Um ano entre crenças e lições

Depois do acidente nuclear de Chernobyl (1986) acreditei que perante a brutalidade do evento todos os malefícios da indústria nuclear ficassem duradouramente à vista, e cheguei a propor a categoria de "pedagogia da catástrofe".

Depois disso tivemos o ainda maior desastre japonês de Fukushima (2011), cuja gravidade levou a Alemanha a acelerar o encerramento das suas centrais nucleares.

Contudo, sou obrigado a reconhecer que a combinação entre a higiene psicológica do esquecimento e a "indústria da mentira organizada", citando uma expressão de Hannah Arendt, reduz o alcance da minha proposta.

Hoje penso que a crença - herdada, inculcada, propagandeada ao longo da vida pelos interesses que dela se servem - tem precedência sobre o conhecimento. Se uma tragédia, por mais veemente que se afigure, puser em causa uma crença rudimentar, mas poderosa e confortável, não há qualquer garantia de as lições da tragédia serem aprendidas.

Voltando ao meu exemplo do nuclear: num recentíssimo livro, Bill Gates, o santo patrono dos bilionários filantropos, colocou o nuclear no lado dos remédios para a emergência climática. A lição da catástrofe fica escrita na areia, até ser apagada pela nova maré cheia...

Será que aprenderemos alguma coisa com esta pandemia global, que nos ataca em vagas sucessivas? Para todos aqueles que quando a tragédia começou já tinham uma resposta na ponta da língua, a crença prévia blindou qualquer possibilidade de aprendizagem. Não apenas cretinos certificados, como Trump e Bolsonaro, ou os milicianos das teorias conspirativas para quem o mundo é desprovido de mistério, mas também intelectuais como Giorgio Agamben não se sentiram interpelados pela voragem de interrogações e incertezas contidas no advento da covid-19. Foram ao baú dos seus preconceitos e fantasias, ou das suas sofisticadas grelhas teóricas e - imitando o Dr. Pangloss do Candide de Voltaire - decretaram que o assunto ficava demonstrado com um definitivo silogismo...

A covid-19 oferece hoje o espetáculo do maior campo de batalha entre a reafirmação dogmática da crença e a procura esforçada de um conhecimento que possa ser útil para salvar vidas e evitar tragédias futuras ainda maiores. Essa batalha ganha contornos claros quando se resume o objetivo final da luta contra a pandemia como sendo o regresso à normalidade. Para os partidários da crença, a pandemia não precisa de ser explicada, mas sim vencida, para podermos retomar o ritmo do crescimento económico ativo em 2019. Para quem, pelo contrário, insiste na necessidade de conhecer a raiz causal da pandemia, é na própria normalidade que se encontram as sementes do mal que nos aflige. Já em 2019, o mundo sabia que estamos a descer o perigoso declive da crise ambiental e da emergência climática. A União Europeia foi ao ponto, no final desse ano, de fazer do Plano Ecológico Europeu a sua bandeira estratégica.

É hoje inegável que a covid-19, como todas as novas doenças nascidas da destruição da biodiversidade, fazem parte integrante da crise ambiental e climática.

As medidas de recuperação e resiliência, apesar de aspetos positivos, estão ainda carregadas de uma dolosa pegada ecológica - de aeroportos e minas à agricultura e silvicultura intensivas. Mais entropia, mais impactos, menos serviços dos ecossistemas. É tempo de libertar a vontade e a imaginação coletivas das correntes que nos prendem a um passado sem janela para o amanhã.


Professor universitário

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