Tudo profano, tudo sagrado

Embora simplificando muito, pode-se dizer que ao longo da história da humanidade reflexiva se impuseram três concepções fundamentais de mundo. Assim: uma concepção dualista: na raiz, há dois princípios - o princípio do bem e o princípio do mal; uma concepção monista: em última análise, há só a matéria, ou Deus e a Natureza fazem uma só realidade; o monoteísmo: o Deus transcendente e pessoal, absolutamente perfeito em si mesmo, criou o mundo a partir do nada.

Porque é que Deus criou e continuamente cria? Apresentou-se permanentemente como razão da criação a maior glória de Deus. Mas um Deus que criasse para a sua maior glória seria um Deus carente e egoísta, portanto, um Deus contraditório, um Deus que não é Deus. Assim, Deus não criou pelo seu interesse, mas apenas para o bem e a felicidade das criaturas. O único interesse na criação é o bem-estar e a realização plena das criaturas.

Isto significa que Deus não tem inveja da felicidade do ser humano. Deus, na concepção cristã, é o contrário de um Deus invejoso, pois criou apenas por amor da criatura e permanentemente promove e potencia os dinamismos da sua total realização.

A outra consequência fundamental da concepção cristã da criação por Deus é a autonomia. De facto, se Deus criou sem precisar de criar, portanto, se a criação tem como única razão a liberalidade generosa de Deus no seu excesso amoroso, o resultado do acto criador só podem ser criaturas autónomas. Deus não absorve a criatura; pelo contrário, fá-la ser ela mesma, de tal modo que é necessário concluir que precisamente a presença criadora de Deus a toda a criatura implica e funda a sua autonomia e independência relacional. Criação e autonomia encontram-se numa relação de proporção directa: quanto mais Deus está presente mais a criatura é autónoma. O mundo segue, portanto, as suas leis, e os seres humanos enquanto criaturas livres têm de procurar os caminhos para uma conduta humana em autonomia e dignidade.

Se a realidade mundana e humana existe porque Deus na sua liberdade originária criadora a quis, este mundo é mesmo real e não um simples lugar de passagem ou um mundo provisório a caminho da realidade verdadeira no outro mundo. A relação viva com Deus também passa pela resposta à pergunta de cariz heideggeriano: o que é que corre na corrente? Na corrente, corre a fonte, mas a corrente não é a fonte. Se a fonte for Deus e tudo o mais a corrente, então estamos sempre em Deus e em comunhão com todos e com tudo, ao mesmo tempo que somos remetidos para a autonomia solidária e a responsabilidade adulta.

"Fazer amor é sagrado. É tão sagrado comer como fazer amor ou rezar." Aí está uma afirmação que produzi numa comunicação ao III Simpósio do Clero, em Fátima, em 31 de Agosto de 1999, e que, apesar de constituir um simples parêntesis no discurso, foi objecto de primeira página em jornais diários. Uma evidência que foi notícia! Trata-se na realidade de uma evidência. Não se afirma, de facto, como doutrina oficial da Igreja que o casamento é um sacramento, significando sacramento precisamente que o amor em corpo é sagrado, experiência santa de Deus?

Quando se estuda a fenomenologia da religião, aparecem como categorias primeiras as do sagrado e do profano: há um espaço sagrado e um espaço profano, um tempo sagrado e um tempo profano. Mas, deste modo, não surge Deus acantonado nos espaços e nos tempos sagrados? Depois, haveria o imenso espaço e tempo profanos, com pequeníssimas ilhas de sagrado, de tal modo que a quase totalidade da existência se passaria no profano (de pro-fanum: em frente e fora do templo).

Aos poucos, a Bíblia dá indicações de que é necessário acabar com esta separação dicotómica do sagrado e do profano. Diz-se expressamente que com a morte de Cristo o véu do Templo se rasgou de cima a baixo. Se Deus criou exclusivamente por amor, toda a realidade é ao mesmo tempo sagrada e profana: tudo é profano, pois pertence à autonomia, e simultaneamente tudo é sagrado, pois Deus é sempre presença infinita a todas as criaturas. O ser humano é tão religioso quando reza como quando estuda ou realiza qualquer outra dimensão do seu ser. Já não há o imenso deserto do profano, com pequenas ilhas de sagrado. Como diz o filósofo e teólogo Andrés Torres Queiruga, num exemplo feliz, também no casamento, os que se amam tanto se amam na cama como quando trabalham para a família ou estão a comer, a descansar ou a passear.

Precisamos certamente de tempos e espaços de meditação, de celebração festiva, ritual e simbólica, não porque aí Deus esteja presente com mais intensidade, mas porque nós mesmos precisamos de dar-nos conta e tomar consciência mais intensamente de uma realidade que é sempre simultaneamente profana, no sentido de vivida autonomamente, e sagrada, no sentido de que está sempre imersa e referida a Deus, fonte do ser e de ser.

Isto não significa, porém, que concretamente o tempo seja homogéneo: de facto, o kairós, o instante do começo de uma pessoa, por exemplo, ou o instante da sua morte não formam um continuum no tempo. Há o tempo qualitativo. Por outro lado, este mundo em que nos encontramos não é um simples lugar de passagem: ele é real e verdadeiro, pois é o mundo de Deus, que ele mesmo quis e criou, para estabelecer uma aliança de liberdade com homens e mulheres livres. O que se passa é que está ainda a caminho, em processo, ainda não chegou à sua consumação, ainda não é o que será, e nós próprios também não somos ainda o que seremos.

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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