'The Matrix': Reestruturação do organograma da Matriz, S.A.

Num dos momentos mais perplexos do documentário Woodstock 99, alude-se à "enxurrada" de filmes de 1999 que "celebravam" a violência masculina e o assédio sexual; a amostra disponível era tão reduzida que o documentário se viu obrigado a ilustrar a bizarra alegação com imagens de The Matrix.

O ano em questão presta-se à divagação milenarista, e costuma ser frequentemente apontado como marco histórico no cinema americano recente; livros e artigos diversos indicam-no com regularidade como o pico de qualquer coisa - ou então como princípio, ou fim, de outra coisa qualquer. O esforço inepto de Woodstock 99 acaba por ser um caso típico de análise crítica contemporânea: tão empenhada em flectir os músculos do determinismo cultural que acaba por fazer uma contractura de esforço.

Se a ideia é procurar elementos comuns nos filmes de 1999, há hipóteses mais plausíveis e interessantes que a agressividade ou a misoginia. Fight Club, Being John Malkovich, American Beauty, Office Space, e o próprio The Matrix são todos, em maior ou menor grau, sobre empregos de escritório aborrecidíssimos, subitamente interrompidos por um salvífico delírio exterior. No limiar do milénio, o maior pavor da produção cultural era o ciclo de tédio e repetitividade imposto a todos os homens de meia-idade com emprego garantido, condenados a passar várias horas por mês nesse castigo de Sísifo que era mudar o toner da fotocopiadora.

É fácil esquecer quão empolgante e eficaz o The Matrix original era enquanto puro veículo de entretenimento, com a sua simples asserção de que as leis da Física eram provisórias, e a promessa estrategicamente protelada de que o protagonista iria quebrá-las de modos cada vez mais espectaculares. Revendo o filme duas décadas depois, o que mais surpreende é quão eletrizantes continuam a ser as sequências de levitação marcial, e quão nula foi a evolução na coreografia de sequências semelhantes no cinema popular (repletas de escaramuças digitais nocturnas, com milhões de pixels a esborratarem-se uns nos outros às escuras). A clareza cinética - em que cada movimento tem uma ligação coerente e legível com o movimento seguinte - deixou marca, mas poucos descendentes. Independentemente de tudo o resto, a principal chave do seu sucesso foi encontrar a forma mais elegante de mostrar pessoas com bom aspecto, óculos escuros e gabardines pretas a andar à porrada em câmara lenta.

Esse "tudo o resto" é a parte textual do guião - uma barafunda sincrética, como é próprio da melhor ficção pulp. Tematicamente, não há nada de original em The Matrix, tal como não havia em Star Wars. Pegou numa das fábulas ocidentais mais antigas (aquilo que julgas ser a realidade são apenas sombras na parede), e numa das mais potentes (uma figura messiânica vai chegar para nos redimir) - e juntou-lhes algumas doses homeopáticas de ficção científica clássica: o gnosticismo psicadélico de Philip K. Dick, e as artes decorativas do cyberpunk.

Mas a originalidade é um atributo complexo e difuso, que não se mede apenas pelo que é novo. A ficção científica (tal como, aliás, a futurologia profissional) só tem meia dúzia de histórias para contar, todas elas familiares: o Pecado Original, a Profecia do Escolhido, a Grande Guerra, a Ressurreição, o Apocalipse. Qualquer ficção que se dedique a imaginar o futuro faz sobretudo uma profecia de estilo: não no sentido estrito de efeitos visuais, mas um estilo de percepção e extrapolação. A profecia em ficção científica implica não tanto prever o futuro, mas prever o factor de permanência dessa previsão; o truque não é adivinhar o futuro correcto, mas sim, na boa tradição do noir, adivinhar o passado que vai ter melhor aspecto.

Se o Matrix original era sobre fugir ao emprego, as duas sequelas de 2003 já eram sobre um desmoralizante regresso ao trabalho. Reloaded e Revolutions estão repletas de diálogos sobre cadeias de comando, preparativos logísticos, reuniões do conselho executivo, contravenção de ordens directas, preenchimento de formulários, e obtenção das credenciais necessárias para uma nave levantar voo. Apesar do célebre Boom Festival improvisado em Zion, e da multiplicação de Agentes Smith, os filmes tresandavam ao mesmo árido trabalho administrativo para o qual o antecessor servira de escapismo. A acção ainda era electrizante - mas já não era novidade. E a conversa da treta parecia um pouco mais solene, um pouco mais convencida da sua coerência, um pouco mais vulnerável à sua própria propaganda.

The Matrix Resurrections, a mais recente iteração, é totalmente sobre trabalho. Às primeiras impressões o trabalho parece ser criativo e não administrativo, mas até isso é (mais) uma ilusão. O novo filme inclui mais excertos dos seus antecessores que muitas compilações do YouTube. A trilogia é despromovida a jogo de computador, e a primeira metade do enredo passa-se num ambiente estilo start-up onde se discutem explicitamente os elementos que tornaram a franchise popular. Há repetições, recriações, abundantes meta-piadas, e até referências directas à Warner Bros. (detentora dos direitos) e à sua insensível insistência numa sequela. Algumas das piadas parecem feitas às custas da restante paisagem blockbuster (com infiltrações de humor Marveliano, e um Morpheus recauchutado que - em vestuário e vocabulário - parece apenas mais uma encarnação do Joker). Três personagens diferentes interrompem a acção para explicar a história, que não é mais que um comentário sobre a sua própria existência. No meio de tanta vontade de se zizekar a si próprio, o filme só tem um tema: fazê-lo foi uma ideia estúpida. E tem toda a razão.

O Matrix original foi sobretudo um acidente brilhante - obra de criadores impulsivos e instintivos que juntaram uma caldeirada de ingredientes promissores sem compreenderem cada um deles, nem se preocuparem com a sua compatibilidade. O resultado foi uma magnífica explosão, mas a tipologia específica dos ingredientes - gnosticismo, budismo, Descartes, Baudrillard, kung-fu, etc. - não era relevante, e tudo o que veio a seguir tornou cada vez mais claro que quem a criou também não a entendia. Não é por isso propriamente uma surpresa que o novo filme adicione mais alguns conceitos ao catálogo de coisas que Lana Wachovski e os seus co-argumentistas não entendem nem dominam (como a auto-referencialidade, e a restante caixa de ferramentas do pós-modernismo).

Os momentos mais penosos são suficientemente explicados para que os possamos reconhecer como decisões conscientes, mas a soma de todas essas decisões conscientes não deixa de ser um filme profundamente insatisfatório, de quase todas as maneiras que um filme deste género, com este historial, e com esta bagagem de expectativas, podia ser insatisfatório. Que a insatisfação seja deliberada é irrelevante. Quase tudo se assemelha a uma conversa com o Oráculo do primeiro filme. "Isto é um bocado mau", queixa-se o espectador. "Eu sabia que ias pensar isso", responde o filme. "Então porque é que não és melhor?", pergunta o espectador. "A pergunta que devias fazer é, caso não quisesses tanto ver um filme melhor, será que eu seria na mesma um filme tão mau?".

Este cinismo recursivo não é necessariamente incompatível com humor ou entretenimento - mas o talento, e uma percepção exacta dos seus limites, continua a ser um factor imprescindível. The Matrix Resurrections não tem agilidade imaginativa (nem sorte) suficiente para fazer algo mais sofisticado que um conjunto de caretas ao espelho; e, por mais que ostente a sua má-vontade, está demasiado implicado no modelo de produção de que faz parte, e em todas as circunstâncias que deplora, para fingir plausivelmente que é um artefacto punk, flutuando em pose acrobática acima de todos os seus defeitos.

Contas feitas, The Matrix: Resurrections é um filme porque quis ser um filme, mas na prática é um erro de categoria. Visíveis entre as linhas de código verde estão todas as suas formas latentes: o ensaio crítico, a declaração de princípios, a carta aberta, a birra infantil, a nota de suicídio, e o dedo do meio estendido. Maior do que todas, talvez a sua forma derradeira, é a troca de e-mails no servidor interno de uma empresa, entre um grupo de funcionários a passar o tempo entre tarefas penosas. Há insultos ao patrão, comentários depreciativos sobre outros colegas, confidências desencantadas sobre o produto e sobre quem o consome. A coisa vai-se acumulando e preenchendo os minutos vagos, cheia de memes reencaminhados, piadas recicladas que não divertem ninguém, honestidades estritamente funcionais, e desabafos que se dissolvem em contacto com o ar - até chegar a hora de desligar os monitores e toda a gente ir embora.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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