de Navalny]." Como conseguir, então, uma verdadeira mudança? "Uma nova Constituição."

"A Rússia é uma ditadura", afirma. "E não deixaria de ser uma ditadura só por ficar sem este ditador."

Em relação ao destino de Alexei Navalny, é menos taxativo. Nem o próprio saberá. Mas deixa um palpite. "Para Putin, a prisão do Alexei só acaba no dia em que um deles morrer."

Até lá, Pavel Elizarov sairá à rua pela libertação do amigo. E do seu país.

Colunista

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